A morte de Saulo Kasekela, um segurança de 37 anos, em 7 de março, em Mpongwe, no norte da Zâmbia, tornou-se um retrato da nova fase enfrentada pelo país no combate ao HIV. Internado dois dias antes, ele apresentava sinais avançados da doença, agravada por tuberculose — quadro que médicos locais temem voltar a se tornar rotina após a redução do apoio internacional.
O caso não é isolado. Na enfermaria onde Kasekela esteve, metade dos pacientes era portadora de Aids. O aumento recente de diagnósticos preocupa autoridades: em Mpongwe, que registrava um ou dois casos mensais, houve 28 novos registros em janeiro, mais 28 em fevereiro e outros sete em março.

A escalada ocorre após a reestruturação da política externa dos Estados Unidos, que reduziu significativamente o financiamento de programas globais de combate ao HIV. Durante o início do mandato do presidente Donald Trump, parte relevante do apoio foi suspensa, afetando diretamente países como a Zâmbia, que dependem desses recursos para sustentar políticas públicas de saúde.
O governo zambiano declarou estado de emergência para manter o fornecimento de medicamentos antirretrovirais. Embora a distribuição tenha sido preservada em grande parte, serviços essenciais de prevenção foram interrompidos, ampliando o risco de novas infecções.
“Era como um estado de emergência militar”, afirmou Suilanji Sivile, consultor técnico do programa nacional de HIV.
O impacto evidencia a dependência estrutural do país em relação à ajuda externa. Desde 2003, quando os EUA lançaram o Plano de Emergência para o Alívio da Aids (PEPFAR), a Zâmbia passou por uma transformação no combate à doença.
Com acesso a medicamentos antirretrovirais e investimentos em infraestrutura de saúde, a expectativa de vida subiu de 37 para 67 anos, e as taxas de infecção recuaram de forma consistente.
Hoje, cerca de 1,3 milhão de pessoas estavam em tratamento no início de 2025, mas a crise recente interrompeu o acompanhamento de parte dos pacientes. Estima-se que 100 mil pessoas tenham abandonado o tratamento, e 40 mil ainda não retornaram ao sistema.
A redução de testes e ações preventivas cria um cenário de subnotificação. Sem diagnóstico precoce, novos casos tendem a ser identificados apenas em estágios avançados, aumentando o risco de transmissão.
O impacto já é visível nas clínicas. Em Kitwe, uma paciente de 25 anos descobriu com meses de atraso que sua carga viral estava elevada. Grávida, ela pode ter transmitido o vírus ao bebê — um caso que profissionais de saúde afirmam ser evitável em condições normais de acompanhamento.
A continuidade do apoio dos Estados Unidos depende de um novo acordo bilateral. Washington condicionou o financiamento à concessão de maior acesso a recursos minerais zambianos, estabelecendo prazo até 30 de abril para a assinatura.
Caso não haja entendimento, autoridades locais temem a interrupção total da ajuda — cenário considerado crítico para a sustentabilidade do sistema.
“Se os estoques que temos forem os últimos que receberemos, o que faremos? Será a morte”, afirmou a médica Ireen Lubwesha.
O governo zambiano afirma que busca assumir maior controle sobre o programa de HIV, mas reconhece limitações estruturais. Sem apoio externo, o país teria de financiar integralmente medicamentos, testes e logística — tarefa considerada inviável no curto prazo.
Mesmo com o suporte do Fundo Global de Combate à Aids, Tuberculose e Malária, que também enfrenta restrições orçamentárias, o sistema segue vulnerável.
Autoridades locais apostam na ampliação de estratégias de prevenção, como o uso do lenacapavir, medicamento injetável que oferece proteção por até seis meses. A expectativa é que a inovação ajude a conter o avanço da doença, compensando parte das políticas interrompidas.
Enquanto negociações seguem em curso, hospitais e clínicas voltam a lidar com um cenário que remete ao auge da epidemia — com aumento de casos graves, pressão sobre o sistema de saúde e risco de reversão de décadas de avanços.