O pré-candidato ao Governo do Rio Grande do Norte Allyson Bezerra (União) afirmou que o enfrentamento da crise fiscal será a primeira providência de sua eventual gestão a partir de 2027 e prometeu impor um “choque de gestão” para reorganizar as contas públicas do Estado.
Em entrevista ao programa Meio Dia TCM, da 95 FM Mossoró, nesta quinta-feira 9, o ex-prefeito de Mossoró defendeu a informatização dos serviços, a redução de desperdícios, a formação de uma equipe técnica e a negociação com instituições e órgãos de controle para recuperar as finanças do Estado.

“Antes de qualquer coisa, nós vamos ter que organizar as finanças do Estado. Porque, sem as finanças do Estado estarem organizadas, controladas, não há como resolver o problema. Então, é o primeiro tema que eu vou enfrentar”, declarou Allyson.
O pré-candidato afirmou estar ciente da dimensão do desafio e prometeu tratar o assunto com prioridade. “Eu vou enfrentar com coragem. E vou enfrentar esse tema chamando todos os interessados para discutir e para dialogar. Eu não vou tomar medida de cima para baixo. Não vou tomar medida que esteja apenas na minha cabeça ou na cabeça do secretário A ou B”, acrescentou.
A promessa ocorre em meio a indicadores que colocam o Rio Grande do Norte entre os estados com maior fragilidade fiscal do País. Dados reunidos pela Secretaria do Tesouro Nacional (STN) mostram que a dívida potiguar foi a que mais cresceu entre as 27 unidades da federação ao longo de 2025. O endividamento avançou 35% em apenas um ano, passando de R$ 7,2 bilhões em 2024 para R$ 9,7 bilhões no encerramento do exercício. Das 27 unidades da federação, 17 registraram aumento da dívida, mas nenhuma em proporção superior à do RN.
Além disso, nos quatro primeiros meses deste ano, o Rio Grande do Norte comprometeu 56,12% de sua receita corrente líquida com despesa de pessoal. O índice é o maior do País e está acima do limite máximo de 49% estabelecido pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) para o Executivo estadual. Além do RN, apenas a Paraíba também ultrapassou o teto da LRF neste ano, mas com percentual bem menor: 49,75%.
Ao tratar do tema fiscal, Allyson procurou apresentar sua passagem pela Prefeitura de Mossoró como credencial para enfrentar a situação estadual. Ele lembrou que, ao assumir o Município, em janeiro de 2021, encontrou passivos salariais, previdenciários e judiciais.
“Você lembra quando eu assumi a Prefeitura de Mossoró, que os servidores não tinham recebido o 13º de dezembro de 2020? Você lembra que, quando assumi a Prefeitura de Mossoró, tinha servidor terceirizado com cinco meses atrasado? Você lembra que, quando assumi o Município, a Previdência Municipal tinha um rombo de mais de R$ 230 milhões?”, questionou.
O pré-candidato afirmou que pretende adotar no Governo do Estado uma postura semelhante à que empregou em Mossoró, rejeitando a responsabilização permanente de administrações anteriores pelos problemas atuais. “Eu fui enfrentar esses temas, esses assuntos. Eu não fui ficar culpando gestor A ou B, eu fui enfrentar o assunto”, declarou. Em seguida, reforçou: “Eu não vou ficar nem olhando para o retrovisor, falando de gestor A ou B ou C que passou”.
Sem citar diretamente a governadora Fátima Bezerra (PT), Allyson disse que não pretende transformar a herança fiscal em justificativa para a continuidade dos problemas. “Eu não vou ficar culpando o passado eternamente e nem vou colocar problema para debaixo do tapete, empurrando, empurrando, empurrando”, afirmou. Segundo ele, um eventual governo será estruturado para “resolver os problemas de forma técnica”, com secretários qualificados e capacidade de diálogo político e institucional.
Choque de gestão
Durante a entrevista à 95 FM Mossoró, o pré-candidato apresentou a expressão central de sua proposta para as contas públicas. “O Estado do Rio Grande do Norte precisa de um choque de gestão”, declarou. Na sequência, indicou algumas linhas gerais do que entende por esse processo: “A gente precisa informatizar os serviços, deixar de gastar dinheiro pelo ralo. A gente precisa organizar as finanças do Estado, estruturar”.
Os dados do Tesouro Nacional dimensionam a dificuldade de ampliar investimentos sem uma mudança no perfil das despesas. Em 2025, os gastos com pessoal e encargos consumiram 75% da receita estadual, enquanto o custeio respondeu por 21% e os serviços da dívida por 2%. Segundo o RREO em Foco, restaram apenas 4% para investimentos, o menor percentual entre todos os estados brasileiros. O cálculo da despesa com pessoal utilizado no levantamento tem metodologia diferente daquela adotada no Relatório de Gestão Fiscal para verificação dos limites da Lei de Responsabilidade Fiscal, mas permite comparar o peso das despesas entre as unidades da federação.
A diferença em relação à vizinha Paraíba evidencia o tamanho do desafio. No estado paraibano, as despesas com pessoal e encargos corresponderam a 57% da receita, o custeio a 28%, os serviços da dívida a 1% e os investimentos a 13%, percentual mais de três vezes superior ao registrado no Rio Grande do Norte.
Allyson afirmou que pretende recorrer a uma equipe técnica para enfrentar esse quadro. “Nós vamos sentar na cadeira, formar uma equipe técnica, qualificada, secretários que vão engrandecer o Rio Grande do Norte, e vamos resolver os problemas de forma técnica”, disse. O pré-candidato também defendeu negociação com a Assembleia Legislativa para viabilizar mudanças. “A gente precisa conciliar, dialogar com todos. A gente vai conversar com a Assembleia Legislativa? Claro que vamos. Vou sentar com o presidente da Assembleia Legislativa e nós vamos propor melhorias para o Estado, mudanças para o Estado”, afirmou.
Parte importante da pressão sobre as contas potiguares está na Previdência. Segundo a STN, o Rio Grande do Norte teve a maior proporção de despesas com a função previdenciária entre todas as unidades da federação: 34% da despesa total. Durante a entrevista, Allyson foi questionado sobre a possibilidade de uma nova reforma previdenciária, mas não apresentou essa medida como solução para o problema. “Já teve reforma da Previdência. O governo já apresentou uma reforma e foi feita”, respondeu.
Em vez de anunciar uma nova mudança nas regras previdenciárias, o pré-candidato voltou a defender gestão e articulação institucional. Ele relatou que, diante dos problemas fiscais encontrados em Mossoró, procurou o Tribunal de Justiça, o Tribunal de Contas, o Ministério Público de Contas e órgãos federais ligados à Previdência. “Eu dialoguei. Eu fui até Brasília conversar com o Ministério da Previdência, que na época era secretaria. Eu fui dialogar”, afirmou. “Então, o que aconteceu é que eu fui fazer gestão”, completou.