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Violência

Levantamento aponta 11 milhões de casos de violência de parceiro

Estudo global aponta violência de parceiro íntimo como problema estrutural e persistente
Por O Correio de Hoje
05/05/2026 | 15:28

Um levantamento internacional aponta que cerca de 11 milhões de mulheres no Brasil foram vítimas de violência praticada por parceiros íntimos em 2023. O dado faz parte do estudo Global Burden of Disease, publicado na revista científica The Lancet, e corresponde a uma proporção entre 10% e 14% das brasileiras com 15 anos ou mais.

A pesquisa, que avalia o impacto de doenças e fatores de risco em escala global, coloca o Brasil em um patamar intermediário no cenário internacional, próximo ao de outros países da América Latina. Embora a região não apresente os maiores índices do mundo, os dados indicam que a violência permanece disseminada e recorrente em diferentes contextos sociais.

Violência contra Mulher (3)
Pesquisa indica impactos duradouros na saúde e destaca subnotificação e desigualdades no Brasil Foto: José Aldenir

No panorama global, a situação é ainda mais ampla. Aproximadamente uma em cada cinco mulheres já sofreu violência de parceiro íntimo ao longo da vida. O contraste reforça a dimensão do problema: no Brasil, ao menos uma em cada dez mulheres foi afetada, podendo chegar a uma em cada sete, dependendo do recorte analisado.

Os dados consolidados do estudo mostram que 608 milhões de mulheres com 15 anos ou mais já vivenciaram esse tipo de violência em todo o mundo. Além disso, cerca de 1,01 bilhão de pessoas — entre homens e mulheres — relataram ter sofrido violência sexual durante a infância.

A análise aponta que os efeitos da violência vão além do episódio em si e se acumulam ao longo do tempo. Em 2023, a violência por parceiro íntimo foi responsável por 18,5 milhões de anos de vida perdidos por morte precoce ou incapacidade entre mulheres. Já os casos de violência sexual na infância somaram 32,2 milhões de anos de vida perdidos. Na prática, isso posiciona a violência como um dos principais fatores de risco à saúde de mulheres entre 15 e 49 anos.

Coautor do estudo, o psiquiatra João Maurício Castaldelli-Maia, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), afirma que os resultados evidenciam a dimensão do problema em escala populacional.

“Mesmo para quem trabalha com o tema, ver mais de 600 milhões de mulheres expostas à violência por parceiro e mais de 1 bilhão de pessoas com história de violência sexual na infância mostra a dimensão populacional do problema. Estamos diante de uma epidemia silenciosa.”

Segundo o pesquisador, as consequências da violência se refletem em diferentes formas de adoecimento. “Ela se traduz em anos de vida perdidos por morte precoce ou vividos com incapacidade, muitas vezes associados a depressão, ansiedade, automutilação e uso de substâncias”, explica Castaldelli-Maia.

Quando a violência ocorre na infância, os impactos tendem a ser ainda mais profundos. A exposição em fases iniciais do desenvolvimento pode alterar trajetórias emocionais e sociais ao longo da vida. “Esse tipo de violência acontece em um período crítico do desenvolvimento cerebral e pode afetar vínculos, autoestima e resposta ao estresse, aumentando o risco de sofrimento mental e de novas situações de violência ao longo da vida”, afirma o professor.

Apesar de o Brasil não figurar entre os países com maior prevalência, o padrão identificado pelo estudo indica um problema contínuo, semelhante ao observado em outros países latino-americanos. Para a pesquisadora sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Juliana Brandão, os dados reforçam que a violência não pode ser tratada como um episódio isolado.

“O que aparece é uma violência que se mantém, que não desaparece com o tempo. Isso mostra que estamos diante de um fenômeno estrutural, que exige respostas também estruturais.” No País, a violência de gênero também apresenta recortes específicos. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 64,2% das vítimas são mulheres negras, evidenciando desigualdades na exposição ao risco.

“Quando a gente fala de violência no Brasil, precisa considerar a seletividade racial. As mulheres negras estão proporcionalmente mais expostas”, afirma Brandão. Outro fator relevante apontado tanto pelo estudo quanto por especialistas é a subnotificação. Mesmo com ajustes metodológicos, há limitações na captação dos casos, já que muitas vítimas não denunciam as agressões.

“Na maior parte das vezes, o agressor está no círculo íntimo. Denunciar envolve medo, culpa e, muitas vezes, dependência econômica”, explica a pesquisadora. O resultado é um cenário em que a violência tende a ser subdimensionada, apesar de sua recorrência. Mesmo diante da redução de alguns índices gerais de criminalidade no Brasil, a violência de gênero segue trajetória distinta. Os registros de feminicídio continuam em crescimento, indicando que o problema persiste.

“Quando olhamos para esse recorte específico, o que se vê é aumento ano a ano. Isso mostra que não basta reduzir a violência de forma geral”, avalia Brandão. A análise aponta para a necessidade de políticas públicas mais amplas, que envolvam prevenção, proteção e garantia de autonomia para as vítimas. “Sem políticas que garantam condições reais para que essas mulheres rompam o ciclo da violência, o padrão tende a se repetir”, conclui.