Durante décadas, a obturação foi considerada a resposta quase automática para o tratamento das cáries. Hoje, porém, especialistas afirmam que, em muitos casos, principalmente quando a lesão ainda está em estágio inicial, existem alternativas capazes de evitar procedimentos invasivos, como obturações, coroas e até tratamentos de canal.
A mudança acompanha a evolução da odontologia, que passou a adotar abordagens mais conservadoras para preservar ao máximo a estrutura natural dos dentes. Segundo especialistas ouvidos pelo The New York Times, fatores como a formação profissional, a filosofia de tratamento adotada por cada dentista e até aspectos econômicos podem influenciar as recomendações feitas aos pacientes.

Para Shelbey Arevalo, diretora-executiva do National Dental Advocacy Program, organização norte-americana que auxilia pacientes na navegação pelo sistema de saúde bucal, profissionais formados em épocas diferentes podem adotar condutas bastante distintas diante do mesmo caso.
“Um dentista que se formou em 2026 e outro que se formou em 1999 podem propor planos de tratamento completamente diferentes.”
As cáries surgem quando os ácidos produzidos pelas bactérias da boca desgastam a superfície dos dentes. Quando a lesão permanece restrita ao esmalte — camada mais externa do dente —, nem sempre é necessário recorrer imediatamente à broca. Segundo Sara Stuefen, dentista do estado de Iowa e porta-voz da American Dental Association, ainda existe possibilidade de interromper o avanço da doença.
“Em alguns casos, ainda há tempo para reverter a situação.”
Nessas circunstâncias, medidas simples podem ser suficientes para controlar a lesão, como melhorar a escovação, utilizar corretamente o fio dental, reduzir o consumo de açúcar e, em alguns casos, diminuir a ingestão de café.
A professora associada de Odontologia Clínica da Universidade da Califórnia em São Francisco, Diana K. Nguyen, afirma que muitas pessoas desconhecem essa possibilidade.
“Muitos pacientes não sabem que é possível reverter uma cárie quando ela ainda está nos estágios iniciais.”
Quando a cárie alcança a dentina, camada localizada abaixo do esmalte e mais suscetível à progressão da doença, a maioria dos dentistas recomenda realizar uma obturação. Ainda assim, existe diferença entre os critérios adotados pelos profissionais. Enquanto alguns indicam a colocação de uma coroa quando cerca de metade da estrutura do dente já foi perdida ou restaurada, outros optam por esse procedimento apenas em situações mais avançadas.
Nas últimas décadas, ganhou força a chamada odontologia minimamente invasiva, abordagem que busca preservar ao máximo o tecido dentário saudável e reduzir o uso da broca sempre que possível.
Segundo Margherita Fontana, professora da Faculdade de Odontologia da Universidade de Michigan, a mudança representa uma transformação importante na prática clínica.
“Nos últimos 50 ou 60 anos, nos tornamos muito mais conservadores do que éramos antes.”
Ela acrescenta:
“Existem muitas intervenções preventivas que custam muito pouco.”
Entre essas alternativas estão cremes dentais e enxaguantes bucais com alta concentração de flúor, prescritos pelo dentista, capazes de interromper ou até reverter cáries em estágio inicial.
Além disso, vernizes fluoretados e selantes dentários, antes indicados principalmente para crianças, passaram a ser utilizados também em adultos como forma de prevenir o avanço das lesões.
A odontologia também incorporou novas tecnologias voltadas à remineralização do esmalte dentário. Entre elas está o Curodont, solução aplicada diretamente sobre a lesão que favorece a atração de cálcio e fosfato presentes naturalmente na saliva, auxiliando na reconstrução do esmalte. Outra alternativa são as chamadas pastas remineralizadoras, que liberam minerais diretamente sobre a superfície dos dentes.
Nos casos em que a cárie já se aproxima da polpa dentária, algumas técnicas permitem evitar o tratamento de canal. Uma delas é conhecida como remoção seletiva da cárie, procedimento em que apenas parte do tecido comprometido é retirada, preservando áreas que anteriormente seriam totalmente removidas.
Especialistas lembram que a odontologia também envolve aspectos econômicos. Procedimentos como coroas, obturações e tratamentos de canal costumam gerar maior remuneração do que medidas preventivas ou apenas o acompanhamento clínico de uma lesão.
Segundo Nguyen, esse cenário pode criar incentivos, ainda que inconscientes, para a indicação de tratamentos mais invasivos em situações limítrofes.
“Quanto maior a intervenção cirúrgica, maior costuma ser o retorno financeiro. Não é possível cobrar repetidamente apenas por acompanhar uma lesão ao longo do tempo.”
Nos Estados Unidos, outro tema em debate envolve as chamadas Dental Support Organizations (DSOs), empresas responsáveis pela administração de consultórios odontológicos. Embora essas organizações não possam interferir diretamente nas decisões clínicas, alguns estados norte-americanos abriram ações judiciais alegando que esse modelo de gestão pode aumentar a pressão financeira sobre os profissionais.
Para conhecer melhor a forma de atuação de um novo dentista, os especialistas recomendam que o paciente pergunte sobre a filosofia de tratamento adotada antes de iniciar qualquer procedimento. Segundo Nguyen, um bom profissional costuma valorizar medidas preventivas, discutir alternativas menos invasivas e explicar claramente todas as possibilidades terapêuticas. Ela alerta que a falta de disposição para esclarecer dúvidas pode representar um sinal de atenção.
“Se o dentista estiver com pressa e disser: ‘Não tenho tempo para explicar isso, fale com alguém da equipe’, isso é um sinal de alerta.”
Quando não há dor intensa ou urgência, os especialistas consideram recomendável procurar uma segunda opinião antes de aceitar tratamentos irreversíveis. Arevalo afirma que alguns pacientes sentem constrangimento em informar ao dentista que desejam outra avaliação, mas ressalta que qualquer tentativa de desencorajar essa decisão também merece atenção.