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Livro

Gabriela Biló transforma 8 de janeiro em narrativa

Obra da fotojornalista reconstrói eventos desde a invasão até 2025
Por O Correio de Hoje
08/04/2026 | 14:17

A cobertura dos atos de 8 de janeiro de 2023, em Brasília, ganhou uma nova dimensão narrativa com o lançamento do livro Juízo Final, da fotojornalista Gabriela Biló. A obra reúne imagens registradas desde o dia da invasão às sedes dos Três Poderes até setembro de 2025, organizadas em uma sequência visual que reconstrói os acontecimentos ligados à tentativa de golpe e seus desdobramentos judiciais.

Naquele domingo, Biló estava de folga em Brasília, onde vive e atua como repórter fotográfica. Ao acompanhar pela televisão as primeiras imagens da depredação, decidiu sair de casa e se dirigir à Esplanada dos Ministérios, já equipada com suas câmeras. O que começou como uma reação imediata a um evento em curso acabou se transformando no material que daria origem ao livro.

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A publicação não se limita ao registro do momento inicial da invasão. O projeto acompanha a evolução dos fatos ao longo de mais de dois anos, incluindo investigações, denúncias e julgamentos que culminaram na condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro. As fotografias são organizadas de forma a construir uma narrativa contínua, conectando diferentes etapas do processo.

Biló opta por não inserir comentários diretos ou interpretações pessoais ao longo da obra. Segundo a autora, a proposta é permitir que o leitor observe os acontecimentos a partir do olhar oferecido pelas imagens. “Os leitores estão literalmente olhando o mundo pelos meus olhos. Pelas fotos, eu mostro como vi o mundo. Então, precisava deixar um pouco de espaço para as pessoas pensarem e refletirem”, afirma.

Apesar dessa escolha estética, a fotógrafa não se declara neutra. Para ela, o jornalismo necessariamente assume uma posição. “Eu não acredito em jornalismo neutro. O jornalismo tem um lado, que é o interesse social e a democracia, e é aí que esse trabalho se posiciona”, diz.

O livro foi desenvolvido em colaboração com Pedro Daltro e Cristiano Botafogo, criadores do podcast Medo e Delírio em Brasília, além do artista gráfico Pedro Inoue. A parceria retoma o trabalho anterior do grupo em A Verdade vos Libertará, obra vencedora do Prêmio Jabuti na categoria de arte. Desta vez, o prefácio é assinado por Marcelo Rubens Paiva, colunista da Folha, a convite da autora.

Diferentemente do projeto anterior, Juízo Final adota um formato mais compacto e de leitura fluida. A intenção, segundo Biló, é aproximar o livro de um objeto de circulação mais ampla, descrito por ela como uma espécie de “mini-Bíblia da trama golpista”.

A inspiração para a construção narrativa veio do filme Oppenheimer, dirigido por Christopher Nolan. Assim como na produção cinematográfica, o livro utiliza imagens em preto e branco para evocar o passado, enquanto o texto incorpora elementos narrativos baseados em depoimentos, incluindo a delação do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro.

A proposta combina reportagem e projeto gráfico, resultando em uma obra que se aproxima de um objeto artístico. Para Biló, a dimensão estética é parte fundamental da experiência de leitura. “Estamos tratando de uma trama muito densa, então por que não tornar essa imersão pelo menos agradável esteticamente?”, questiona.

A autora também destaca que, no jornalismo, a relação entre estética e informação é inseparável. Segundo ela, uma imagem não deve ser analisada apenas por seu valor informativo ou visual isoladamente, mas pela forma como essas dimensões se articulam. “Nem sempre as fotos mais informativas são bonitas, e nem sempre as bonitas são informativas, mas o conjunto delas pode contar uma história cheia de nuances.” Juízo Final se apresenta como uma tentativa de organizar visualmente um dos episódios mais marcantes da política recente brasileira, oferecendo ao leitor uma perspectiva construída.