Preocupado com a queda de popularidade e o impacto disso na disputa eleitoral, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou, nesta semana, mais uma iniciativa voltada à classe média, público considerado decisivo para o projeto de reeleição. De uma só vez, foram suspensas 3,4 milhões de multas aplicadas em rodovias que utilizam o sistema free flow, modelo de pedágio eletrônico sem cancelas. A medida se soma a um conjunto de ações do Palácio do Planalto que buscam elevar a aprovação do governo entre um segmento que hoje também é alvo de disputa com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
A cerca de cinco meses da eleição, Lula enfrenta um cenário desfavorável nas pesquisas de opinião. Levantamento da Genial/Quaest divulgado em abril aponta que 52% dos entrevistados desaprovam o terceiro mandato, enquanto 43% aprovam. Já o Datafolha indica que 40% classificam a gestão como ruim ou péssima, contra 29% que a consideram ótima ou boa.

O conjunto de medidas inclui ainda a ampliação do crédito habitacional, iniciativas voltadas ao setor de combustíveis e um novo programa para renegociação de dívidas. Paralelamente, o governo tem ajustado o discurso na área de segurança pública, tema historicamente sensível para gestões petistas.
A suspensão das multas no sistema free flow, anunciada pelo Ministério dos Transportes, permanecerá válida até meados de novembro, período que ultrapassa o segundo turno das eleições.
De acordo com a pasta, os motoristas autuados terão até 200 dias para quitar os pedágios pendentes sem que a infração seja mantida. Durante esse intervalo, também não haverá aplicação de novas penalidades.
O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, afirmou que a decisão partiu diretamente do presidente. “Foi uma deliberação do nosso presidente Lula. É uma medida de justiça, porque as pessoas foram multadas sem ter a devida informação do que tinham que fazer para pagar o pedágio do free flow. Uma inovação tecnológica tem que vir em benefício do cidadão, não como prejuízo”, declarou.
Desde que passou a ser adotado, em 2021, o sistema de pedágio eletrônico acumulava, até fevereiro deste ano, mais de três milhões de multas por evasão em todo o país.
Nos casos em que o pagamento já tenha sido realizado, o usuário poderá solicitar ressarcimento junto ao órgão responsável pela autuação em cada estado. O Ministério dos Transportes estima que o valor total das devoluções pode chegar a R$ 93 milhões.
Medidas relacionadas ao trânsito costumam ter grande apelo popular e já foram exploradas por diferentes governos. No fim de 2024, por exemplo, o Executivo promoveu alterações para facilitar o acesso à Carteira Nacional de Habilitação (CNH), incluindo o fim da obrigatoriedade de aulas em autoescolas. A mudança reduziu significativamente o custo do documento, que antes podia alcançar R$ 5 mil.
Durante sua trajetória política, o ex-presidente Jair Bolsonaro também atuou nesse campo. Ainda como deputado, criticava o IPVA, tributo estadual, e, quando esteve à frente do Executivo, promoveu mudanças no Código de Trânsito Brasileiro, como a ampliação do limite de pontos para suspensão da CNH.
Na área habitacional, o governo Lula ampliou o alcance do programa Minha Casa Minha Vida, que agora atende famílias com renda de até R$ 13 mil e permite o financiamento de imóveis de até R$ 600 mil.
Outra frente considerada prioritária é o alto nível de endividamento das famílias. Nesse contexto, o governo prepara o lançamento do Desenrola 2.0, programa voltado à renegociação de dívidas bancárias, de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal em atraso há mais de três meses. A previsão é que os juros nos refinanciamentos fiquem abaixo de 2% ao mês.
Além disso, está em estudo a possibilidade de trabalhadores utilizarem recursos do FGTS como garantia para operações de crédito consignado no setor privado. A proposta prevê a utilização de até 20% do saldo disponível na conta vinculada, além da totalidade da multa de 40% em casos de demissão sem justa causa, com o objetivo de reduzir o custo dos empréstimos.
Segundo o líder do PT na Câmara, Pedro Uczai, o conjunto de iniciativas busca melhorar as condições financeiras das famílias. “É uma agenda que substitui o endividamento pelo investimento no bem-estar das famílias brasileiras”, afirmou.
Nos bastidores, integrantes do partido reconhecem que o desafio não se limita à recuperação da popularidade no curto prazo. A estratégia também envolve apresentar propostas de futuro capazes de sustentar um eventual quarto mandato.
O ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, que é pré-candidato ao governo de São Paulo, abordou o tema durante discurso no congresso nacional do PT, realizado em Brasília. “Nós não podemos ficar só na reconstrução. Nós temos que avançar. Temos que avançar e oferecer para o povo um programa de governo que vá além do que nós já fizemos, e além do que o povo já conquistou”, disse.
No campo econômico, o governo também tem adotado medidas para conter a alta dos combustíveis, em um cenário internacional pressionado por conflitos que impactam o mercado de petróleo. Entre as ações estão o reforço na fiscalização contra preços abusivos e a concessão de subsídios para reduzir os valores do diesel e da gasolina.
Segurança
A segurança pública aparece como outro eixo estratégico, tanto na gestão quanto na disputa eleitoral. O tema figura entre as principais preocupações da população e deve ganhar destaque no debate político. Diante disso, o governo tem buscado dar visibilidade a ações da Polícia Federal e reforçar o discurso de enfrentamento ao crime organizado.
Em publicação recente nas redes sociais, Lula destacou operações realizadas no Rio de Janeiro e no Espírito Santo, que resultaram no cumprimento de 45 mandados de busca e apreensão contra um esquema de contrabando e liberação irregular de mercadorias, movimentando mais de R$ 86 bilhões.
Na mesma linha, uma coletiva de imprensa foi convocada há cerca de dez dias, por iniciativa do ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, para tratar de uma operação da Polícia Federal que levou à prisão do ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique, no âmbito do caso Master.
Além disso, o governo prepara uma nova fase do programa de combate ao furto e roubo de celulares. Lançada inicialmente em 2023, a iniciativa não atingiu os resultados esperados. A nova etapa deverá focar na integração de dados de boletins de ocorrência, no rastreamento de aparelhos e na devolução aos proprietários.