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Copa do Mundo

Bruno vira eixo do Brasil de Ancelotti

Mudança tática aproxima meia da função exercida no Newcastle, potencializa desempenho na Copa do Mundo e reforça antiga admiração do treinador italiano, que já tentou levá-lo ao Real Madrid
Por O Correio de Hoje
03/07/2026 | 16:04

A ascensão de Bruno Guimarães à condição de principal referência técnica da seleção brasileira na Copa do Mundo tem relação direta com uma mudança promovida por Carlo Ancelotti. Desde que assumiu o comando da equipe, o treinador italiano reorganizou o meio-campo para aproximar o camisa 8 da função que exerce no Newcastle, permitindo ao jogador alcançar o desempenho que há anos exibia no futebol inglês. O resultado é um atleta mais participativo na construção ofensiva, decisivo na criação de jogadas e também mais influente na recuperação da posse de bola.

A relação entre treinador e jogador, porém, começou antes mesmo da chegada de Ancelotti à seleção. Admirador do futebol de Bruno desde os tempos em que o volante atuava no Lyon, o italiano já havia solicitado sua contratação ao Real Madrid em 2022, quando buscava renovar um meio-campo que ainda tinha Luka Modric e Toni Kroos como referências. A negociação não avançou porque o Newcastle apresentou uma proposta superior e fechou a contratação do brasileiro. Agora, valorizado após a Copa, Bruno volta a aparecer entre os nomes acompanhados pelo clube espanhol, novamente com o aval de Ancelotti.

Ancelotti e Bruno
Bruno Guimarães tem sido o articulador de jogadas da seleção na Copa - Foto: rafael ribeiro / cbf

Dentro de campo, a afinidade entre ambos ficou evidente. No modelo implantado pelo treinador, Bruno tornou-se um dos pilares da seleção tanto com quanto sem a bola. Dados da Fifa apontam o meio-campista como o segundo brasileiro que mais exerce pressão sobre os adversários e o líder em recuperações efetivas de posse. Também é quem mais se oferece para receber passes e o jogador que mais tenta romper as linhas defensivas rivais, além de liderar a equipe em assistências, com quatro passes para gol. O número faz dele o primeiro brasileiro a alcançar essa marca em uma Copa do Mundo desde Zico, em 1982.

O próprio jogador atribui o momento ao trabalho desenvolvido pelo treinador italiano.

“Acelotti é um treinador de nível altíssimo e me deu muita confiança para jogar. Estou conseguindo desempenhar meu melhor futebol”, afirmou Bruno.

A principal alteração ocorreu na organização do meio-campo. Em vez de atuar como primeiro homem da construção, Bruno passou a integrar um tripé de meias, posicionando-se um pouco à frente de Casemiro na saída de bola. A mudança permite que participe da circulação ofensiva sem ficar responsável por iniciar todas as jogadas. Quando o Brasil avança ao campo de ataque, ele alterna movimentos entre se aproximar do volante para auxiliar a construção e infiltrar na área adversária como elemento surpresa. Foi justamente dessa forma que marcou o gol da virada sobre o Japão.

Segundo Rafael Marques, analista da Performa Sports, o novo posicionamento reproduz quase integralmente as funções desempenhadas pelo jogador no Newcastle.

“Isso é muito parecido com o que ele faz no clube. Esse encaixe, acomodação, ajudou muito a performar de maneira consistente. A maior diferença é a maneira como defende, no clube um 4-5-1, 4-3-3 e na seleção um 4-4-2. Ele precisa cobrir mais espaço na seleção do que no clube, é uma diferença importante na fase defensiva, mas não é significativa. Ele tem dado conta”, disse.

Depois da adaptação tática, Bruno também passou por ajustes técnicos específicos. O trabalho envolveu mudanças no perfil corporal durante a recepção da bola, maior atenção ao espaço às costas dos marcadores para evitar perdas de posse e evolução no uso da perna esquerda, aspecto considerado um dos pontos menos desenvolvidos do seu jogo.

O analista destaca que a evolução ficou evidente no lance do gol marcado diante do Japão.

“Bruno é um destro muito destro. Nos últimos anos tem desenvolvido isso e acho que ainda pode até desenvolver mais. O lance do gol parte de um domínio orientado com o pé esquerdo. O pé fica aberto na entrada da área. Talvez anos atrás se ele fizesse com o corpo fechado e com o pé direito, não tivesse tido a janela de passe para o Martinelli”.

A estrutura montada por Ancelotti na seleção também guarda semelhanças com o Real Madrid que conquistou a Liga dos Campeões na temporada 2023/24. O treinador voltou a utilizar um meio-campo em losango, no qual Bruno ocupa o lado direito, desempenhando papel semelhante ao exercido por Federico Valverde na equipe espanhola. No setor ofensivo, a principal diferença é a formação da dupla de ataque, com Rayan ao lado de Vini Jr., substituindo a parceria anteriormente formada por Rodrygo.

Para Rafael Marques, a comparação faz sentido porque respeita as características do brasileiro.

“Ele tem boa capacidade de construção, mas também de infiltração. Então, essa analogia faz sentido. A mudança da maneira de jogar do clube para a seleção é um ponto muito delicado para o jogador. Ele mudar de posição e função, pode ser que encaixe, pode ser que não, e no caso do Bruno com o Ancelotti deu muito certo”, explicou.

Além dos números e da adaptação tática, Ancelotti destaca outro aspecto que considera determinante para o protagonismo do meio-campista.

“Bruno é um jogador muito importante, muito contínuo no jogo, sempre tem boa participação defensiva e ofensivamente. Tem um coração muito grande”, frisou.

O desempenho consolidou Bruno Guimarães como uma das principais peças da seleção brasileira na Copa do Mundo e reforçou uma parceria que o treinador italiano tentou construir anos antes, mas que somente agora encontrou espaço para se desenvolver plenamente.