A preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) se assemelha a uma maratona em que a regularidade conta mais do que o fôlego inicial, segundo o professor André Cury, diretor acadêmico do Colégio Porto e um dos nomes mais conhecidos da educação potiguar.
Ele afirma que os meses de setembro e outubro são decisivos para o desempenho dos candidatos e devem ser encarados como a reta final de uma corrida. “Na corrida de São Silvestre muitas vezes vemos um brasileiro na liderança, mas que não mantém o ritmo, e então chegam os quenianos na reta final, dão o gás máximo e vencem. O Enem funciona da mesma forma: essa reta final vai decidir a vida de muita gente”, comparou, em entrevista ao Manhã CBN.

O exame, que neste ano será aplicado nos dias 9 e 16 de novembro, se consolidou desde 2009 como a principal porta de entrada para o ensino superior no Brasil, substituindo em grande parte os vestibulares tradicionais e servindo de base para o Sistema de Seleção Unificada (SISU).
A experiência acumulada ao longo de 27 anos de sala de aula permite a André traçar paralelos entre as mudanças do exame e a evolução dos alunos. Ele reforça que a regularidade nos estudos é essencial, mas lembra que “os dois meses mais importantes do ano são esses que antecedem a prova. A revisão serve para relembrar assuntos vistos no início do ano e deixá-los frescos para o dia do exame”.
A orientação do professor é clara: disciplina, prática intensa e correção dos erros. “É muito importante que o aluno corrija o erro. Quanto mais erros forem corrigidos nessa reta final, melhor”, disse. Ele recomenda simulados não apenas para medir desempenho, mas como treinamento de resistência e de leitura.
“Não só matemática, todas as áreas exigem prática, mas algumas, como a matemática, mais ainda. Os simulados são super importantes, não pela nota em si, mas como treino. Essa reta final é muita prática e correção”.
Para os estudantes que estão na primeira ou segunda série do ensino médio e usam o Enem como treineiros, a estratégia muda de acordo com o objetivo. “Se é só para ter a experiência de fazer a prova, não há tanta preocupação com revisão. Mas se for para valer, a orientação é a mesma dos demais candidatos”, explicou.
Quanto ao perfil da prova de matemática, André afirma que houve poucas mudanças em mais de uma década. “Eles respeitam basicamente os mesmos tipos de assuntos que eram cobrados há dez, quinze anos. A prova é muito bem elaborada, contextualiza com situações do cotidiano e dá gosto de trabalhar em sala de aula”.
Um aspecto que, segundo ele, ganhou peso é a interpretação. “Hoje, o poder de interpretação do aluno é essencial. Muitos têm dificuldade de saber o que a questão está pedindo. Saber interpretar bem faz a diferença. Antigamente as questões eram mais diretas, hoje exigem mais concentração e leitura. Há menos cálculo e mais interpretação.
O professor, que começou a dar aulas aos 18 anos, acompanhou de perto a transição do vestibular para o Enem e a chegada do SISU. Ele acredita que o perfil do aluno aprovado não difere tanto do perfil de quem obtém sucesso em outras áreas da vida: disciplina e perseverança.
“Ser disciplinado não é fácil. É simples, mas difícil de colocar em prática. Aquele aluno que enfrenta uma dificuldade em duas, três semanas, muitos desistem. Outros vão até o fim, e são esses que conseguem boas aprovações”.
A tecnologia, segundo André, mudou o modo de estudar e o comportamento dos alunos. “Antes um aluno resolvia quatro questões em uma hora. Hoje, com plataformas digitais, consegue resolver dez, quinze. Tornou-o mais produtivo, mas apenas para quem sabe usar. Quem usa como muleta não tem o mesmo resultado”.
Ele alerta também para os riscos do celular em sala de aula e se declara totalmente a favor da lei que restringe seu uso. “Na minha opinião, tem que ser radical, não pode ter zona cinzenta. O aluno não pode tocar no celular. Vibrou, tira atenção. Isso atrapalha não só jovens, mas adultos também”.
Ao ser questionado sobre a educação pública e a diretriz do MEC de evitar reprovação nos primeiros anos escolares, André reconhece as dificuldades. “O certo não seria reprovar, seria fazer aprender. Mas é difícil reprovar com as condições que as escolas públicas têm. Enfrentamos falta de bons professores. Cada vez menos jovens querem ser professores, e isso é um problema grave tanto no setor público quanto no privado”.
Ele ressalta que o papel do professor continua sendo decisivo para despertar o interesse do aluno. “O professor faz diferença. Um bom professor mostra a matéria de forma agradável, e o aluno descobre que aquilo não era tão difícil. Já ouvi muitos dizerem que não gostavam de matemática, mas passaram a gostar por minha causa. Isso para mim é o maior elogio”.
À frente do Colégio Porto, que em 2025 completa seis anos, André conta que a escola nasceu em 2019 com foco no ensino médio e em resultados, mas logo enfrentou a pandemia nos primeiros 40 dias de aulas.
“Já tínhamos preocupação com tecnologia e conseguimos acompanhar as mudanças que a pandemia acelerou. Hoje temos uma sede própria, grande, que surpreende quem visita, e estamos em expansão”.
A instituição, diz, vem amadurecendo sua proposta e consolidando posição entre as grandes escolas da capital.