A indústria da pesca oceânica do Rio Grande do Norte voltou a operar sob forte incerteza diante da possibilidade de um novo aumento das tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. Depois de enfrentar uma sobretaxa de 25% sobre as exportações de atum no início do tarifaço anunciado pelo governo do presidente Donald Trump, o setor obteve um alívio temporário com a redução da alíquota para 10% durante as negociações realizadas no ano passado. Agora, porém, uma nova proposta da administração americana poderá elevar a tributação para 37,5%, recolocando em risco uma das principais cadeias exportadoras do Estado.
Segundo o presidente do Sindicato da Indústria da Pesca do Rio Grande do Norte (Sindipesca-RN), Arimar França Filho, o cenário preocupa porque a competitividade da produção potiguar depende do mercado norte-americano, principal destino do atum capturado pela frota industrial do Estado. “A gente vinha respirando com a redução para 10%, mas essa nova ameaça volta a colocar toda a atividade em situação de insegurança. Nossa margem é pequena e qualquer aumento desse porte compromete a operação”, afirma.

O segmento emprega cerca de 1.500 trabalhadores com carteira assinada no Rio Grande do Norte e já acumula perdas desde o início das medidas comerciais adotadas pelos Estados Unidos. De acordo com Arimar França Filho, as exportações do setor recuaram cerca de 50% no ano passado, resultado bem abaixo da expectativa de crescimento que existia antes do início das barreiras tarifárias. Dados da plataforma Comex Stat mostram que, em 2025, o pescado respondeu por cerca de US$ 13,8 milhões das exportações potiguares, desempenho considerado inferior ao potencial do setor. Nos primeiros meses de 2026, as vendas externas continuaram em retração, refletindo tanto os efeitos das tarifas quanto a paralisação de parte das operações de empresas da cadeia produtiva.
Apesar do cenário adverso, a abertura de novos mercados tem proporcionado um alívio parcial. Segundo o presidente do Sindipesca-RN, as exportações de lagosta para China e Taiwan vêm ajudando a compensar parte das perdas provocadas pela retração das vendas aos Estados Unidos. “A lagosta encontrou espaço na Ásia e isso ajuda a manter parte da atividade, mas não substitui o mercado americano para o atum”, afirma. Ainda assim, o dirigente ressalta que a diversificação dos destinos comerciais é um processo gradual e depende da consolidação de novos compradores.

O sindicato também acompanha, por meio da Confederação Nacional da Indústria (CNI), as negociações conduzidas junto ao governo brasileiro para tentar evitar a elevação da tarifa. Segundo Arimar França Filho, a entidade mantém diálogo permanente com a Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte (Fiern) e aposta na articulação institucional para preservar o acesso ao mercado americano. “Estamos sendo representados pela CNI nas negociações. Ela tem interlocução direta com o Governo Federal e esperamos que esse diálogo produza uma solução antes que a nova tarifa entre em vigor”, diz.
Nos últimos meses, o setor também voltou a defender a reabertura do mercado europeu para o pescado brasileiro, fechado desde 2018 por questões sanitárias, como alternativa para reduzir a dependência dos Estados Unidos. A avaliação é de que a retomada das exportações para a União Europeia ampliaria o leque de compradores e diminuiria a vulnerabilidade da indústria potiguar a mudanças na política comercial americana.

Embora as empresas ainda mantenham suas operações, o clima é de cautela. Para Arimar França Filho, a continuidade dos investimentos e a preservação dos empregos dependerão do desfecho das negociações comerciais nas próximas semanas. “O setor já atravessou um período muito difícil. Estamos tentando manter a atividade, preservar os postos de trabalho e buscar novos mercados, mas precisamos de previsibilidade para continuar produzindo e exportando”, afirma.
Uma comitiva de representantes de empresas, associações e entidades do setor produtivo brasileiro iniciaram participação – a partir desta segunda-feira 6 – em audiências públicas nos Estados Unidos para tentar evitar a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos do Brasil. A medida foi proposta pelo governo Donald Trump no âmbito de uma investigação comercial conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, o USTR, órgão responsável pela formulação da política comercial americana.
As audiências fazem parte do processo aberto com base na Seção 301 da legislação comercial americana, mecanismo usado pelos Estados Unidos para apurar práticas consideradas prejudiciais ao comércio do país. Nessa etapa, empresas, entidades, governos e demais interessados podem apresentar argumentos antes da decisão final de Washington, prevista para até 15 de julho. Também participam da comitiva empresários ligados à Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), além de setores como café, arroz, açúcar, etanol de milho, ferro-gusa, rochas ornamentais, madeira, papel, calçados, mel e pescados.