Operações recentes deflagradas pelas forças de segurança em Natal e na Região Metropolitana sugerem que, finalmente, a vontade política de enfrentar a criminalidade resolveu dar sinais concretos de vida. As ações realizadas nas últimas semanas na Zona Oeste e em Mãe Luiza indicam uma mudança de postura que merece ser registrada. Há muito não se via, no Rio Grande do Norte, ações tão amplas, coordenadas e, sobretudo, contundentes contra o crime organizado.
O Estado voltou a agir para que territórios saiam das mãos de facções criminosas. Não se trata apenas de números — embora eles falem por si. Na Zona Oeste, foram 32 presos, armas e drogas apreendidas, mandados confirmados pela Justiça. Em Mãe Luiza, 16 prisões, centenas de milhões bloqueados, armas recolhidas, acampamentos desmontados em áreas de mata e duna. Trata-se de algo maior: a sinalização de que há planejamento, comando e articulação entre instituições. Isso não é pouco em um estado que, por anos, conviveu com operações episódicas, muitas vezes mais barulhentas do que eficazes.

O que chama atenção, e precisa ser destacado, é que as ações têm sido bem-sucedidas sem que se recorra à violência indiscriminada. Em Mãe Luiza, uma comunidade populosa, densa e historicamente vulnerável, não houve disparos, nem policial ferido, nem cidadão atingido. O registro foi feito pelo secretário de Segurança, Coronel Araújo, e precisa ser sublinhada porque desmonta um velho argumento: o de que só se combate o crime com confronto e morte.
Ao contrário. Operação bem-sucedida é aquela que resulta em prisões, apreensões e desarticulação das estruturas criminosas — não em cadáveres. Mortes não são indicador de eficiência institucional. São, quase sempre, evidência de falha. O que se viu em Mãe Luiza foi planejamento, inteligência e execução técnica. O uso de câmeras térmicas para identificar esconderijos, a chegada coordenada das forças, a integração entre polícias e Ministério Público. Tudo isso indica profissionalização. E profissionalização, quando acontece, salva vidas.
Não se trata de romantizar a ação policial nem ignorar os riscos envolvidos em incursões desse tipo. Cada território tem sua dinâmica, seus códigos e seus perigos. Operações policiais não são filmes com enredo previsível. Mas quando há estratégia, a chance de sucesso aumenta — e os danos colaterais diminuem. Foi o que aconteceu agora.
Outro aspecto que não pode ser negligenciado é a mudança de abordagem anunciada pelo Governo Federal no projeto-piloto aplicado no Rio Grande do Norte. A chamada Operação Território Seguro não se restringe à repressão. A proposta é ocupar com polícia, mas permanecer com políticas públicas. A lógica é simples e correta: não basta expulsar criminosos, é preciso preencher o vazio com o Estado. Justiça, assistência social, serviços urbanos, saúde, educação. A polícia entra, estabiliza. O poder público entra, transforma.
Essa combinação, repressão qualificada e políticas sociais, é o que há de mais moderno em segurança pública no mundo. Não adianta apenas trocar o dono do território. É preciso mudar a lógica de abandono que permite que o crime volte a se instalar. O desafio, agora, será dar continuidade. Operações pontuais podem até produzir impacto momentâneo, mas só a presença permanente do Estado consolida resultados.
Por isso, é justo reconhecer que, desta vez, há algo diferente no ar. O discurso que por anos prometeu enfrentamento agora começa a ter prática. E prática, em segurança pública, é o que separa retórica de resultado.
Ainda é cedo para declarar vitória. A criminalidade não se desfaz em semanas. Mas é possível afirmar que o caminho mudou. E quando o rumo é outro, a esperança deixa de ser um discurso e passa a ser um projeto.
Que esse novo momento não seja um ponto fora da curva. Que não seja uma exceção estatística. Que seja, enfim, o início de uma política contínua de retomada de territórios, reconstrução social e fortalecimento das instituições. Segurança pública não se faz com improviso. Se faz com estratégia. E, ao que tudo indica, o Estado começou, enfim, a entender isso.