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AVC

Spray reduz danos do AVC

Tecnologia em spray nasal reduz danos causados por AVC antes da chegada ao hospital
Por O Correio de Hoje
12/05/2026 | 12:51

Uma equipe de cientistas desenvolveu um spray nasal de nanopartículas capaz de transportar medicamentos diretamente ao cérebro para reduzir danos provocados pelo acidente vascular cerebral (AVC). A tecnologia foi criada por pesquisadores da Faculdade de Medicina LKS da Universidade de Hong Kong (HKUMed), em parceria com o Centro de Instrumentação Biomédica Avançada (ABIC), e pode representar uma nova alternativa para atendimento emergencial antes da chegada do paciente ao hospital.

Segundo os pesquisadores, o principal diferencial do produto está na capacidade de atravessar a barreira hematoencefálica — sistema natural de proteção do cérebro que impede a passagem da maioria dos medicamentos. A inovação permite que substâncias neuroprotetoras alcancem rapidamente áreas cerebrais afetadas sem necessidade de procedimentos invasivos, como cirurgias ou injeções.

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Spray nasal foi criado para ampliar proteção cerebral antes da chegada do paciente ao hospital Foto: Reprodução

O AVC isquêmico, responsável pela maior parte dos casos da doença, ocorre quando há interrupção do fluxo sanguíneo para o cérebro. Atualmente, os tratamentos disponíveis dependem de uma janela de tempo considerada limitada, além de critérios clínicos rigorosos. Em muitos casos, pacientes não conseguem receber atendimento especializado a tempo, aumentando o risco de sequelas permanentes e mortes.

De acordo com os cientistas, mais de 85% dos pacientes deixam de receber tratamento dentro do período ideal para evitar danos mais graves. Mesmo quando há sucesso na intervenção hospitalar, muitos não conseguem recuperar completamente funções motoras e neurológicas.

A pesquisa descreve que a equipe trabalhou durante mais de uma década no desenvolvimento da plataforma tecnológica utilizada no spray, chamada de “nano-em-mícron”. Posteriormente, o sistema foi adaptado para a criação do produto denominado NanoPowder Nasal Spray.

“O spray nasal caracteriza-se por sua resposta rápida, portabilidade e facilidade de uso. Ele permite que os pacientes recebam proteção precoce a caminho do hospital ou mesmo em casa, retardando significativamente a morte de células cerebrais em condições isquêmicas e preservando efetivamente os tecidos cerebrais ainda viáveis, ganhando assim um tempo valioso para tratamentos subsequentes”, afirmou Alvia Chow Shing-fung, professora do Departamento de Farmacologia e Farmácia da HKUMed e pesquisadora do ABIC.

Segundo a pesquisadora, uma das principais dificuldades enfrentadas pelos tratamentos voltados ao sistema nervoso central é justamente a barreira hematoencefálica. Ela explicou que a taxa de insucesso de medicamentos voltados ao cérebro ultrapassa 90%, principalmente porque os compostos não conseguem atingir o tecido cerebral em quantidade suficiente para produzir efeitos terapêuticos.

Para contornar o problema, os cientistas encapsularam agentes neuroprotetores em nanopartículas e utilizaram técnicas de engenharia capazes de transformá-las em partículas inaláveis de tamanho micrométrico. Após serem inaladas, essas partículas se depositam na cavidade nasal e entram em contato com o muco local. Em seguida, se desintegram rapidamente em nanopartículas que percorrem o trajeto do nariz até o cérebro, ultrapassando a barreira de proteção cerebral.

Os resultados obtidos em testes pré-clínicos realizados em animais mostraram que a administração do spray nos primeiros 30 minutos após o início do AVC conseguiu reduzir em mais de 80% os danos provocados pelo infarto isquêmico. Segundo os pesquisadores, o tratamento também ajudou a preservar funções motoras e neurológicas.

Além da redução do dano cerebral, o estudo aponta que a tecnologia pode contribuir para diminuir processos inflamatórios no cérebro e prevenir a apoptose celular — mecanismo relacionado à morte programada das células. Os cientistas afirmam que isso amplia a proteção aos tecidos cerebrais e pode prolongar o tempo disponível para intervenções médicas posteriores.

Shao Zitong, pesquisador de pós-doutorado no ABIC, ressaltou que o objetivo da tecnologia não é substituir os tratamentos hospitalares já existentes, mas funcionar como uma medida emergencial complementar.

“Após um AVC, cada segundo importa. Mesmo dez minutos adicionais de proteção cerebral podem determinar se um paciente poderá andar ou falar no futuro. O principal avanço desta tecnologia reside na transferência do tratamento do AVC do ambiente hospitalar para o estágio pré-hospitalar”, explicou Zitong.

Os pesquisadores agora pretendem avançar para estudos toxicológicos e ensaios clínicos para avaliar a segurança e eficácia do produto em humanos. A expectativa da equipe é transformar o spray em uma solução acessível para uso em ambulâncias, serviços de emergência e kits de primeiros socorros no futuro.