Dois dias após o rebaixamento do ABC à Série D de 2026, o presidente do clube, Eduardo Machado, concedeu coletiva no Complexo Vicente Farache, em Natal, nesta segunda-feira 1º. Em tom de autocrítica, o dirigente pediu desculpas à torcida e defendeu que o clube precisa debater mudanças estruturais profundas, citando a necessidade de discutir a transformação em Sociedade Anônima do Futebol (SAF) ou outros mecanismos de profissionalização.
“Os problemas do ABC não surgiram quando eu sentei na cadeira da presidência. E eles não vão acabar em 2027, quando eu sair, se a gente não repensar esse modelo de clube. Que é um modelo, infelizmente, hoje, fadado ao insucesso. E quem está dizendo isso não sou eu. Quem tá dizendo isso são as últimas temporadas do ABC”, afirmou.

O dirigente citou o histórico de rebaixamentos como prova da necessidade de mudar a gestão. “O ABC, neste século, já teve sete rebaixamentos. Será que todos os ex-presidentes que passaram por aqui são todos incompetentes? São todos mal-intencionados? Ou não chegou o momento da gente discutir o modelo de gestão do ABC? Da gente discutir o modelo político? Da gente discutir a estrutura?”, questionou.
Eduardo Machado ressaltou que o futebol evoluiu, enquanto o clube permaneceu estagnado. “O futebol, principalmente puxado por esse advento das SAFs, ele está aqui (nível acima). E o ABC ficou aqui (nível abaixo). A impressão que eu tenho é que o ABC tá lá em 2010 ainda”, declarou.
Eduardo disse que não cogitou renunciar após o rebaixamento. “Eu fui eleito para um mandato de três anos, eu não fui eleito para um mandato de oito meses”, declarou.
Recuperação judicial e planejamento
Na coletiva, o presidente lembrou a recuperação judicial aprovada pelo clube e disse que a medida pode ser um divisor de águas. “Hoje, nós temos o ABC que tem uma dívida de R$ 39 milhões. Se o nosso plano de pagamento for aprovado, essa dívida pode cair para R$ 9 milhões”, explicou.
Ele destacou que a discussão sobre o futuro precisa envolver dirigentes, conselheiros e torcedores. “Eu queria fazer um apelo àquele torcedor do ABC, aos ex-dirigentes, aos conselheiros, a todos aqueles que amam esse clube, que a gente passe a pensar também o ABC de uma maneira estrutural. Como é que a gente vai ver o ABC daqui a 5 anos? Como é que eu quero ver o ABC daqui a 10 anos? E isso passa por um planejamento”, disse.
Responsabilidade pelo rebaixamento
O presidente dividiu responsabilidades pelo rebaixamento, mas não fugiu de críticas à própria gestão. “Eu tenho a minha responsabilidade, eu tenho a minha parcela de culpa, por decisões tomadas e por decisões não tomadas, mas a gente precisa dividir essa responsabilidade também. A gente precisa dividir essa responsabilidade com o Executivo, com a Comissão Técnica, e principalmente com os atletas”, afirmou.
Apesar do insucesso em campo, ele destacou que salários foram mantidos em dia. “A gente chegou até o final da temporada com salários rigorosamente em dia. Isso prova o nosso esforço. Aqui no ABC nunca foi economizado um real em logística. Sempre os melhores voos, melhores hotéis, sempre as condições mais favoráveis possíveis para que o departamento de futebol desempenhasse um bom futebol”, declarou.
Avaliação de 2025 e erros cometidos
O presidente admitiu falhas na condução da temporada. “Eu acho que a gente pode ter perdido o timing de algumas coisas. Talvez o fato de estar muito próximo ou de ter entrado na zona de rebaixamento possa ter feito com que o departamento de futebol, junto com a direção, tomasse algumas decisões que elas poderiam ter sido repensadas”, avaliou.
Ele lamentou a saída de jogadores que poderiam ter contribuído na reta final. “As saídas de alguns jogadores, como o Jonatha Carlos, como o próprio Orlando Júnior, porque por mais que eles não viessem tendo uma titularidade, eram jogadores que já conheciam o ambiente. Mas por outro lado também, a gente trouxe mais três atletas que chegaram e jogaram bem, que foi Alisson Taddei, Oller e o Ronaldy”, disse.
Arbitragem e fatores externos
Eduardo também apontou erros de arbitragem como fator para a queda. “O ABC não teve, durante toda a competição, um pênalti marcado a seu favor. Eu não estou pedindo aqui uma caridade não. Será que a gente não teve um único lance?”, questionou.
Ele citou pontos perdidos em jogos específicos. “O ABC não foi rebaixado agora contra o Retrô ou contra o Itabaiana. O ABC foi rebaixado contra o Maringá. A gente estava ganhando 3×1, com um jogador a mais, e os caras foram lá e empataram. O Anápolis, a gente abre 2×0, os caras viraram, e a gente empatou no fim”, lembrou.
Recado à torcida
Ao final, o presidente pediu confiança ao torcedor. “O recado que eu tenho a dar para o torcedor é que ele possa acreditar e confiar no processo. A gente vai ter um ano de 2026 muito mais pensado e muito mais planejado do que foi 2025. O perfil de jogador que a gente quer são jogadores que já conheçam o clube, que saibam a importância que é jogar no ABC, jogadores que têm fome de bola e que deixem o sangue dentro de campo, literalmente, para defender as cores do clube”, concluiu.