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História

60 anos do Golpe Militar de 1964 e as profundas marcas deixadas no RN

Memórias, perseguições e lutas: relatos revelam o impacto do regime autoritário no Estado
Redação
30/03/2024 | 11:50

Neste domingo, 31, o Brasil recorda um dos períodos mais sombrios e repressivos de sua história contemporânea: os 60 anos do golpe militar de 1964. Em duas décadas, os brasileiros sofreram inúmeras restrições à liberdade de expressão, revogações de direitos civis e políticos, detenções arbitrárias, torturas físicas e mentais, além de desaparecimentos e mortes violentas. No RN, estado com tradição de resistência e lutas populares, essas transformações drásticas deixaram marcas profundas na sociedade e na cultura locais.

De acordo com os registros da Comissão da Verdade da UFRN, o Estado viu intensas intervenções militares feitas para calar toda forma de organização popular que desafiasse o regime. Nesse contexto, a educação popular e os direitos humanos emergiram como pilares fundamentais de resistência, influenciados pelas inovadoras experiências de Paulo Freire em Angicos (1961) e pelo programa ‘De Pé no Chão Também se Aprende a Ler’, de Djalma Maranhão e Moacir Gomes.

Classificado como “comunista subversivo”, Cassiano passou quase 50 dias preso / Foto: Foto: Cedida
Classificado como “comunista subversivo”, Cassiano passou quase 50 dias preso / Foto: Foto: Cedida

O professor da UFRN e jornalista Cassiano Arruda Câmara relata os eventos que antecederam e sucederam o golpe: “Na noite de 31 de março de 64, eu estava na Tribuna do Norte e fui chamado à residência do governador Aluízio Alves. As comunicações eram precárias, e o gestor acompanhava os acontecimentos em Minas Gerais, governado por Magalhães Pinto, ambos da UDN. Tudo começou com uma revolta nas unidades militares de lá. Saí para a Tribuna, publicar o que estava acontecendo”.

Segundo Cassiano, no RN, as forças políticas apoiaram a revolução, com exceção do então prefeito de Natal, Djalma Maranhão. Aluízio Alves e o senador Dinarte Mariz emergiram como as principais lideranças políticas da época, apoiando as mesmas causas, mas em um racha externo. “Isso só mudou com o AI-5, quando houve um golpe dentro do golpe e o presidente Costa e Silva optou por Mariz. O sistema revolucionário caçou Aluízio, o prefeito de Natal Agnelo Alves e Garibaldi Alves pai, três de uma única família”, explicou.

A complexidade da política potiguar durante o regime militar se refletia na divisão interna do partido Arena (Aliança Renovadora Nacional) no RN. “Na época, foi criada uma gambiarra para acomodar casos como o do RN, em que uma liderança política local era inimiga política de outra liderança política local e ambas faziam parte do mesmo partido: Arena. Só que tinha duas arenas: a vermelha de Dinarte e a verde de Aluízio”.

Cassiano lembrou que, cassados os Alves, “pensaram que eles ficariam fora da política. Mas, na eleição de 1970, eles colocaram dois meninos de 20 anos, Henrique e Garibaldi, ambos pelo MDB, para disputar. Henrique foi o deputado federal mais votado e Garibaldi, o estadual. Aí se inscreveu uma nova página histórica na política norte-rio-grandense”, disse.

PERSEGUIÇÃO POLÍTICA E PRISÕES EM NATAL. Natal transformou-se em epicentro da perseguição política, com o 16° Batalhão de Infantaria se destacando como principal local de prisões políticas. Cassiano relembra as injustiças: “Não havia justificativa para as prisões. Acredito que minha detenção foi ligada à necessidade dos militares de cumprir a punição aplicada aos Alves”.

A Comissão da Verdade da UFRN documentou inúmeras violações em 1964, incluindo tortura, privação de sono e prisões extrajudiciais, que resultaram no desmantelamento das organizações sociais e estudantis do RN. No entanto, entre 1967 e 1968, observou-se um aumento do engajamento popular em ações de resistência ao regime, demonstrando a luta dos potiguares contra a opressão.

Cassiano foi preso em 16 de maio de 1969 por causa de sua coluna “Informes do Redator”, que levou os militares a vê-lo como “comunista subversivo” e passou quase 50 dias com Agnelo, proprietário e colaborador do jornal, na época. “Minha prisão foi injustificada. Uma simples nota do América contratando um jogador foi interpretada como mensagem cifrada, ligando o América ao vermelho de Dinarte Mariz e ao comandante da Guarnição de Natal, general Hildebrando Duque Estrada”, afirmou.

Primeiro preso político do RN, detido em 2 de abril de 1964, o ex-presidente da Federação dos Trabalhadores Rurais do RN (Fetarn), José Rodrigues Sobrinho relembrou os 20 anos em que viveu exilado, após ser perseguido pelos militares por representar trabalhadores rurais, o que era visto como atividade comunista e subversiva. “Viver na clandestinidade dói muito. A solidão é imensurável. Passei 20 anos vivendo assim e sinto até hoje por tudo o que não pude viver em minha terra, com minha família e amigos”, desabafou.

Ele detalhou como “escapou” dos militares antes de ser detido novamente e submetido a torturas físicas desumanas. “Fui ‘liberado’ em agosto de 1964, mas muitos foram ‘soltos’ e detidos novamente. Recebi ajuda para escapar, e foi o que fiz”, contou, completando que, após sua fuga, passou por várias cidades brasileiras vivendo na clandestinidade e sendo constantemente perseguido e passando por vários países, a exemplo do Peru e Chile, denunciando a ditadura e ajudando os trabalhadores rurais. “Só voltei para meu país em maio de 1987”, afirmou.