O teatro potiguar vive uma contradição: ao mesmo tempo em que exporta espetáculos premiados nacionalmente, como “A Invenção do Nordeste”, do Grupo Carmin, enfrenta dificuldades para manter uma cena local ativa, com a falta de espaços para ensaios, estreias e circulação. A avaliação é de Quitéria Kelly, atriz, diretora e uma das fundadoras do Carmin, grupo que projetou o Rio Grande do Norte no cenário cultural brasileiro.
“São 27 anos dedicados ao teatro em Natal. Hoje, me vejo como uma pessoa atuante no teatro potiguar, sempre com o objetivo de inserir o RN no cenário nacional, atraindo o olhar de críticos, festivais e do público em geral para o que é produzido aqui”, resumiu Quitéria, nome recente da teledramaturgia da Globo – participou das novelas Renascer, Mar do Sertão, Malhação, Um Lugar ao Sol e da série Onde Nascem os Fortes.

Quitéria iniciou a carreira em 1998, através de uma oficina teatral no Departamento de Artes da UFRN, e passou por vários grupos locais até fundar, com Titina Medeiros, o Grupo Carmin em 2007. A proposta era buscar a essência local: falar do entorno, da cidade e da sociedade potiguar, criando dramaturgia própria. “Queríamos escrever nossas próprias histórias, não apenas reproduzir clássicos. E queríamos um grupo em que nós, como mulheres, também pudéssemos opinar nas criações, fugindo das direções majoritariamente masculinas da época”, relembrou.
Para a artista, em termos de quantidade de grupos, o cenário local em 2007 era semelhante ao de 2025 – nesse aspecto, a cidade não evoluiu tanto quanto ela gostaria. “A grande diferença é que, naquela época, tínhamos mais espaços teatrais em funcionamento, como o Centro Experimental, o TCP, o Sandoval Wanderley, o Teatro Alberto Maranhão, e até casarões na Rua Chile que abriam espaço para saraus e esquetes. A ‘AS Livros’ promovia saraus poéticos mensais, convidando artistas do teatro para performar poesias, e o pátio da Funcarte também era palco para apresentações de rua. Era um cenário favorável para novos artistas se apresentarem e experimentarem”, opinou.
Um dos maiores reconhecimentos do Carmin veio em 2019, quando “A Invenção do Nordeste”, espetáculo baseado na obra de Durval Muniz de Albuquerque Júnior, foi a peça brasileira mais premiada do ano, conquistando o Shell e o Cesgranrio, entre outros. Quitéria guarda na memória a noite em que o Carmin venceu o Cesgranrio de Melhor Espetáculo, no Rio de Janeiro.
“Estava sozinha, sem expectativa alguma. Concorríamos com ‘Elza’ e ‘Dogville’, produções gigantescas. Quando anunciaram o Carmin, quase desmaiei. Subi ao palco diante de Fernanda Montenegro e de uma plateia nacional. Foi lindo ver o nome do RN estampado nos jornais do dia seguinte. Naquele momento, entendi o quanto esse trabalho mexeu com as estruturas do pensamento colonizador sobre nossos corpos, cultura, sotaque e jeito de ser. A partir dali, as artes nordestinas deram uma guinada”, contou.
“A Invenção do Nordeste” aborda o surgimento e a trajetória histórica da região, propondo a desconstrução da imagem estereotipada do nordestino. “Nunca tivemos receio do que colocávamos no palco. Tínhamos bagagem suficiente para falar sobre aquilo e acreditamos que, antes do Carmin abordar o tema de forma crítica, nenhum outro espetáculo havia sido criado com essa perspectiva sobre o povo nordestino. Sabíamos que o espetáculo poderia agradar ou não, mas isso nos instigava”.
Desafios de grupos de teatro potiguares
Se fora do Estado o Carmin acumula reconhecimento, em Natal a realidade é bem mais dura. “Solicitamos o uso da sala de ensaio do Teatro Alberto Maranhão, um equipamento público, e a única opção que nos foi oferecida foi o turno da manhã. Para um grupo que trabalha, no mínimo, oito horas por dia, isso se mostrou inviável. Compreendo que possa haver limitações de agenda, mas é impossível não interpretar isso como uma profunda desconsideração pela nossa trajetória”.
As salas dos espaços públicos culturais deveriam ser ocupadas pelos grupos da cidade, mas o que acontece hoje, de acordo com Quitéria, é que os grupos se amontoam no Tecesol, único espaço que os abriga. “Temos a Rampa Cultural, que abriu recentemente, mas hoje é um espaço para festas privadas e shows esporádicos. A pergunta que faço é: onde se cria nesta cidade?”, questionou.
O público é o menor dos problemas, segundo a atriz. Se há espetáculos prontos e incentivos que permitam ingressos baratos, sempre haverá demanda. “A questão é que os gestores não entendem que o teatro pode ser uma ferramenta poderosa de educação, entretenimento e formação de uma sociedade menos brutalizada”.
“Produção artística de Natal está respirando por aparelhos”
Para a atriz, a produção artística de Natal está “respirando por aparelhos”. Ela questiona a falta de editais de ocupação dos espaços culturais. “É um absurdo estarmos morrendo à míngua com nossa arte”, pontuou. A dificuldade de manter uma estrutura mínima impactou até a estreia mais recente. “Pela primeira vez em 18 anos, não estreamos em Natal. Fomos obrigados a lançar ‘Gente de Classe’ [novo espetáculo] em Angra dos Reis, porque aqui não tínhamos apoio, financiamento nem espaço”, relatou Quitéria.
Ela destaca que a sobrevivência dos grupos se apoia em esforços coletivos e na solidariedade de instituições como o IFRN, que cedeu salas para ensaios. “Foi graças a esse apoio essencial que conseguimos finalizar nossa montagem. Mas é desalentador constatar que, apesar de projetarmos o nome do RN nos principais jornais do país, não encontramos o mesmo reconhecimento em nossa própria terra”.
Apesar dos obstáculos, a cena potiguar segue pulsando, em especial pelo trabalho de grupos de teatro de rua. A reabertura do Teatro Alberto Maranhão (TAM), após restauração, também ajudou a retomar a circulação de espetáculos, ainda que de forma desigual. Para Quitéria, o maior entrave continua sendo estrutural.
Futuro e resistência
O Carmin agora circula com duas produções: “A Invenção do Nordeste”, prevista para apresentação ainda neste ano em São Paulo e no Maranhão, e “Gente de Classe”, já em negociação para temporada no Rio em 2026. Quitéria também prepara um solo sobre a origem do feminino. Mesmo diante das dificuldades, ela defende manter as raízes no estado. “O grupo nasceu em solo potiguar, os integrantes moram aqui e nossas inspirações surgem daqui. É importante mantermos o Carmin no RN para descentralizar o foco das produções do eixo Rio-São Paulo”.
A atriz revelou ainda que o Carmin deseja realizar ciclos de formação continuada em Natal. “Sinto falta de cursos que possibilitem a formação de artistas na cidade. Anualmente, realizamos uma oficina para compartilhar nossos aprendizados – já estamos na quinta edição e pretendemos ampliar para duas ou três por ano”. E conclui: “Fazer teatro nunca foi fácil, mas não precisava ser tão difícil assim”.