Mulheres foram às ruas em diversas cidades brasileiras neste domingo 8, Dia Internacional da Mulher, em manifestações que denunciaram a violência de gênero e cobraram políticas públicas de proteção. Em Natal, o protesto ocorreu na Redinha, na Zona Norte da capital potiguar. Mobilizações semelhantes ocorreram em capitais como Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Porto Alegre e Belém.
Na capital federal, o ato reuniu centenas de pessoas nas proximidades da Torre de TV, no centro da cidade. Com cartazes como “Parem de Nos Matar”, manifestantes denunciaram o avanço da violência contra as mulheres e reivindicaram medidas mais efetivas de prevenção e enfrentamento ao feminicídio. O evento contou com a participação de coletivos feministas, movimentos sociais, partidos políticos, sindicatos e grupos culturais.

Além da violência de gênero, as manifestações incluíram outras pautas relacionadas ao cotidiano das mulheres, como o fim da escala de trabalho seis dias por um de descanso (6×1). Organizadoras argumentam que a jornada é especialmente pesada para mulheres que acumulam responsabilidades domésticas e de cuidado com filhos e familiares.
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que 1.568 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil em 2025, número 4,7% superior ao registrado no ano anterior. O crescimento reforçou o tom de denúncia presente nos atos deste domingo, que também lembraram casos recentes de violência contra mulheres em diferentes regiões do país.
Durante a manifestação em Brasília, a artista plástica Daniela Iguizzi apresentou a obra Medo, que retrata um revólver apontado contra uma mulher.
“A mulher não tem um minuto de paz. Ela não tem sossego no seu lar. Ela não tem sossego no seu trabalho. Em todos os lugares nós podemos ser assediadas, podemos ser assassinadas. Por isso, o nome dessa obra é medo. Medo é o que toda mulher brasileira sente”, disse à Agência Brasil.
A coordenadora do grupo de maracatu Baque Mulher Brasília, Raquel Braga Rodríguez, destacou que a mobilização busca pressionar por resultados concretos das políticas públicas voltadas à proteção das mulheres.
“O governo lançou esse Pacto Nacional contra o Feminicídio e a gente gostaria muito que essa política pública fosse realmente colocada em prática, que a gente visse resultado na redução desses números”, afirmou.
No início de fevereiro, representantes dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário firmaram um pacto nacional com medidas voltadas ao enfrentamento da violência de gênero. Durante os atos, manifestantes afirmaram que esperam avanços concretos a partir da iniciativa.
Em Brasília, o protesto também incluiu críticas ao Governo do Distrito Federal (GDF), liderado por Ibaneis Rocha. Integrantes de movimentos sociais questionaram a falta de recursos para políticas públicas voltadas às mulheres. A representante da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), Jolúzia Batista, afirmou que o financiamento dessas políticas tem sido prejudicado por decisões orçamentárias.
“Estamos vivendo um escândalo financeiro no Brasil com o banco do GDF [o BRB] sendo rifado e faltando dinheiro para a política pública”, disse. Segundo ela, a falta de recursos compromete serviços, capacitação de profissionais e campanhas educativas.
“A gente precisa falar de orçamento. Com as emendas parlamentares, as emendas Pix, elas levaram o dinheiro da política pública. Perdemos qualidade de serviço, perdemos capacitação de profissionais, perdemos em campanhas educativas”, acrescentou.
As manifestações também tiveram momentos de caráter simbólico. Em São Paulo, participantes instalaram diversos pares de sapatos femininos na Avenida Paulista, representando vítimas de feminicídio. Em Belo Horizonte, 160 cruzes foram colocadas na Praça da Liberdade em memória das mulheres assassinadas no estado em 2025 e 2026.
No Rio de Janeiro, milhares de pessoas participaram de uma marcha na praia de Copacabana pedindo o fim da violência de gênero. Ao longo do trajeto, manifestantes entoaram palavras de ordem e levaram faixas em defesa da igualdade de direitos e de políticas públicas voltadas às mulheres.
Segundo organizadoras, as mobilizações também buscaram reforçar pautas legislativas em debate no Congresso Nacional, como um projeto de lei que pretende tipificar a misoginia — conduta de ódio contra mulheres — como crime.
Em diversas cidades, os atos reuniram mulheres de diferentes gerações, além de representantes de movimentos sociais, sindicatos e entidades estudantis. Para as organizadoras, as manifestações reforçam o caráter histórico do 8 de março como um dia de mobilização política em defesa dos direitos das mulheres e de denúncia das desigualdades ainda presentes na sociedade brasileira.
Feminicídio
O feminicídio é o assassinato de uma mulher cometido por razões da condição de sexo feminino. O crime está previsto no Código Penal desde 2015, quando a Lei nº 13.104 incluiu o feminicídio como circunstância qualificadora do homicídio.
A legislação considera feminicídio quando o crime envolve violência doméstica e familiar ou quando há menosprezo ou discriminação à condição de mulher.
Nesses casos, a pena prevista para o crime é de reclusão de 20 a 40 anos. A lei também prevê aumento da pena quando o crime é cometido durante a gestação ou nos três meses posteriores ao parto, contra menores de 14 anos, maiores de 60 anos ou pessoas com deficiência, ou na presença de descendentes ou ascendentes da vítima.