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Burnout

Burnout e recomeço nas montanhas

Relato reúne travessias, altitudes extremas e mudança de perspectiva após esgotamento profissional de empresário
Por O Correio de Hoje
05/05/2026 | 12:59

O que começou como um quadro de esgotamento físico e mental no ambiente corporativo levou o empresário Gustavo Ziller a uma mudança profunda de estilo de vida, marcada pela prática de esportes de resistência e pela participação em expedições de alta montanha ao redor do mundo.

Em 2012, Ziller enfrentava uma rotina marcada pelo uso de medicamentos para diferentes finalidades. “Em 2012, eu precisava de remédio para dormir e para acordar. Eu tomava um remédio que era meio que moda na época, uns comprimidinhos azuis que os executivos tomavam. Tinha um terceiro, ainda, para o colesterol. Enfim, uma loucura. Acho que o que aconteceu comigo foi um clichê. É o clichê de uma pessoa que deixa a saúde ser sequestrada pelo trabalho (ele trabalhava como sócio de uma empresa de tecnologia) e pelo seu ecossistema, mesmo que goste do que faz, o que era o meu caso.”

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Empresário Gustavo Ziller no Monte Denali, a montanha mais alta da América do Norte Foto: Matheus Vargas

O quadro evoluiu para um diagnóstico de síndrome de burnout, ainda pouco difundido à época. “Quando eu fui diagnosticado com burnout, era uma coisa que ainda não estava amplamente estudada e documentada nessas condições cerebrais, considerando a ansiedade. Conto essa história no meu livro ‘Escalando sonhos: O que senti no topo do mundo’ (Ed. Vestígio), mas de forma não romântica. Pelo menos é assim que vejo.”

O momento mais crítico ocorreu após um desmaio no trânsito. “O médico que me atendeu era o pai de uma amiga da minha filha. Ele me disse que o que me aconteceu era algo que começava a ser diagnosticado fora do país e chamava-se Síndrome de Burnout. O que eu tive foi um desmaio muito chocante, no trânsito. Poderia ter acontecido muita coisa, penso hoje que tive sorte demais.” Antes disso, ele já apresentava sinais como crises de ansiedade, taquicardia e preocupação constante com a saúde. “Antes disso, eu andei tendo algumas síndromes de ansiedade, taquicardia no trânsito, parava em farmácia para medir pressão de 15 em 15 dias porque achava que tinha uma coisa errada e por aí vai.”

A partir do episódio, iniciou um processo de mudança. “Momentos assim, ou quando você tem um AVC, um infarto, nos mudam. Quem não muda é porque já está num processo de autoflagelação, autodestruição, que requer ajuda clínica aguda. Mas a maioria das pessoas muda. Decide parar de fumar, de beber. É a hora que você vê que vai bater uma parede e pega o guidão da bicicleta e decide mudar a direção. É um momento em que passamos a procurar a sensação boa da vida.”

Entre as primeiras decisões, ele relata o afastamento do ambiente digital. “Foi uma época em que digitalmente eu não atuei muito. Eu acho que isso é muito importante, porque hoje uma das maiores, ou talvez a maior, dificuldade que as pessoas têm para retomar as rédeas da vida e não serem sequestradas de novo por essa colisão da saúde, essa implosão da sua saúde, é como que se lida com os estímulos de rede social e de inteligência artificial.”

A aproximação com a natureza marcou o início da nova fase. “A primeira coisa foi me livrar do digital rapidamente. A segunda coisa foi encontrar amigos que já tinham contato com a natureza. Eles me falaram: vá para os Himalaias, onde está o Annapurna, tem o Campo Base do Everest, tem Machu Picchu. Vai se jogar!” Paralelamente, mudanças de hábitos foram adotadas. “No começo dessa reestruturação de saúde, passei três meses sem açúcar e refrigerante, mudou meu corpo, até como eu sentia os cheiros.”

Após meses de preparação, ele iniciou sua primeira expedição. “Depois da ‘porrada’ do desmaio, eu fiquei oito meses treinando. A primeira expedição que eu fiz foi o trekking ao campo base do Annapurna (no Himalaia). Eu fui para o Annapurna e fiz o trekking completo, que é o circuito 360. Me encantei e pensei: bom, agora eu vou para cima. Quero fazer essas coisas acontecerem!”

Ainda em 2013, participou de uma escalada no Marrocos, alcançando uma montanha de cerca de 4 mil metros. Nos anos seguintes, ampliou o treinamento com travessias no Brasil, incluindo percursos como Teresópolis-Petrópolis, Serra dos Órgãos e Mantiqueira. Em 2014, estruturou o projeto de escalar os sete cumes, as montanhas mais altas de cada continente.

Em 2015, iniciou uma das etapas mais exigentes do projeto, com a subida ao Aconcágua. “Foi uma escolha errada do ponto de vista de evolução no esporte, muito errada, porque o Aconcágua é uma montanha duríssima, é uma montanha alta e é uma expedição em que você precisa reunir algumas técnicas e trabalhar elas um pouco mais.” A partir desse período até a tentativa no Everest, acumulou mais de 120 expedições e entre 30 e 40 montanhas escaladas.

O ponto de maior desgaste físico ocorreu durante a experiência no Everest. “O maior limite, o desgaste físico mais intenso a que eu cheguei, foi no Everest. Foi o meu ponto mais desgastante, que envolveu a deterioração dos três conjuntos. Tive deterioração fisiológica, emocional e física. Eu estava mal.”

Apesar das experiências em ambientes extremos, Ziller afirma que as montanhas não foram responsáveis por mudanças diretas em sua personalidade. “A montanha não muda ninguém. É algo que eu costumo falar, porque me perguntam se eu voltei de lá transformado. É uma ideia muito sedutora você acreditar que existe um lugar, ou um desafio, ou uma catarse que basta você viver de forma cinematográfica que vai se reorganizar e vai voltar a uma pessoa que não tem mais dúvida na vida, que é um ser humano melhor. Não há essa mudança.”

Ele reforça que os conflitos pessoais permaneceram ao longo das expedições. “Eu voltei do Aconcágua com os mesmos problemas emocionais com que eu subi. Eu voltei do Denali (nos EUA) com os mesmos problemas morais e emocionais que eu subi. Eu voltei do Everest com os mesmos silêncios com que eu subi. Nenhuma dessas montanhas me mudou.”

Para o empresário, o ambiente de montanha expõe aspectos internos. “A montanha escancara os afetos que você tem quando você está numa história dessas. A montanha escancara a ansiedade, a necessidade de controle, até sua carência. Escancara, inclusive, sua história de macho alfa, se você for esse tipo de ser humano. Isso a montanha faz. Agora, o que você vai fazer com isso, aí não é a montanha que vai decidir.”

A transformação, segundo ele, ocorre fora desse contexto. “A mudança não acontece na montanha, mas com o que é feito com as coisas escancaradas nessa experiência. Não é só subir. O que muda a gente é terapia recorrente, falando verdades, escutando outras verdades. Fazendo questionamentos. Não é algo passivo.”

Atualmente, Ziller afirma ter encontrado nos esportes de resistência uma forma de organização pessoal. “Nessa vida me encontrei com os esportes de resistência. É o jeito que meu cérebro se conecta melhor com a disciplina, se conecta melhor com entrega, com repetição, com o cotidiano, com o dia a dia.”

Mesmo mantendo a prática, ele indica mudanças na intensidade das atividades. “O montanhismo tende a diminuir. O montanhismo é o esporte que eu pratico que mais tem a janela de risco. O que eu fico mais longe de casa, com menos acesso ao que está acontecendo aqui. E eu estou em uma fase em que eu quero estar mais presente, eu quero estar mais aqui, para viver com meus filhos, minhas netas, estou casado novamente e apaixonado.”

Ainda assim, novos desafios permanecem no planejamento. “Esse ano, porém, farei duas montanhas. Termino os sete cumes, finalmente, vou à Pirâmide Carstensz (Nova Guiné).”

Ele também destaca a imprevisibilidade envolvida nos esportes de alta montanha. “Nesses esportes, você não tem controle de nada. Você pode estar bem preparado, entender da mecânica da bicicleta, entender os nós que você precisa dar numa escalada, como que você usa o mosquetão (conector de segurança para escalada), e por aí vai. Mas tem muita coisa que você não controla.”

Aos 51 anos, Ziller avalia o processo como uma trajetória contínua. “Hoje aos 51 anos, estou a um Everest de distância do meu burnout. Existe uma evolução. Existe uma repetição. Existe uma jornada, um trabalho para isso acontecer. Não é da noite para o dia. Eu acho que é desse lugar mais humano e menos iluminado, heróico, que eu me vejo. Estou 100% resgatado (do burnout). Agora tenho resgates de outras naturezas a fazer.”