A Polônia tem acelerado o fortalecimento de sua estrutura de defesa em resposta ao avanço da guerra iniciada pela Rússia contra a Ucrânia, em 2022. O movimento reflete uma percepção disseminada na sociedade e entre autoridades de que o país precisa estar preparado para eventuais desdobramentos do conflito na região.
A avaliação é compartilhada por especialistas como a pesquisadora Maria Piechowska, do Instituto Polonês de Assuntos Internacionais (Pism), que aponta a necessidade de preparo diante de um cenário de risco contínuo. Em Varsóvia, manifestações culturais e discursos públicos reforçam a percepção de ameaça, frequentemente associando o presidente russo Vladimir Putin a episódios históricos de conflito na Europa.

O contexto histórico tem peso relevante. Entre 1939 e 1945, cerca de 90% da capital polonesa foi destruída durante a Segunda Guerra Mundial, memória que segue presente no cotidiano da população e influencia o posicionamento estratégico do país.
No plano institucional, há convergência entre o presidente Karol Nawrocki e o primeiro-ministro Donald Tusk quanto à prioridade da defesa nacional. Nos últimos anos, a Polônia ampliou significativamente seus investimentos militares e hoje figura como a maior força terrestre convencional da União Europeia e a terceira maior dentro da Otan, atrás apenas de Estados Unidos e Turquia.
Dados do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (Sipri) indicam que o país respondeu por 3,6% das importações globais de armamentos entre 2021 e 2025, com crescimento de 852% em relação ao período anterior. O orçamento de defesa deve alcançar 4,8% do PIB até 2026, o maior entre os membros da aliança.
O reforço inclui aumento do efetivo militar, que passou de 130 mil soldados em 2022 para 216 mil no ano passado, com meta de atingir 300 mil nos próximos anos. O país também implementou medidas como construção de estruturas defensivas na fronteira, criação de disciplina obrigatória de segurança nacional nas escolas e ampliação da aquisição de equipamentos militares.
Além da dimensão militar, o governo investe na preparação da população civil. Após episódios recentes, como a derrubada de drones russos que violaram o espaço aéreo polonês em 2025, autoridades distribuíram manuais com orientações para situações de conflito.
O ambiente de tensão também se reflete no campo político e diplomático. Pesquisas indicam que parcela relevante da população demonstra desconfiança em relação ao apoio externo, incluindo os Estados Unidos. Esse cenário reforça a estratégia de fortalecimento autônomo da capacidade de defesa.
Paralelamente, o país avança em projetos estruturais, como o desenvolvimento de energia nuclear, com meta de que a fonte represente cerca de 30% da matriz elétrica até meados da década de 2040.
A combinação de crescimento econômico — de 3,6% em 2025, acima da média da União Europeia — com aumento dos investimentos em defesa sustenta a estratégia polonesa de dissuasão. No entendimento de analistas locais, o objetivo é consolidar o país como potência militar regional capaz de reduzir riscos diante de um cenário geopolítico considerado instável.