A compra de dívidas antigas pelo governo federal é o desenho de um novo programa que a equipe econômica prepara para reduzir o endividamento das famílias. O alvo são débitos velhos, que os credores já quase não esperam receber. A proposta está nos ajustes finais e deve chegar às mãos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em plena campanha eleitoral, num momento de inadimplência em alta no país.
Pelo modelo em estudo, essas dívidas seriam oferecidas em leilão, com desconto pesado. A diferença em relação às versões anteriores do Desenrola é grande: antes, o consumidor tinha de aderir à renegociação; agora, a ideia é comprar essas carteiras e, em seguida, tirar as restrições ligadas aos débitos.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que a equipe trabalha com descontos elevados justamente para que a conta não pese no Tesouro. “Estamos caminhando para um modelo em que a gente faça o leilão e viabilize a compra dessa dívida com um deságio alto para que a gente não tenha grande impacto nas contas públicas do País”, afirmou.
As conversas se concentram em dívidas antigas, inclusive as contraídas entre 2020 e 2022, período mais duro da pandemia. Uma das possibilidades em análise é abarcar débitos de até R$ 15 mil, mas o formato final ainda não está fechado. Também se discute que tipos de dívida entram: pode valer para contas bancárias ou para contas de serviços, conforme a equipe econômica decidir.
A proposta chega num momento de aperto no orçamento doméstico. Mesmo depois dos programas de renegociação, o Brasil tem 73,7 milhões de pessoas com contas atrasadas há mais de 90 dias, e a fatia da renda comprometida com dívidas segue alta.
Como pagar a conta
Um dos pontos centrais da discussão é como financiar a compra das carteiras sem estourar a meta fiscal. A hipótese em cima da mesa é bancar a operação com dinheiro do Tesouro, comprando os créditos por uma fração do valor — o desconto pode chegar a 95%.
Se comprar as dívidas e depois desistir de cobrá-las, o governo pode mexer no resultado primário. Isso acontece porque, ao extinguir os créditos comprados, a União reduz ativos que entram nas estatísticas fiscais.
A equipe econômica estuda também formas de evitar que quem for beneficiado volte logo a se endividar. No Banco Central, discutem-se medidas para tornar mais sustentável a oferta das linhas de crédito mais caras, como o cartão e o empréstimo pessoal sem garantia.
Pacote na reta final da campanha
O programa entra numa sequência de medidas econômicas anunciadas na reta final do calendário eleitoral. Na semana passada, o governo reajustou em 15,04% o valor mínimo do Bolsa Família, que passou de R$ 600 para R$ 691. O custo adicional foi estimado em R$ 5,8 bilhões ainda neste ano e em R$ 22 bilhões em 2027; o Planalto diz que o reajuste cabe no Orçamento e não mexe nas metas fiscais.
A discussão fiscal ganhou corpo depois que Lula falou em ampliar os investimentos públicos. Integrantes da equipe econômica têm reforçado o compromisso com as metas. “Ninguém pode duvidar do compromisso que o presidente tem com a responsabilidade fiscal do País”, afirmou Marco Aurélio de Carvalho, que coordena o Grupo Prerrogativas e atua na campanha de Lula em São Paulo.
A conta das bets
O governo também passou a associar o endividamento das famílias ao avanço das apostas esportivas online. No discurso da Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova York, Lula criticou o funcionamento das plataformas e sinalizou que quer ampliar as restrições ao setor. “A indústria bilionária das bets transforma o vício em lucro. Sua disseminação vertiginosa está endividando e destruindo lares”, afirmou. “O Brasil não vai tolerar esse modelo de negócio.”
Números recentes reforçam a preocupação. Um estudo do Sicredi apontou inadimplência 40% maior entre associados que apostaram online em 2025 na comparação com quem não apostou. O estudo analisou uma amostra de 1,3 milhão de clientes que tinham operações de crédito em aberto.
Para o governo, comprar as dívidas antigas seria a etapa seguinte das políticas abertas pelo Desenrola. Segundo Durigan, 19 milhões de brasileiros já tiveram algum alívio nas versões anteriores do programa. “As próximas vacinas serão mais amplas e vão na linha de recomprar as dívidas mais antigas”, afirmou o ministro.