O ex-prefeito de Natal Álvaro Dias (PL) mudou o tom ao voltar a falar sobre as contas deixadas por sua gestão na Prefeitura. Depois de afirmar, em entrevista na 96 FM nesta terça-feira 9, que entregou o Município em situação “razoavelmente confortável”, com dinheiro em caixa superior ao passivo existente, ele agora reconheceu , menos de 24 horas depois, que deixou dívidas ao fim do mandato, embora continue negando que tenha havido rombo ou situação calamitosa.
A nova declaração foi dada na manhã desta quarta-feira 10 em entrevista à 97 FM, ao comentar a controvérsia sobre o passivo herdado pelo prefeito Paulinho Freire (União Brasil). Questionado sobre as queixas em torno da situação financeira da Prefeitura, Álvaro negou ter conhecimento de reclamações de Paulinho, seu aliado político, e tentou tratar a existência de dívidas como algo comum em transições administrativas.

“Todo governo que sai, deixa dívidas”, afirmou o ex-prefeito. Em seguida, disse que também herdou obrigações quando assumiu a Prefeitura e citou passivos de administrações anteriores, incluindo a de Micarla de Sousa e até dívidas que, segundo ele, vinham do período da ex-governadora Wilma de Faria. Para ele, uma dívida pública não se forma de uma hora para outra nem pode ser resolvida de imediato. “Uma dívida não se constrói da noite para o dia, não”, disse.
A fala representa uma mudança de enquadramento em relação à entrevista anterior. Na 96 FM, Álvaro havia sido mais enfático ao negar que tivesse deixado um passivo próximo de R$ 1 bilhão para a gestão seguinte. Disse que havia feito levantamento com contadores e com a então secretária de Planejamento, Joanna Guerra, hoje vice-prefeita, e sustentou que a Prefeitura ficou em situação confortável.
“Não havia esse passivo não”, declarou na entrevista. Álvaro admitiu, naquele momento, a existência de obrigações, mas afirmou que o dinheiro em caixa era maior que o passivo. Também citou convênios firmados e recursos garantidos como elementos que, segundo ele, asseguravam uma situação “razoavelmente confortável” para a Prefeitura do Natal.
Agora, à 97 FM, Álvaro manteve a negativa de cenário calamitroso, mas passou a admitir de forma mais direta que deixou dívidas. “Quando nós saímos da Prefeitura, nós deixamos dívidas e deixamos dinheiro em caixa também”, afirmou. Em seguida, voltou a dizer que havia convênios garantidos, recursos assegurados e levantamento feito com a equipe técnica antes da saída da gestão.
A controvérsia tem origem no relatório técnico da transição entre as gestões Álvaro e Paulinho. O documento registrou R$ 862,9 milhões em restos a pagar, sendo R$ 349,8 milhões em despesas processadas e não pagas e R$ 513,1 milhões em despesas não processadas. Também apontou 46 obras paralisadas ou inacabadas.
O relatório foi coordenado e assinado por Joanna Guerra, que havia sido auxiliar de Álvaro, participou da transição e depois assumiu a vice-prefeitura na gestão Paulinho. O documento foi encaminhado ao Tribunal de Contas do Estado e serviu de base para as primeiras avaliações da atual administração sobre a herança recebida.
Após assumir a Prefeitura, Paulinho anunciou medidas de contenção de despesas. Na posse, em 1º de janeiro de 2025, disse que cortaria jetons, gratificações e diárias, além de limitar viagens ao necessário. A justificativa apresentada foi abrir espaço no orçamento para investir na cidade.
Os dados fiscais posteriores também reforçaram a dimensão do passivo. Os Relatórios Resumidos de Execução Orçamentária de 2025 mostram que a gestão Paulinho pagou R$ 627,5 milhões e cancelou R$ 68,17 milhões do estoque bruto de restos a pagar que entrou no exercício. Ao fim de 2025, ainda restavam R$ 429,57 milhões em saldo.
Outro ponto importante está no demonstrativo de disponibilidade de caixa da transição. O documento apontou R$ 1,424 bilhão em saldos bancários em 31 de dezembro de 2024, mas a maior parte desse valor, R$ 1,160 bilhão, estava vinculada ao NatalPrev, o regime próprio de previdência municipal, e não pode ser computado como dinheiro em caixa, já que pertence ao sistema de previdência da Prefeitura. A Prefeitura propriamente dita tinha R$ 259,6 milhões, para fazer frente aos quase R$ 1 bilhão de restos a pagar.
Com a nova postura, Álvaro desloca sua defesa. Antes, a ênfase estava na tese de que a Prefeitura havia sido entregue em situação confortável. Agora, o ex-prefeito reconhece que deixou dívidas, mas procura enquadrá-las como parte normal de qualquer passagem de governo e afirma que havia caixa, convênios e recursos assegurados para enfrentá-las.
A discussão ganhou peso político porque Álvaro tenta usar sua passagem pela Prefeitura de Natal como uma das principais credenciais de sua pré-candidatura ao Governo do Rio Grande do Norte. O tamanho do passivo, a disponibilidade real de caixa, as obras paradas e as medidas de contenção adotadas por Paulinho passaram a integrar o debate sobre o legado administrativo do ex-prefeito.