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Meio ambiente

Manejo arbóreo em Natal gera discussão sobre impacto térmico

Semsur afirma realizar cerca de mil manejos arbóreos por mês; ambientalista critica podas e aponta impactos no conforto térmico e na drenagem
Nathallya Macedo
05/06/2026 | 05:33

As podas de árvores realizadas em diferentes regiões de Natal têm provocado debates sobre os impactos dessas intervenções no conforto térmico da capital potiguar. Enquanto a Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (Semsur) afirma que executa cerca de mil manejos arbóreos por mês, ambientalistas alertam que a redução das copas pode intensificar a sensação de calor em uma cidade que já enfrenta baixa arborização e efeitos das mudanças climáticas.

Segundo a Semsur, somente nos dois primeiros meses do ano foram quase duas mil ações de manejo arbóreo, entre podas, erradicações e manutenção de áreas verdes. O foco esteve nas principais avenidas e ruas que concentraram polos carnavalescos. De acordo com a pasta, esse quantitativo mensal é o padrão adotado pelo município.

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Podas em diferentes pontos de Natal reacendem o debate sobre arborização urbana e impactos no conforto térmico - Foto: José Aldenir

A secretaria informa que o manejo é realizado mediante parecer técnico e segue critérios definidos pelo setor de paisagismo, responsável pela programação e execução dos serviços. Ainda segundo a Semsur, as equipes de poda são compostas por engenheiros agrônomos e arboricultores. A população pode solicitar poda ou retirada de árvores pelo telefone (84 3232-9845), pelo e-mail [setorarboreo@gmail.com]ou presencialmente no Departamento de Paisagismo, localizado na Rua Princesa Isabel, nº 799, Cidade Alta.

A Semsur explica que a poda ocorre em situações nas quais a árvore obstrui semáforos, interfere na iluminação pública, dificulta a passagem de veículos altos, oferece riscos à população ou compromete fachadas de imóveis. Já a supressão é autorizada em casos específicos, como risco de queda, problemas fitossanitários, danos ao patrimônio, obstáculos ao acesso de veículos ou presença de espécies invasoras com propagação prejudicial comprovada.

Para o ambientalista Francisco Iglesias, no entanto, a forma como parte dessas podas é executada pode contribuir diretamente para o aumento da sensação térmica na cidade. “O que a gente vê é podas mal feitas, podas que destroem as árvores, as copas das árvores. Quando você diminui a copa, você aumenta a presença do sol. Em consequência, aumenta o calor”.

Segundo Iglesias, a combinação entre redução de copas, pouca arborização e mudanças climáticas agrava o cenário urbano. “Natal tem pouca arborização. O calor, por causa da mudança climática global, está aumentando. Então, na hora que você faz uma poda, uma poda que não leva em consideração a espécie, o tipo de árvore, o tamanho da copa, é uma poda só para proteger a fiação, não é feita para proteger a árvore, você está com certeza aumentando o calor, diminuindo o período de vida daquela espécie, que podia ser 50, 60 anos”, frisou.

O ambientalista também afirma que as árvores poderiam ser utilizadas como aliadas na drenagem urbana da cidade. “Tem uma coisa que as árvores contribuem bastante e que a prefeitura não usa, que é a questão delas servirem como elementos para evitar inundação. A árvore consome em torno de 40% da água que cai sobre elas. Por exemplo, temos lagoas de captação que estão enchendo, mas elas não possuem nenhum tipo de arborização. A prefeitura poderia usar a arborização no entorno daquela lagoa para diminuir o volume de água que vai pra lagoa”.

Como exemplo, Iglesias citou uma intervenção em Lagoa Nova. “Em Potilândia, na Avenida Capitão-Mor Gouveia com a Rua da Magnesita, uma lagoa tinha 16 árvores em volta, mas a gestão municipal retirou as 16, porque era uma espécie exótica, e não plantou nenhuma de volta”. Na avaliação dele, a capital perdeu, ao longo das décadas, uma política contínua de arborização urbana. “Natal não tem uma tradição de cuidar das suas árvores, da sua arborização. Tinha na década de 1950, que a cidade tinha 60 mil habitantes, e era super arborizada. Hoje, não”.

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Manejo arbóreo em Natal gera discussão sobre impacto térmico

Iglesias também diz perceber aumento recente nas podas e aponta ausência de planejamento estrutural para a arborização urbana. “Não vejo planejamento. Não há uma preocupação, por exemplo, de enterrar fiação. Pelo menos nas principais vias. Por que a prefeitura não enterra fiação”.

Arquiteto, urbanista e ambientalista, Francisco Iglesias preside a entidade Amigos da Natureza e acompanha temas ligados à arborização urbana e ao meio ambiente em Natal.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referentes ao Censo Demográfico 2022, mostram que Natal ocupa a 12ª posição entre as capitais brasileiras com maior percentual de moradores vivendo em setores censitários sem árvores. Segundo o levantamento, 44,73% da população da capital potiguar residia em áreas classificadas como “sem árvores”. A pesquisa integra o estudo Urbanística do Entorno dos Domicílios, realizado junto ao Censo 2022, que avaliou características urbanas dos setores censitários, incluindo arborização.

No ranking nacional, São Luís (MA) e Salvador (BA) aparecem nas primeiras posições, ambas com 65,68% de moradores em áreas sem árvores. Em seguida estão Rio Branco (AC), com 60,04%; Florianópolis (SC), com 55,88%; Belém (PA), com 55,26%; Aracaju (SE), com 55,09%; Manaus (AM), com 55,07%; Maceió (AL), com 53,77%; Recife (PE), com 48,77%; Boa Vista (RR), com 47,31%; e João Pessoa (PB), com 46,74%. Natal aparece em 12º lugar, com 44,73%.

O levantamento também identificou os setores com maior presença de arborização na capital potiguar. Segundo o IBGE, 23,86% dos moradores viviam em áreas com cinco ou mais árvores; 21,75% em setores com uma ou duas árvores; e 9,60% em locais com três ou quatro árvores.