BUSCAR
BUSCAR
Saúde

Canetas emagrecedoras podem frear Alzheimer

Evidências preliminares apontam efeitos positivos em mecanismos ligados à doença neurodegenerativa
Por O Correio de Hoje
28/04/2026 | 12:23

Uma classe de medicamentos amplamente utilizada no tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade pode também desempenhar um papel relevante na prevenção da doença de Alzheimer. É o que sugere uma revisão sistemática conduzida por pesquisadores da Universidade Anglia Ruskin, no Reino Unido, publicada na revista científica Molecular and Cellular Neuroscience.

O estudo reúne evidências de pesquisas já existentes sobre os chamados análogos de GLP-1 — grupo que inclui substâncias como exenatida, dulaglutida, liraglutida e semaglutida, conhecidas popularmente como “canetas emagrecedoras”. Esses medicamentos são comercializados sob nomes como Byetta, Trulicity, Victoza, Saxenda, Ozempic e Wegovy.

Ozempic (1)
Estudo aponta que remédios para diabetes podem reduzir proteínas ligadas ao Alzheimer - Foto: José Aldenir / O Correio de Hoje

A revisão analisou 30 estudos pré-clínicos, conduzidos em laboratório com células e modelos animais. Esse tipo de pesquisa representa uma etapa inicial no desenvolvimento científico e serve para identificar possíveis efeitos de medicamentos antes de sua testagem em humanos.

Os pesquisadores buscaram compreender como essas substâncias poderiam atuar sobre mecanismos associados ao Alzheimer, especialmente no acúmulo de proteínas beta-amiloide e tau no cérebro — características marcantes da doença. Essas proteínas se acumulam em forma de placas e emaranhados, prejudicando o funcionamento dos neurônios.

De acordo com os dados analisados, há indícios consistentes de que os análogos de GLP-1 podem contribuir para reduzir esses acúmulos. Entre os estudos avaliados, 22 apontaram diminuição da proteína beta-amiloide, enquanto 19 observaram redução nos níveis de tau.

A liraglutida, uma das substâncias mais investigadas, apresentou resultados consistentes na redução de ambas as proteínas. Já a dulaglutida e a semaglutida também demonstraram efeitos positivos, embora com menor volume de estudos disponíveis. No caso da exenatida, os resultados foram considerados inconclusivos, com achados divergentes entre as pesquisas.

Os cientistas destacam que os efeitos observados podem estar relacionados a diferentes processos biológicos. Entre eles, a redução de inflamações no cérebro, a melhora na sinalização da insulina — fator importante para o funcionamento neuronal — e alterações em enzimas ligadas à produção da proteína beta-amiloide.

“Esta nova revisão fornece uma das análises mais abrangentes até agora de como os medicamentos GLP-1 podem influenciar os mecanismos subjacentes do Alzheimer. Nosso estudo destaca várias vias biológicas pelas quais os medicamentos GLP-1 podem influenciar o Alzheimer, incluindo a redução da inflamação, a melhorada sinalização de insulina no cérebro e a alteração de enzimas envolvidas na produção de beta-amiloide”, afirma Simon Cork, autor principal do artigo.

Apesar dos achados promissores, os pesquisadores ressaltam que os resultados ainda são iniciais e não permitem conclusões definitivas sobre o uso desses medicamentos na prevenção ou tratamento do Alzheimer.

Como os estudos analisados foram realizados em ambiente laboratorial, é necessário avançar para ensaios clínicos em humanos — etapa fundamental para avaliar eficácia, segurança e possíveis efeitos colaterais antes de qualquer aprovação por agências reguladoras.

O avanço das pesquisas sobre os análogos de GLP-1 reforça uma tendência na medicina: o reposicionamento de medicamentos já existentes para novas aplicações terapêuticas. Caso os resultados sejam confirmados em estudos clínicos, essas substâncias poderão ampliar as opções de tratamento para doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer.

Enquanto isso, especialistas reforçam a necessidade de cautela na interpretação dos dados. O potencial identificado abre caminho para novas investigações, mas ainda exige validação científica robusta antes de qualquer aplicação na prática clínica.