O crescimento de conteúdos sobre saúde mental nas redes sociais tem ampliado o acesso à informação, mas também tem contribuído para um fenômeno preocupante: a banalização de diagnósticos psiquiátricos, como o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).
O psiquiatra Adriano Araújo alerta para os perigos do autodiagnóstico, que muitas vezes leva à automedicação. “Se acredita, há um mito de que o TDAH é só uma desatenção. O TDAH é muito mais que isso. O TDAH é um transtorno que a gente chama de transtorno do neurodesenvolvimento”, afirmou o médico em entrevista ao programa Tudo com Priscila Freire, na TV Tropical.

Segundo ele, o TDAH é uma condição que acompanha o indivíduo desde a infância e não surge de forma repentina. “Não se desenvolve TDAH, a pessoa não pega TDAH. Não existe isso”, disse. Os primeiros sinais, de acordo com o psiquiatra, costumam aparecer ainda na infância e podem comprometer o aprendizado e o desenvolvimento de habilidades.
Apesar disso, Araújo observa que comportamentos comuns do cotidiano têm sido frequentemente interpretados como sinais do transtorno. Esquecimento, dificuldade de concentração e desorganização são exemplos recorrentes. Para ele, esse tipo de associação simplificada contribui para diagnósticos equivocados. “Provavelmente, muita gente vai se identificar”, pontuou, ao explicar que sintomas isolados não são suficientes para caracterizar o TDAH.
O especialista enfatizou que o diagnóstico exige cautela e acompanhamento. “Ao contrário do que as pessoas imaginam, é um diagnóstico muitas vezes difícil de fazer”, afirmou. Ele explicou que o processo envolve observação ao longo do tempo e, em alguns casos, avaliações complementares e exames. “A gente precisa acompanhar aquela pessoa durante meses para conseguir compreender o comportamento”, disse.
Nesse contexto, o psiquiatra fez um alerta direto contra a banalização. “Se, por um lado, é importante que as pessoas entendam o que é uma condição psiquiátrica e que os preconceitos caiam, a gente não pode banalizar”, afirmou. E completou: “A gente não pode banalizar nesse sentido de pescar sintomas isolados e começar a rotular as pessoas”.
A preocupação se estende também ao uso indevido de medicamentos controlados. Segundo ele, o tratamento psiquiátrico tem como objetivo melhorar a qualidade de vida, mas pode causar danos quando conduzido sem orientação. “Tratar de forma desorganizada, sem uma orientação, pode atrapalhar muito a vida e trazer prejuízos às vezes irreparáveis”, alertou.
Araújo destacou que há hoje uma grande circulação de conteúdos que incentivam o uso de medicamentos sem prescrição, o que agrava o problema. Para ele, o aumento da informação precisa vir acompanhado de responsabilidade, evitando tanto o preconceito quanto a trivialização dos transtornos.
Entendendo o transtorno
Durante a entrevista, o médico também detalhou os principais aspectos do TDAH. Ele explicou que o transtorno se manifesta a partir de dois pilares: desatenção e hiperatividade. No caso da desatenção, estão incluídas dificuldades de manter foco, organizar tarefas e concluir atividades. Já a hiperatividade pode aparecer de formas diferentes conforme a idade.
Em crianças, é mais comportamental; em adultos, tende a se manifestar como aceleração do pensamento. “Aquela pessoa com o pensamento acelerado, a cabeça que não para”, descreveu.
Mesmo com esses sinais, ele reiterou que o diagnóstico não deve ser feito com base em identificação superficial. Por isso, defendeu a busca por profissionais qualificados sempre que os sintomas gerarem prejuízo na rotina.
TDAH: Sinais de alerta que merecem atenção
O psiquiatra Adriano Araújo destaca que os sintomas do TDAH vão além de distrações pontuais e precisam ser persistentes, com impacto na rotina. Entre os principais sinais, estão:
- Dificuldade de manter o foco por períodos prolongados
- Esquecimento frequente de tarefas e compromissos
- Desorganização no dia a dia
- Dificuldade de iniciar e concluir tarefas (disfunção executiva)
- Atrasos constantes e perda de prazos
- Troca frequente de atividades, sem finalizar o que começou
- Sensação de mente acelerada (mais comum em adultos)
- Inquietação e agitação (mais comum em crianças)
Atenção: sintomas isolados são comuns e não significam diagnóstico.
Segundo o especialista, é necessário avaliar a frequência, intensidade e impacto na vida da pessoa, sempre com acompanhamento profissional.