A seleção brasileira feminina de vôlei volta a enfrentar, neste sábado 25, às 5h (de Brasília), o principal adversário da modalidade nos últimos anos. A Itália, atual campeã olímpica e tricampeã da Liga das Nações (VNL), chega à semifinal da edição de 2026 embalada pela vitória de virada sobre o Japão e sustentada por uma sequência de resultados que consolidou o país como a nova referência técnica do voleibol feminino internacional.
Para o Brasil, a partida representa mais do que a disputa por uma vaga na decisão. O confronto simboliza a tentativa de interromper um ciclo recente de domínio italiano e recolocar a equipe comandada por José Roberto Guimarães entre as principais forças da modalidade em um cenário que mudou significativamente na última década.

Historicamente, a seleção brasileira construiu sua reputação enfrentando diferentes gerações de rivais. Nos anos 1990, o principal obstáculo era Cuba, potência que eliminou o Brasil na controversa semifinal dos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996. Na década seguinte, foi a Rússia quem protagonizou um dos capítulos mais traumáticos da equipe brasileira ao reverter uma desvantagem de cinco match points na semifinal dos Jogos de Atenas, em 2004.
A resposta veio nos ciclos seguintes, quando o Brasil conquistou o bicampeonato olímpico em Pequim-2008 e Londres-2012, além de dominar o antigo Grand Prix, competição que antecedeu a Liga das Nações, com 12 títulos. Durante esse período, a Itália ainda buscava consolidar sua posição entre as principais seleções do mundo e acumulava vice-campeonatos justamente diante das brasileiras.
A mudança de cenário começou a ganhar forma a partir de 2018, com a criação da Liga das Nações. Beneficiada por um amplo trabalho de formação de atletas e pela renovação de sua estrutura técnica, a Itália passou a transformar resultados consistentes nas categorias de base em conquistas na seleção principal.
Desde então, venceu três edições da VNL, em 2022, 2024 e 2025, conquistou o ouro olímpico em Paris-2024 e eliminou o Brasil na semifinal do Campeonato Mundial de 2025, na Tailândia, em uma partida decidida no tie-break por 15 a 13.
A derrota reforçou uma tendência recente: embora o retrospecto histórico permaneça equilibrado, com sete vitórias brasileiras e seis italianas em confrontos entre Mundiais e Liga das Nações, o momento favorece as europeias. Nos últimos quatro encontros, o Brasil venceu apenas uma vez, justamente diante de uma equipe italiana desfalcada de suas principais atletas.
A evolução italiana tem nomes bem definidos. A oposta Paola Egonu, eleita melhor jogadora do mundo em 2024, tornou-se a principal referência ofensiva da equipe, acompanhada por atletas como Alessia Orro, Anna Danesi e Ekaterina Antropova.
O grupo chega completo para a semifinal, diferentemente do duelo da primeira fase da atual Liga das Nações, quando o Brasil venceu por 3 sets a 2 diante de uma equipe reserva que preservou suas principais jogadoras. Na ocasião, a Itália acumulava uma sequência de 39 vitórias consecutivas. O resultado brasileiro, embora relevante, foi relativizado pelo contexto da escalação adversária.
Do lado brasileiro, José Roberto Guimarães precisou reconstruir parte da equipe ao longo da temporada. A seleção disputa a fase final da VNL sem duas de suas principais atletas.
A ponteira Gabi Guimarães, considerada a segunda melhor jogadora do mundo em 2025, não participou da competição por causa de um desconforto lombar. Já a central Julia Kudiess, líder da estatística de bloqueios da Liga até sofrer uma grave lesão no ligamento cruzado anterior do joelho, está afastada por tempo indeterminado.
As ausências obrigaram a comissão técnica a acelerar o processo de renovação do elenco, abrindo espaço para jogadoras que vinham sendo preparadas desde o ciclo olímpico anterior.
Mesmo diante desse cenário, o desempenho brasileiro manteve-se competitivo. A equipe encerrou a fase classificatória da Liga das Nações com nove vitórias e três derrotas, terminando em terceiro lugar, atrás apenas de Estados Unidos e Itália.
No mata-mata, eliminou o Japão e garantiu presença entre as quatro melhores seleções do torneio. A consistência defensiva, tradicional marca das equipes de José Roberto, permaneceu como um dos principais trunfos da campanha, compensando parte da perda ofensiva provocada pelas ausências de Gabi e Julia Kudiess.
Os números da rivalidade revelam equilíbrio, mas também mostram a mudança de protagonismo vivida pelo voleibol feminino internacional. Desde a criação da VNL, Brasil e Itália se enfrentaram dez vezes, com cinco vitórias para cada lado.
A diferença está no peso dos resultados mais recentes. Enquanto o Brasil construiu sua hegemonia no Grand Prix ao longo de quase duas décadas, a Itália transformou a Liga das Nações em sua principal plataforma de afirmação mundial, convertendo o investimento em formação de atletas em uma sequência de títulos internacionais e consolidando um elenco que hoje ocupa a liderança do ranking da Federação Internacional de Voleibol (FIVB).
Para a seleção brasileira, a semifinal deste sábado representa a oportunidade de alterar essa narrativa. Mais do que interromper a série positiva das italianas, uma vitória significaria recolocar o Brasil na disputa pelo único título que ainda falta ao país desde a criação da Liga das Nações, competição que substituiu o Grand Prix em 2018.
Também serviria para demonstrar a capacidade de renovação de uma equipe que, mesmo desfalcada de duas de suas principais jogadoras, segue competitiva diante da principal potência da modalidade.
Em uma rivalidade que já teve Cuba, Rússia e agora Itália como protagonistas, o confronto poderá indicar se o ciclo de domínio europeu continuará ou se o Brasil conseguirá iniciar uma nova fase em sua história no voleibol feminino.