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Saúde

Adoçantes talvez não sejam tão inofensivos quanto parecem

Estudo indica que substâncias podem interferir na microbiota intestinal, alterar marcadores de controle da glicose e reforça a necessidade de novas pesquisas sobre seus impactos a longo prazo
Por O Correio de Hoje
03/07/2026 | 16:26

Os adoçantes artificiais, frequentemente utilizados como alternativa ao açúcar por pessoas que buscam reduzir a ingestão de calorias, voltaram ao centro do debate científico após uma revisão publicada na revista Current Atherosclerosis Reports indicar possíveis efeitos sobre o metabolismo. O trabalho aponta que essas substâncias podem interferir na microbiota intestinal, elevar marcadores relacionados ao controle da glicose e contribuir para alterações metabólicas.

A pesquisa foi conduzida por cientistas do Food is Medicine Institute, da Escola Friedman de Ciência e Política Nutricional da Universidade Tufts, nos Estados Unidos. O grupo realizou uma revisão sistemática e uma meta-análise reunindo as principais evidências disponíveis sobre os efeitos dos adoçantes artificiais e de outros edulcorantes de baixa caloria na saúde.

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Foto: reprodução

Ao todo, foram analisados 21 ensaios clínicos randomizados envolvendo adultos. Os pesquisadores compararam o consumo de adoçantes com água ou placebo sem calorias para identificar exclusivamente os efeitos fisiológicos dessas substâncias, sem a influência da substituição do açúcar.

Os resultados mostraram que o consumo de adoçantes esteve associado ao aumento dos níveis de insulina em jejum e da hemoglobina glicada (HbA1c), marcador utilizado para avaliar o controle da glicemia ao longo dos meses. A análise também identificou tendência de redução da sensibilidade à insulina, condição relacionada ao desenvolvimento de alterações metabólicas.

Segundo a autora principal do estudo, Meng Wang, professora assistente de pesquisa da Escola Friedman de Ciência e Política Nutricional, o desenho da pesquisa permitiu avaliar diretamente os efeitos dos adoçantes.

“O que torna nossa análise notável é que, ao focar em comparadores não calóricos, conseguimos isolar melhor os efeitos fisiológicos diretos dos próprios adoçantes, e não das calorias que eles substituem.”

Ela acrescenta que os resultados combinados reforçam a necessidade de aprofundar as investigações.

“Ao agregar os resultados de estudos individuais, observamos indícios de que esses compostos podem causar prejuízos metabólicos.”

Os pesquisadores apontam que uma das hipóteses para explicar esses efeitos envolve a microbiota intestinal. Como os adoçantes percorrem o trato digestivo antes de serem absorvidos ou eliminados, eles entram em contato direto com os microrganismos que compõem esse ecossistema.

Entre os estudos analisados, um deles utilizou perfis detalhados da microbiota humana associados à transferência desses microrganismos para camundongos. Os resultados mostraram que determinados adoçantes de baixa caloria modificaram tanto a composição quanto o funcionamento da microbiota intestinal.

Além dos ensaios clínicos, a revisão avaliou grandes estudos observacionais que, de maneira geral, identificaram associação entre o consumo de adoçantes artificiais e maior risco de doenças cardiometabólicas. Os autores ressaltam, porém, que esse tipo de estudo possui limitações, já que pessoas com maior risco para essas doenças costumam substituir o açúcar pelos adoçantes, o que dificulta estabelecer uma relação direta de causa e efeito.

O cardiologista Dariush Mozaffarian, diretor do Food is Medicine Institute e autor sênior da pesquisa, afirma que o aumento do consumo dessas substâncias ocorreu em ritmo superior ao conhecimento científico sobre seus efeitos de longo prazo.

“O uso crescente desses adoçantes superou nossa compreensão sobre seus efeitos na saúde a longo prazo.”

Segundo ele, apesar de os adoçantes poderem representar uma alternativa ao consumo excessivo de açúcar, ainda são necessários novos estudos para compreender seus impactos.

“É preciso cautela até que saibamos mais. Se você estiver substituindo grandes quantidades de açúcar adicionado na dieta — como o consumo de várias porções de refrigerante — esses adoçantes de baixa caloria podem ser uma alternativa melhor. No entanto, não podemos simplesmente presumir que sejam seguros e inócuos; evitá-los sempre que possível parece ser uma escolha prudente.”

Os pesquisadores também chamam atenção para uma limitação existente na legislação norte-americana. Atualmente, os fabricantes são obrigados a informar apenas a presença dos adoçantes nos rótulos, sem indicar a quantidade utilizada, o que dificulta medir com precisão o consumo dessas substâncias em grandes estudos populacionais.

Outro estudo citado pelos pesquisadores, publicado na revista Neurology e conduzido por cientistas brasileiros, identificou associação entre o consumo elevado de alguns adoçantes e um declínio cognitivo mais acelerado.

Os resultados indicaram que os participantes com maior ingestão diária dessas substâncias apresentaram declínio cognitivo 62% mais rápido, equivalente a aproximadamente 1,6 ano adicional de envelhecimento cerebral. No grupo de consumo intermediário, a redução do desempenho cognitivo foi 35% maior, o equivalente a cerca de 1,3 ano de envelhecimento.

A pesquisa também encontrou impacto sobre a fluência verbal. Os dois grupos com maior consumo registraram taxas de declínio 110% e 173% superiores às observadas entre os participantes que consumiam menos adoçantes. Já em relação à memória, os maiores consumidores apresentaram uma taxa de declínio 32% mais elevada do que os demais participantes.

Embora os estudos indiquem associações entre o consumo de adoçantes e alterações metabólicas e cognitivas, os pesquisadores destacam que novas pesquisas ainda são necessárias para esclarecer os mecanismos envolvidos e confirmar os efeitos dessas substâncias sobre a saúde em longo prazo.