O número de brasileiros que apostam online passou de 11% para 34,8% desde o início da Copa do Mundo, segundo levantamento da fintech Klavi. O dado é preocupante, uma vez que o vício em jogos tem escalado cada vez mais entre a população, acendendo o alerta de especialistas. O psiquiatra Marcelo Falchi pontua que a ludopatia, que é o vício em jogos, é uma dependência comportamental e que o problema surge quando há perda de controle. Ele explica como a pessoa pode perceber se está começando a desenvolver o transtorno.
“Uma dica é observar sinais: as pessoas já se incomodaram ou criticaram seu jeito de apostar? Você sente necessidade de apostar quase todos os dias? Já sentiu culpa pelo que fez ou perdeu? Se duas positivas, parece uma boa procurar um profissional de saúde mental”, disse.

O médico pontua que o vício em jogos já é reconhecido oficialmente como um transtorno mental. De acordo com ele, a ludopatia é um transtorno aditivo, ou seja, que pode haver uma dependência mesmo sem o uso de uma substância ou droga.
Ele explica que a principal diferença entre um jogador recreativo para uma pessoa com ludopatia, é que o primeiro consegue manter a liberdade para escolher quando jogar e parar. Já na dependência, a aposta ocupa todo o espaço, limitando interesses e persiste apesar das consequências negativas. O médico enumera quais são os primeiros sinais de perda de controle. “Pensar excessivamente em apostas, aumentar tempo ou dinheiro investido, tentar recuperar perdas, irritar-se ao parar, esconder o comportamento”.
Falchi explica que não há um perfil único de pessoas acometidas pela ludopatia, porém alguns fatores podem aumentar o risco, como traços de impulsividade, Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), transtorno bipolar, depressão e outras dependências.

Antes do tratamento para o vício ser iniciado é necessário que a pessoa com o transtorno reconheça que está doente, algo que nem sempre acontece de forma tranquila e muitas vezes dificulta o acesso a terapias e cuidados.
“Muitas vezes (a pessoa) reconhece os prejuízos antes de reconhecer a dependência. É comum acreditar que vai conseguir pegar o dinheiro de volta ou parar sozinho”, disse o médico.
Falchi explica que o tratamento psiquiátrico começa pela avaliação da perda de controle, dos prejuízos, do risco de suicídio e das comorbidades. “A psicoterapia é central, associada a medidas concretas como autoexclusão das plataformas, bloqueio de pagamentos, reorganização financeira e apoio familiar. Medicamentos podem ser usados em casos selecionados e para tratar transtornos associados ou sintomas isolados”. A facilidade das apostas online ampliou o problema, já que estão disponíveis 24 horas por dia e acessíveis pelo celular. O médico pontua ainda o pagamento na hora e os ciclos curtos de recompensa aumentam a perda de controle. “É um mecanismo que deve ser combatido clínica e politicamente, incluindo mudanças legislativas”.
A falta da regularização da publicidade para esse tipo de conteúdo acaba agravando o problema, já que além de propagandas em veículos tradicionais como TV e rádio, ainda há a propaganda através das redes sociais feitas por influenciadores digitais. Segundo o médico, os influencers podem normalizar o ato de apostar, reduzindo a percepção de risco, além de associarem o jogo a sucesso ou a diversão. “Isso não causa o transtorno sozinho, mas aumenta a vulnerabilidade. A profissão de influenciador deve receber regulamentação, sob riscos de saúde inclusive”, disse.
De acordo com o psiquiatra, os familiares precisam ficar atentos a alguns sinais como: menos interesses por outras atividades, isolamento, irritação quando se questiona sobre apostas, uso excessivo de celular, dívidas, série de mentiras e tentativas de recuperar as perdas. O médico ressalta ainda que o Sistema Único de Saúde (SUS) não está preparado para a dimensão do problema que as apostas que podem gerar.
“Estamos falando de um risco social e de saúde pública: endividamento, ruptura familiar, sofrimento mental, comportamento abusivo, dependência e risco de suicídio. Além de preocupações sobre o risco do custo econômico a um sistema sobrecarregado e subfinanciado”. Ele alerta sobre o perigo das empresas de apostas se consolidarem no Brasil, sem profunda revisão política e sem marco regulatório. O psiquiatra defende a restrição da publicidade desse tipo de conteúdo, além da responsabilização de plataformas e influenciadores. “O SUS não pode ser transformado apenas na linha de contenção de um dano produzido por uma regulação insuficiente”.