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Risco

Acidentes de trânsito provocaram quase 7 mil internações no RN entre 2025 e 2026

Levantamento do Lais/UFRN contabiliza 22,4 mil atendimentos em 14 meses, e motociclistas representam 64% das vítimas
Redação
05/08/2026 | 05:38

Os acidentes de trânsito levaram 22.478 pessoas à rede pública hospitalar do Rio Grande do Norte entre 5 de maio de 2025 e 17 de julho de 2026. Desse total, 6.891 ficaram internadas. Os números estão em um relatório técnico produzido pelo Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Lais/UFRN), e divulgado nesta terça-feira 4.

O estudo — coordenado pelo professor e pesquisador do Lais Ricardo Valentim — mostra que aproximadamente três em cada dez vítimas precisaram permanecer internadas. Outros 843 atendimentos, equivalentes a 3,75% do total, demandaram leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Também foram contabilizadas 1.873 reinternações após a alta, que podem estar relacionadas a complicações cirúrgicas ou à necessidade de novos procedimentos, especialmente na área ortopédica.

Acidente com Motoqueiro Vitíma Fatal Rua Jundiaí com Hermes da Fonseca Tirol (47)
Despesas hospitalares e com procedimentos registradas no período ultrapassaram R$ 6,3 milhões, aponta estudo - Foto: José Aldenir

As despesas hospitalares e com procedimentos registradas no período ultrapassaram R$ 6,3 milhões. O custo mediano de cada atendimento foi de R$ 131,54, mas os casos mais graves elevaram significativamente a despesa. Os 10% mais caros ultrapassaram R$ 736,43 por paciente, e um único atendimento chegou a R$ 10.525,21.

Esses valores correspondem ao que foi faturado ao Sistema Único de Saúde (SUS) e não incluem outros impactos econômicos dos acidentes, como afastamentos do trabalho, pagamento de benefícios, reabilitação prolongada, perda de renda e danos materiais.

Em média, os hospitais potiguares receberam 51,2 vítimas por dia — mais de duas a cada hora. O volume mensal aproximado foi de 1.559 atendimentos. Para os pesquisadores, os acidentes deixaram de representar ocorrências isoladas e passaram a exercer uma pressão contínua sobre a rede pública, concorrendo por leitos, insumos, salas cirúrgicas e profissionais que também precisam atender pacientes com outras doenças.

Além das internações, 1.756 pacientes foram transferidos entre unidades, o equivalente a 7,81% do total. Segundo o relatório, essa movimentação revela dificuldades da rede secundária para estabilizar casos complexos e obriga o deslocamento de ambulâncias aos hospitais de referência em busca de UTIs e cirurgias especializadas.

Em 174 casos de alta complexidade, foi necessário utilizar órteses, próteses e materiais especiais. São insumos empregados principalmente em procedimentos ortopédicos e que exercem pressão adicional sobre os estoques e os blocos cirúrgicos.

Vítima mais frequente é homem jovem e motociclista

O perfil predominante das vítimas é formado por homens jovens. Pessoas do sexo masculino corresponderam a 71,18% dos atendimentos, enquanto aproximadamente metade dos pacientes tinha entre 20 e 39 anos. A idade média foi de 34 anos.

Os motociclistas formaram, com larga diferença, o maior grupo: foram 14.406 vítimas, correspondentes a 64,09% do total. Passageiros somaram 3.176 registros, ou 14,1%; motoristas de outros veículos, 2.247, ou 10%; ciclistas, 1.318, ou 5,9%; e pedestres, 911, ou 4,1%. Outros tipos de vítimas ou casos sem informação reuniram 420 registros, equivalentes a 1,9%.

O relatório chama atenção para o uso insuficiente de equipamentos de proteção. Em 34,02% dos casos, a vítima chegou à unidade de saúde sem qualquer equipamento de proteção individual registrado. O uso de capacete apareceu em apenas 50,49% dos atendimentos. Como os motociclistas representam quase dois terços das vítimas, a falta de proteção aumenta o risco de traumatismos cranianos e de lesões que exigem internação, cirurgia ou cuidados intensivos.

Embora predominem em números absolutos, os motociclistas não apresentam a maior letalidade proporcional. Segundo o estudo, a taxa de óbitos entre eles foi de 0,72%. Os pedestres, apesar de representarem somente 4,05% da demanda, apresentaram letalidade de 3,51%, quase cinco vezes maior.

Entre os pedestres atendidos, 35,57% precisaram ser internados e 4,61% passaram por UTI. O relatório caracteriza esse grupo como o de maior vulnerabilidade proporcional, devido à exposição direta ao impacto e à ausência de qualquer proteção física no momento do acidente.

Fins de semana concentram acidentes

No período analisado, o domingo foi considerado o dia mais crítico, com média de 67,68 atendimentos, seguido do sábado, com 60,18. Os fins de semana concentraram cerca de 35% das ocorrências analisadas. Na direção contrária, a terça-feira apresentou a menor média, com 43,05 vítimas.

Também foram identificados picos sazonais. Junho teve a maior intensidade diária, com média de 59,8 pacientes, resultado que o relatório relaciona às festas juninas no interior. Dezembro registrou o maior volume absoluto, com 1.846 casos e média de 59,55 por dia, em um período marcado pelas festas de fim de ano, férias e aumento do fluxo turístico.

Os autores defendem que essa previsibilidade seja utilizada no planejamento das escalas profissionais e dos estoques de sangue, medicamentos e materiais cirúrgicos. O reforço da estrutura nos fins de semana e nos períodos festivos poderia ampliar a capacidade de resposta nos momentos de maior procura.

Pressão em hospitais

A assistência está fortemente concentrada em três hospitais, que receberam juntos 98,34% da demanda estadual. O Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel, em Natal, respondeu por 56,17% dos atendimentos. O Hospital Regional Tarcísio Maia, em Mossoró, concentrou 33,13%, enquanto o Hospital Regional Cleodon Carlos de Andrade, em Pau dos Ferros, recebeu 9,04%.

O relatório também aponta o papel de Natal como polo regional. A capital registrou 5.488 ocorrências, embora 4.744 vítimas fossem residentes no município. Em Parnamirim, ocorreu o movimento contrário: foram contabilizados 1.071 moradores acidentados, mas 895 ocorrências locais. Na avaliação dos pesquisadores, a diferença ajuda a demonstrar que parte das vítimas da Região Metropolitana sofre acidentes durante os deslocamentos diários em direção à capital.

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