Há algo inquietante na ideia de estar preso em um lugar que não deveria existir. Não um espaço reconhecível, com regras claras, mas um ambiente que desafia qualquer lógica — repetitivo, silencioso, interminável. Backrooms: Um Não-Lugar parte exatamente dessa sensação para construir sua narrativa e experiência. Inspirado na lenda digital que nasceu em fóruns da internet e se popularizou em vídeos virais, o filme dirigido por Kane Parsons chega aos cinemas como uma tentativa de traduzir um fenômeno essencialmente digital para a linguagem do cinema.
A estética original — corredores infinitos, paredes amareladas, iluminação fluorescente e uma atmosfera constante de desconforto — já carregava um potencial visual forte. Aqui, esse universo ganha escala, mas sem perder sua essência de estranheza.

O roteiro segue um caminho acessível. Em vez de depender apenas da mitologia criada online, o filme funciona bem mesmo para quem nunca ouviu falar dos backrooms. A história se sustenta pela atmosfera e pelo impacto emocional, conseguindo envolver tanto quem chega sem referência quanto quem já conhece esse universo.
No centro da narrativa está Clark, vivido por Chiwetel Ejiofor, um vendedor de móveis frustrado, carregando problemas pessoais e profissionais. Quando ele descobre uma parede atravessável no porão da loja, acaba entrando em um espaço que foge completamente da realidade — um labirinto sem lógica, sem saída e sem explicação. Mais do que sobreviver, Clark parece enfrentar a si mesmo. Ele já estava perdido antes mesmo de entrar ali.
Conforme avança pelos corredores, o filme transforma essa crise interna em algo físico. O ambiente muda, se reorganiza, reage. Há uma sensação de que aquele lugar responde à mente de quem está preso nele. O medo, então, não vem só do desconhecido, mas do que é familiar — memórias, traumas e sentimentos que voltam de forma distorcida.
A presença de Mary, terapeuta de Clark, interpretada por Renate Reinsve, reforça essa ideia. A personagem aproxima o filme de uma tendência atual do terror: o uso do trauma como parte da narrativa. Ainda assim, Backrooms não se limita a uma metáfora simples. O espaço continua sendo um mistério, algo que não pode ser totalmente entendido.
E talvez esse seja o ponto principal do filme. Backrooms não quer explicar — quer fazer sentir. A falta de lógica não é um problema, é uma escolha. Quanto mais os personagens tentam entender o lugar, mais ele parece escapar. O verdadeiro terror está na desorientação, na sensação de não ter controle.
Esse tipo de abordagem pode incomodar. Quem espera respostas claras pode sair frustrado. Mas essa incompletude parece intencional. O filme não fecha sua própria lógica porque o universo das backrooms também não oferece respostas. Ele existe justamente nesse vazio.
Esse controle do medo funciona melhor quando o filme escolhe sugerir em vez de mostrar. Nos momentos em que as criaturas ficam escondidas, à espreita, fora de quadro, o medo é muito mais forte. O desconhecido pesa mais quando não é completamente revelado.
Ao final, fica menos a lembrança de uma história e mais a experiência de um estado. Um desconforto que permanece, que ecoa depois da sessão. O filme termina como começa: suspenso, inquieto, incompleto.
Mas há também um outro efeito que permanece. O longa não apenas transporta um mito digital para o cinema, mas abre um caminho ainda pouco explorado: o de traduzir esses universos fragmentados e intangíveis em experiência sensorial.
Fica a expectativa de que futuras adaptações desse universo explorem ainda melhor o mistério.