O combate ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes exige diálogo, acolhimento e prevenção dentro das famílias, escolas e redes de apoio. O alerta foi feito pela psicóloga Amanda Palácio durante entrevista à Band RN nesta quinta-feira 21, dentro da campanha Maio Laranja.
Segundo a especialista, os casos de abuso sexual infantil “sempre aconteceram”, mas permanecem, muitas vezes, em silêncio, principalmente porque costumam ocorrer em ambientes próximos da vítima.

“Casos de abuso e exploração sempre aconteceram, mas na maioria das vezes é silencioso, porque não acontece em contextos que são muito distantes da família, do que a criança vive ali. Muitas vezes acontece de pessoas próximas mesmo, o agressor, o violador, ele é uma pessoa próxima”, afirmou.
Amanda destacou que sentimentos como medo, vergonha e culpa dificultam que crianças e adolescentes revelem a violência sofrida. Por isso, segundo ela, o acolhimento é fundamental no momento em que a vítima tenta falar sobre o assunto.
“A primeira coisa é a gente entender que para a criança falar o que está acontecendo, ela precisa se sentir acolhida. A criança ou o adolescente já está, por si só, permeado por muitos medos, vergonha, culpa também pelo que aconteceu”, disse.
Ela explicou ainda que o trauma interfere diretamente na organização emocional e na memória da vítima, o que pode fazer com que os relatos sejam fragmentados ou tardios.
“O cérebro da criança e adolescente sob efeito, a partir de um trauma, não está com a memória boa, não organiza muito bem os pensamentos, então podem vir falas fragmentadas, pode vir uma revelação tardia, e ele não vai falar se ele não se sentir acolhido e seguro”, afirmou.
A psicóloga orientou pais, mães, professores e responsáveis a evitarem falas que culpabilizem a vítima. Segundo ela, frases como “você deveria ter me dito” ou “por que você não falou?” podem intensificar o sofrimento emocional. “Essas frases potencializam aquele sofrimento que a criança está sentindo, tem que ter muito cuidado da forma de abordar”, declarou.
Amanda ressaltou que o acolhimento deve considerar a faixa etária e o nível de desenvolvimento da criança ou adolescente. “É diferente quando a gente conversa com uma criança de 3, 4 anos para um adolescente de 15 anos. A gente precisa ter um acolhimento diferenciado de acordo com a faixa etária”, explicou.
A psicóloga também abordou a importância da prevenção dentro de casa e afirmou que conversar sobre limites do corpo e sexualidade não significa “sexualizar” crianças. “A gente chama de fazer uma psicoeducação. Falar sobre o tema não significa que a gente vai sexualizar a criança ou vai estimular algo sexualizado nela”, afirmou.
Segundo ela, é importante ensinar desde cedo que o corpo da criança deve ser respeitado e que determinadas partes íntimas só podem ser tocadas em situações específicas de higiene e cuidado. “É importante que a criança saiba que o seu corpo precisa ser respeitado, e que nós temos partes íntimas, que elas só podem ser tocadas por outras pessoas em momentos de higiene e em momentos de cuidado”, disse.
Amanda orientou ainda que crianças sejam incentivadas a procurar adultos de confiança caso sintam desconforto com algum toque ou situação. “Ela precisa entender isso. Ela falar sobre isso não é algo ruim. Esconder, sim, gera sentimentos ruins”, afirmou.
No caso dos adolescentes, a psicóloga defendeu conversas mais abertas sobre relacionamentos abusivos, exposição nas redes sociais e compartilhamento de imagens íntimas. “Na adolescência, a gente começa a viver os relacionamentos amorosos, então ter cuidado com relacionamentos abusivos, pressão emocional dos nossos parceiros ou parceiras, o cuidado com a exposição, a tela, a rede social principalmente, as questões das fotos, com nudez”, destacou.
Amanda reforçou que a maior parte das violações ocorre dentro do círculo de convivência da vítima, muitas vezes envolvendo familiares próximos. “Essas violações acontecem de pessoas próximas, às vezes é tio, é tia, é pai, avô, é parente, até mais próximo dentro do núcleo familiar”, afirmou.
Ela disse que o adulto responsável deve escutar a criança sem julgamentos e acreditar no relato apresentado. “É olhar para a criança e acreditar no que ela está falando, não importa da forma como ela fala”, disse.
A especialista também explicou que mudanças de comportamento podem indicar sofrimento emocional e devem ser observadas por famílias e escolas. “Uma criança que é mais expansiva, que é comunicativa, prefere estar mais em casa, prefere não sair, evita determinadas pessoas, a criança pode ficar mais agressiva, a criança pode ter dificuldades para dormir, acordar com pesadelos”, relatou.
Apesar disso, ela ponderou que esses sinais não confirmam, isoladamente, um caso de abuso. “Esse sinal de alerta, é importante ressaltar que eles não confirmam que de fato o abuso aconteceu, mas é um sinal de sofrimento e que precisa ter atenção”, explicou.
Amanda também falou sobre o papel das escolas no acolhimento e na condução de situações envolvendo violência sexual. Segundo ela, as instituições costumam ter protocolos internos para lidar com os casos e devem evitar expor a vítima.
“É muito importante que seja priorizada a discrição, evitar perguntas, interrogatórios e dar detalhes para terceiros, para pessoas que não estão envolvidas ali sobre a situação”, afirmou.
A psicóloga defendeu ainda que as crianças sejam ensinadas a impor limites físicos desde cedo, inclusive em situações socialmente naturalizadas, como abraços e demonstrações de afeto.
“Quando ela diz ‘não, eu não quero abraçar você’, ‘eu não quero abraçar o meu tio’, é importante que a gente vá psicoeducando essa criança a dizer o não”, disse. Segundo Amanda, essa construção ajuda a criança a compreender que pode recusar situações desconfortáveis e buscar ajuda.
“Isso vai fazendo a criança entender que ela pode dizer não, e isso pode ser um fator de proteção lá na frente”, declarou. Nos casos em que a violência sexual é confirmada, a orientação é buscar apoio psicológico imediato e acionar a rede de proteção. “Precisa de ajuda especializada”, disse.
Amanda lembrou que Natal possui delegacia especializada e que o Conselho Tutelar também integra a rede de suporte. “Existe hoje uma rede de suporte que pode ajudar esse pai a conduzir em vários âmbitos que são necessários”, afirmou.
A psicóloga também direcionou uma mensagem para adultos que sofreram abuso sexual na infância e podem reviver traumas durante a campanha Maio Laranja. Ela ressaltou que crianças vítimas de abuso não possuem compreensão sobre a gravidade da situação no momento em que ela ocorre. Amanda concluiu afirmando que “nunca é tarde para procurar ajuda”.
O Maio Laranja é a campanha anual de conscientização e enfrentamento ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes. O mês foi escolhido em alusão ao 18 de maio, instituído como o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual Infantil pela Lei Federal 9.970/2000.