Oito meses depois de a Polícia Federal levar da casa de Allyson Bezerra (União) o celular e o computador dele, na Operação Mederi, o ex-prefeito de Natal Carlos Eduardo Alves (União) cobrou nesta quarta-feira 30 a devolução dos equipamentos. E foi além: disse que os investigadores também devem desculpas ao candidato ao Governo do Rio Grande do Norte, de quem é um dos coordenadores de campanha na capital. “Eles deveriam ter devolvido o celular, o computador e pedir desculpas a Allyson Bezerra”, declarou.
O argumento do ex-prefeito é o do relógio, o tempo decorrido desde a operação. Para ele, o intervalo desde as buscas, feitas em janeiro, já daria tempo de sobra para que os órgãos de investigação colocassem na mesa alguma prova de irregularidade — e isso, insiste, não aconteceu. “Olha, o Ministério Público é muito importante, a Polícia Federal é muito importante e eu respeito, mas eles não são infalíveis”, afirmou. Na sequência, qualificou de outra maneira o que os órgãos fizeram no caso: “Então, eles cometeram um excesso, um absurdo, provado agora”.

Na mesma fala, Carlos Eduardo acusou os adversários de tirar proveito conjunto da apuração nos debates. Na leitura dele, houve um acerto ao menos tácito para manter o tema em cena, costurado entre os outros três nomes de maior peso na disputa: Álvaro Dias (PL), o petista Cadu de Lula e Professor Robério Paulino (PSOL).
Deflagrada em 27 de janeiro pela Polícia Federal em conjunto com a Controladoria-Geral da União (CGU), órgão de controle interno do governo federal, a Mederi resultou em 35 mandados de busca e apreensão em território potiguar. O alvo são suspeitas de irregularidade na compra e no fornecimento de remédios a prefeituras do estado, entre elas a de Mossoró, que Allyson então administrava — ele deixou a prefeitura para disputar o Governo do Estado. Na casa dele, segundo o próprio político contou depois da ação, os agentes recolheram um celular, um notebook e dois HDs pessoais.
O leque de suspeitas é amplo. Vai de fraude em licitação a corrupção, passando por lavagem de dinheiro e desvio de verba pública. Entre as práticas sob apuração estão o pagamento por produtos que nunca chegaram ou chegaram pela metade, a cobrança acima do preço de mercado e a compra de medicamentos perto da data de validade.
Uma das frentes gira em torno de um diálogo gravado entre dois sócios da Dismed Distribuidora de Medicamentos, os empresários Oseas Monthalggan Fernandes Costa e José Moabe Zacarias Soares. O registro ambiental, feito pela PF com autorização judicial, flagra os dois discutindo uma possível divisão de propina ligada a contratos com a Prefeitura de Mossoró.
Na conversa aparecem os percentuais: 15% reservados a alguém chamado Allyson e 10% a uma mulher identificada como Fátima. Os empresários também falam de uma ordem de compra de R$ 400 mil que, na prática, corresponderia à entrega de apenas R$ 200 mil em remédios. É dessa diferença, na hipótese que a investigação persegue, que sairia o dinheiro para remunerar os envolvidos.
Allyson nega qualquer participação. Em entrevista concedida em 17 de setembro, defendeu que o sigilo da investigação fosse retirado por inteiro e que o material apreendido viesse a público. “Eu pedi que o meu celular, que todas as informações fossem tornadas públicas”, afirmou. E completou: “Com a certeza de quem não deve, não teme”.
Contou ainda que seus advogados haviam pedido a abertura do processo logo após a operação. Lembrou que as conversas gravadas foram mantidas por terceiros e que compra, recebimento e distribuição de medicamentos na Prefeitura de Mossoró deixam rastro eletrônico, passível de checagem pelos órgãos de controle.
“Trem da Alegria”
Carlos Eduardo creditou ainda a outro assunto uma parte do que considera perda de apoio de Álvaro Dias (PL): a repercussão do chamado “Trem da Alegria” da Assembleia Legislativa. Na conta dele, a exposição dos vínculos do adversário e de parentes com o quadro de servidores do Legislativo melhorou o desempenho de Allyson em Natal. “Eu acho que a gente tirou voto de Álvaro Dias, depois desse escândalo do Trem da Alegria, da Assembleia Legislativa, patrocinado por ele, tá certo?”, disse.
Ele citou os pagamentos que Álvaro e familiares receberam da Assembleia e afirmou que o tema gerou rejeição em faixas de renda diferentes. Também atribuiu ao atual presidente da Casa, Ezequiel Ferreira (PSDB), o mérito de ter ampliado a transparência sobre esses dados.
O caso trata da entrada, no quadro permanente da Assembleia, de gente vinda de outros órgãos e de ocupantes de cargos comissionados, sem que houvesse concurso específico para as funções assumidas. Boa parte dessas nomeações ocorreu no período em que Álvaro Dias presidia o Legislativo estadual.
O Ministério Público começou a apurar formalmente os enquadramentos em novembro de 2002, em ações que alcançaram 193 servidores, distribuídas por 21 processos. O próprio Álvaro entrou pela porta questionada em 1996 e hoje é servidor aposentado da Casa: saiu da Secretaria Estadual de Saúde para assumir o cargo de assessor técnico administrativo. Familiares e antigos auxiliares do político também estão entre os beneficiários contestados.
O assunto chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF). Em março de 2022, o então ministro Luís Roberto Barroso declarou inconstitucionais os mecanismos de ingresso sem concurso e mandou regularizar o quadro funcional. A decisão não ordenou o cancelamento automático das aposentadorias: exigiu que cada situação fosse analisada individualmente, respeitados o contraditório e as decisões judiciais já definitivas. Do primeiro questionamento do Ministério Público até essa decisão, o caso levou duas décadas.
Álvaro tem versão própria sobre o episódio. Sustenta que a Assembleia não dispunha de um quadro de carreira estruturado e que as transferências saíam de deliberação colegiada da Mesa Diretora. O argumento voltou à disputa eleitoral com um acréscimo: como os atos questionados atravessaram administrações diferentes, a autoria não caberia a um único presidente.