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Literatura

Marcos Antonio Campos transforma palavra em matéria viva em ‘Nanquim’

Décimo livro do escritor potiguar reúne poesia metrificada, experimentalismo visual e crítica social em obra de 280 páginas que levou 20 meses para ser concluída
Elias Luz
21/01/2026 | 05:00

Aos moldes de um caderno onde texto e imagem se contaminam mutuamente, Nanquim, décimo livro de Marcos Antonio Campos, reafirma uma trajetória literária marcada pela inquietação formal e pela recusa a fronteiras rígidas entre gêneros. Poeta, cordelista e experimentador da palavra, o autor potiguar construiu ao longo de décadas uma obra que transita entre a poesia tradicional, a poesia-matuta, o cordel, o poema visual e o jogo gráfico com a língua portuguesa — movimento que atinge novo grau de maturidade neste lançamento.

Dividido em três partes — Vintage, Desassossego e Social —, o livro propõe uma espécie de percurso afetivo e estético. Na primeira seção, Vintage – que se refere a objetos, roupas ou estilos de épocas passadas (geralmente 1920-1980), valorizados pela qualidade, design clássico e charme nostálgico, sendo peças originais e bem conservadas, em contraste com o retrô, que é uma releitura moderna de estilos antigos – o escritor Marcos Antonio Campos traz a predominância dos poemas de rimas metrificadas, em diálogo com formas clássicas e com uma musicalidade que remete tanto ao cordel quanto à lírica europeia. Não por acaso, Campos se declara leitor de Charles Baudelaire, Vladimir Maiakóvski e Johann Wolfgang von Goethe, referências que atravessam sua escrita sem jamais submeter o texto a um exercício de imitação.

Marcos Antonio Campos transforma palavra em matéria viva em ‘Nanquim’
Marcos Antonio Campos apresenta Nanquim, décimo livro do autor potiguar, dividido em partes em que poesia, imagem e jogo gráfico chegam a se entrelaçar - Foto: José Aldenir/Agora RN

Em Desassossego, o tom se torna mais introspectivo. O próprio autor define essa parte como “meu eu”, um espaço em que a palavra se dobra sobre si mesma, expondo conflitos íntimos, fragmentações e silêncios. Já a terceira parte, Social, amplia o foco para o embate coletivo: as brigas do povo, as disputas por poder, os direitos em conflito e as contradições da vida em sociedade surgem como matéria poética, em versos que buscam tensionar forma e conteúdo.

Um dos aspectos mais marcantes de Nanquim é o diálogo entre poesia e artes visuais. O livro reúne ilustrações de grafiteiros, cujos desenhos simbolizam e expandem os sentidos dos poemas. Em várias passagens, a palavra deixa de ser apenas veículo de significado para se tornar objeto: há poesias em forma de coisas, jogos tipográficos e a invenção de vocábulos, com a expansão deliberada da língua portuguesa por meio da troca e da fusão de letras. “Sou uma pessoa normal na minha vida privada, mas quando mergulho na literatura, confesso toda a minha loucura”, sintetiza o escritor.

Funcionário aposentado do Banco do Brasil, Marcos Antonio Campos construiu sua vida profissional longe dos círculos literários tradicionais. Formado em Administração e Contabilidade, também atua nas áreas de turismo e mercado financeiro. A literatura, no entanto, sempre ocupou o centro de sua vida intelectual. Ele também é formado em Letras. “Escrevo em vários formatos de poesia e assim vou me preenchendo”, resume o autor, ao comentar uma produção que se recusa à especialização.

Reconhecido por prêmios no Brasil e no exterior, Campos já foi vencedor do Concurso de Literatura de São Paulo — o Prêmio Tatuí, patrocinado pelo Banco Itaú —, recebeu duas premiações da Universidade de São Paulo (USP) e foi eleito duas vezes poeta do ano na categoria acima dos 60 anos. Também teve trabalhos premiados em Portugal e no Rio Grande do Norte.

Além de Nanquim, sua bibliografia inclui títulos como Um bêbado sonhador, Babel, Algodão Doce, Absinto, Dreamirim — obra em que mistura inglês e português —, além de livros de cordel dedicados ao folclore brasileiro e à tradição popular nordestina. Dois de seus livros foram publicados com recursos da Lei Aldir Blanc, e ele integra coletâneas lançadas pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e pela Universidade Federal Rural do Semiárido (Ufersa).

Marcos Antonio Campos também se dedica ao trabalho editorial de preservação da memória familiar. Foi responsável pelo lançamento de dois livros de seu irmão falecido, João Bosco Campos: A pipa e Alferes de João Domingos Fernandes Campos: história e genealogia.

Em Nanquim, o que se vê é a síntese de um percurso singular: um autor que transforma a palavra em desenho, o verso em gesto e a poesia em espaço de resistência estética. Em tempos de linguagem acelerada e descartável, Marcos Antonio Campos aposta na permanência do traço — como o nanquim, que insiste em marcar o papel.