A preparação das cidades americanas para receber a Copa do Mundo de 2026 produziu um debate incomum nos Estados Unidos. Em Kansas City, uma das 16 sedes do torneio, autoridades municipais utilizaram o aumento esperado de visitantes durante a competição como um dos argumentos para aprovar a construção de um centro de detenção de aproximadamente R$ 133 milhões. O projeto, no entanto, transformou-se em alvo de críticas após atrasos que impediram sua conclusão antes do início do Mundial.
Documentos obtidos pelo jornal The Athletic mostram que a perspectiva de receber milhares de turistas foi citada formalmente durante o processo de aprovação da obra. Segundo os registros, a administração municipal avaliava que o crescimento temporário da população durante a Copa poderia pressionar a já limitada capacidade local de detenção e reabilitação de infratores.

Em uma das justificativas apresentadas às autoridades locais, a prefeitura argumentou que o aumento do fluxo de visitantes poderia ampliar a demanda por serviços de segurança pública e exigir estruturas adicionais para lidar com eventuais ocorrências. O argumento ajudou a impulsionar a aprovação do investimento no fim de 2025.
A preocupação está ligada a uma deficiência estrutural de longa data. Kansas City não possui uma cadeia municipal própria desde 2009. Atualmente, pessoas detidas por violações das leis locais permanecem temporariamente em delegacias ou são transferidas para instalações localizadas em outras regiões do Missouri, incluindo os condados de Johnson e Vernon, situados a mais de 80 quilômetros da cidade.
O novo centro foi projetado para acomodar até 100 detentos e deveria entrar em operação antes do início da Copa. O cronograma original previa inauguração em 1º de junho, permitindo que a instalação estivesse disponível durante a realização dos jogos. Entretanto, problemas relacionados ao fornecimento de materiais de construção e dificuldades na contratação de pessoal comprometeram os prazos estabelecidos.
Em maio de 2025, o administrador municipal Mario Vasquez defendeu publicamente a aceleração do projeto. Segundo ele, a cidade precisava estar preparada para enfrentar situações que poderiam surgir durante um evento de escala global.
“Uma instalação do tipo centro de detenção para lidar com eventuais infrações criminais ou comportamentos inadequados de visitantes”, afirmou Vasquez ao justificar a necessidade da obra.
A associação entre a prisão e a Copa ganhou força rapidamente. Veículos de comunicação locais e grupos contrários ao projeto passaram a se referir à instalação como “Prisão da Copa do Mundo”, apelido que se consolidou à medida que o debate avançava. A denominação ganhou ainda mais repercussão quando ficou evidente que a estrutura utilizada para justificar parte do investimento não estaria pronta para cumprir o papel inicialmente atribuído a ela.
Apesar disso, a prefeitura procurou reduzir a ligação direta entre o empreendimento e o torneio. Em comunicados recentes, representantes municipais afirmaram que a unidade não será utilizada para receber pessoas detidas durante os jogos da Copa, ainda que a competição tenha sido citada oficialmente como um dos fatores que motivaram sua construção.
O custo do projeto também se tornou alvo de questionamentos. Inicialmente orçada em US$ 22 milhões, a obra recebeu posteriormente uma suplementação de US$ 3,8 milhões aprovada pelas autoridades locais. O valor total alcançou aproximadamente US$ 25,8 milhões, equivalente a cerca de R$ 133 milhões na conversão atual.
Segundo o The Athletic, os recursos vieram de um imposto municipal destinado à segurança pública que arrecada aproximadamente US$ 24 milhões por ano. Kansas City será palco de partidas do torneio e também servirá como base de treinamento para algumas seleções, incluindo Argentina, Inglaterra e Holanda.