BUSCAR
BUSCAR
Retratos da nossa história

Rio Potengi luta para proteger recursos naturais e seguir como fonte de renda

Pescadores pedem mais apoio e se dizem “esquecidos”; Idema afirma que criará unidade de conservação no mangue
Fernando Azevêdo
22/08/2025 | 05:20

O rio Potengi, um dos mais importantes do Rio Grande do Norte, é símbolo de biodiversidade e história. O curso do rio começa em Cerro Corá, no Seridó potiguar, e percorre 18 cidades até o encontro com o mar, em Natal. Sua importância é tamanha que ele inspirou o próprio nome do estado, sendo batizado como “Rio Grande” pelos colonizadores. No entanto, a preservação de seus recursos naturais é um desafio. Apesar disso, o rio segue como fonte de renda essencial para pescadores artesanais, que cobram mais apoio do poder público.

O encontro do Potengi com o mar, na região estuarina localizada sob a ponte Newton Navarro, é uma das paisagens mais conhecidas da capital potiguar. Apesar de sua beleza e riqueza de ecossistemas, o rio enfrenta desafios socioambientais. Em resposta a essa situação, o Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente (Idema) do RN anunciou a criação de uma unidade de conservação na área de mangue, uma demanda que existe desde 2005 para mitigar riscos ambientais.

Rio Potengi luta para proteger recursos naturais e seguir como fonte de renda
Rio continua sendo uma fonte de renda para diversas comunidades, especialmente por meio da pesca, mas profissionais pedem mais apoio - Foto: José Aldenir/Agora RN

Um marco histórico que envolve o rio é a Conferência do Potengi. Em 28 de janeiro de 1943, o então presidente Getúlio Vargas se reuniu com o presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt, para discutir a atuação do Brasil ao lado dos Aliados na 2ª Guerra Mundial. A capital potiguar era uma cidade estratégica para o conflito e já cooperava com os americanos antes mesmo desse encontro.

Hoje, o rio continua sendo uma fonte de renda para diversas comunidades, especialmente por meio da pesca. Uma das ações de preservação do rio é liderada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, o Projeto Potengi. O objetivo é restaurar áreas degradadas da bacia hidrográfica, recuperar nascentes e propor soluções de saneamento básico. Segundo a universidade, as áreas de nascentes sofrem com a degradação causada por atividades humanas, como mineração e agropecuária.

Pescadores pedem mais apoio

Manoel Nazareno de Oliveira, 49 anos, pesca desde os 10 anos e é morador de Canto do Mangue, zona leste de Natal. Ele começou pescando no mar, com o pai, e agora trabalha no rio Potengi. Ao longo de quase quatro décadas, Manoel diz que viu a pescaria mudar um pouco, com épocas de mais e menos peixes. Mas foi com essa atividade que ele criou os quatro filhos e mantém sua renda.

MODELO FOTO PORTAL (5)
O pescador Manoel Nazareno de Oliveira, 49, trabalha desde jovem – Foto: José Aldenir/Agora RN

O pescador afirma que os pescadores do rio são “esquecidos” e precisam de mais incentivo, citando uma série de benefícios que foram prometidos, mas não chegaram até ele. Entre eles, Manoel destaca um prometido na época do desastre ambiental que ocorreu em 2007 no rio Jundiaí, um afluente do rio Potengi. Quarenta toneladas de animais, como peixes, moluscos e crustáceos, foram mortos.

Manoel conta que os pescadores ficaram proibidos de pescar por um tempo e diz que não recebeu a compensação financeira prometida para cobrir o prejuízo da pesca. Recebeu apenas cestas básicas.
“Dizem que o rio estava poluído [em Natal], mas não estava, não. Porque aqui é um rio corrente, ele enche e seca, e aí vem a água do mar. Deram um sacolão e passamos um tempo sem pescar. Depois, voltou ao normal, mas até hoje a gente espera esse dinheiro”, lembra.

Segundo ele, os benefícios são diferentes para pescadores que atuam em alto-mar e no rio, embora ambos participem da Colônia de Pescadores e paguem suas responsabilidades com a entidade.

WhatsApp Image 2025 08 21 at 18.47.52
Os principais peixes na altura do Canto do Mangue são tainha, corvina, pescada e xaréu – Foto: José Aldenir/Agora RN

Manoel trabalha ao lado do colega Gilson Alves dos Santos, 44, que começou a pescar profissionalmente há três anos, após ficar desempregado. Os dois trabalham de segunda-feira a sábado e usam a técnica de rede de tainha.

Os principais peixes na altura do Canto do Mangue são tainha, corvina, pescada e xaréu. Alguns peixes do mar também chegam ao rio, em parte porque se reproduzem no manguezal e migram para o rio antes de irem para o oceano. O momento mais propício para a pesca, de acordo com os pescadores, é o verão, de outubro a janeiro.

Nova unidade de conservação

Duas iniciativas prometem contribuir com a preservação do rio Potengi, segundo o diretor técnico do Idema/RN, Thales Dantas. O processo de criação da Reserva Extrativista Parque dos Mangues, aprovado em agosto deste ano na Câmara Técnica de Unidades de Conservação, é uma dessas ações.

A determinação para criação da unidade de conservação existe desde 2005 e, em 2015, o órgão ambiental se comprometeu com esse processo. Além disso, a pauta do Fundo Estadual de Preservação do Meio Ambiente do RN foi retomada em 2025. Entre os projetos selecionados, Dantas destaca a recuperação do Mangue e a proteção do Rio Potengi. A expectativa é de que o edital do Fundo seja publicado até outubro, com um investimento de R$ 250 mil.

Dantas afirma que o Idema está na fase de estudos técnicos para definir a área da futura unidade de conservação. “A opção é que seja uma unidade de desenvolvimento sustentável, [do tipo] reserva extrativista, já que existem diversas comunidades tradicionais no mangue. Já existe previsão de investimento com recursos de compensação ambiental. A nossa expectativa é de criação no próximo ano, após a etapa dos estudos, consulta e audiência pública”.

O Governo do Estado, por meio do Idema, junto ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e à Capitania dos Portos, é responsável por monitorar, fiscalizar e preservar a biodiversidade do rio Potengi. Além disso, promove ações de educação ambiental, como o Programa Barco Escola RN, relançado em julho deste ano.

WhatsApp Image 2025 08 21 at 18.48.02
Embarcações no rio Potengi – Foto: José Aldenir/Agora RN

“A preservação do rio e de todo o seu estuário é um desafio. Existem comunidades tradicionais que sobrevivem do rio Potengi, a exemplo de indígenas e pescadores artesanais. Há necessidade de limpeza constante e recuperação da qualidade do corpo hídrico, além da garantia de ações voltadas para a recuperação dos mangues existentes”, frisa Dantas.

Esta é a terceira reportagem da série “Retratos da nossa história”, que resgata pontos fundamentais da cultura e da história de Natal e do Rio Grande do Norte e busca entender como o patrimônio público local é tratado.