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Paulo Nassar

O minuto que revela quem somos

Confira o artigo de Paulo Nassar desta quinta-feira 26
Paulo Nassar
26/02/2026 | 05:14

A morte é um dos grandes organizadores da vida social. Como lembram historiadores e filósofos da cultura, ela é o paradigma da perda irrecuperável e, por isso mesmo, o fundamento de toda prática da memória. Os mortos são a quintessência daquilo que deve ser lembrado. Todas as culturas criaram rituais para domesticar o inominável, atribuir sentido à ruptura e reinscrever o morto no tecido simbólico da comunidade. O modo como uma sociedade lida com a morte e o luto não é detalhe folclórico: é índice de educação afetiva e de respeito pelo outro. É um termômetro moral.

A comemoração dos mortos possui um impulso duplo: é recordação e também defesa contra o retorno perturbador dos mortos ao espaço dos vivos. As comunidades organizam lugares e tempos para estabilizar a ordem entre vivos e mortos. Quando esse equilíbrio falha, emergem patologias do social.

No Brasil, onde o futebol ocupa um lugar quase totêmico na vida coletiva, existe um ritual breve e eloquente: o chamado minuto de silêncio antes das partidas. Trata-se de um gesto de suspensão do ruído, de reconhecimento público da perda, de inscrição do morto na memória comum. É um rito mínimo e exatamente por isso, profundamente simbólico. Não exige dinheiro, infraestrutura ou tecnologia. Exige apenas silêncio e educação.

Mas o que vemos, com frequência constrangedora, é o contrário: gritos, vaias, cantos organizados, apitos. O minuto de silêncio converte-se em minuto de ruído. A homenagem transforma-se em interrupção incômoda do espetáculo. O morto é engolido pela ansiedade do jogo.

É duro dizer, mas é preciso dizer que, nesse momento, o torcedor brasileiro desrespeita os mortos.

Não se trata de moralismo nem de condenação abstrata da paixão futebolística. O futebol é um grande ritual contemporâneo, espaço de pertencimento e emoção compartilhada. Justamente por isso deveria ser também espaço de elevação simbólica. Se há um lugar capaz de produzir silêncio coletivo, é um estádio com milhares de pessoas. Quando isso não acontece, revela-se uma fratura na nossa pedagogia social do luto.

Os rituais públicos permanecem essenciais para estabilizar a ordem entre vivos e mortos. Eles funcionam como marcas do “foi”, do ter-sido e como narrativas que estruturam a memória coletiva. O minuto de silêncio é uma dessas formas condensadas: uma narrativa muda que diz “aqui houve vida”.

Quando o silêncio é sabotado, o que se afirma é a primazia do espetáculo sobre a memória. O morto homenageado pode não ser “do meu time”. Mas o rito exige reconhecer que, antes de torcedores, somos mortais.

Sociedades civilizadas sabem parar. Sabem que o silêncio é linguagem ética. Quando o minuto de silêncio falha, não falha apenas a organização do evento. Falha um pacto invisível que sustenta a comunidade.

O minuto de silêncio não é sobre o morto apenas. É sobre nós. Sobre a escolha entre o ruído que dispersa e o silêncio que funda. E sobre a pergunta incômoda: que tipo de sociedade somos quando não conseguimos silenciar por sessenta segundos diante da morte?