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Inteligência Artificial

IA reduz espaço para jovens no mercado de trabalho e pressiona renda, aponta estudo do FGV Ibre

Impacto se concentra em funções de entrada e já provoca queda no emprego e nos salários de trabalhadores de 18 a 29 anos
Por O Correio de Hoje
20/04/2026 | 11:41

O avanço da inteligência artificial generativa já começa a produzir efeitos mensuráveis sobre o mercado de trabalho brasileiro, com impacto mais intenso entre os jovens. Estudo do pesquisador Daniel Duque, do FGV Ibre, indica que trabalhadores de 18 a 29 anos inseridos em ocupações com maior exposição à tecnologia passaram a enfrentar redução na empregabilidade e na renda nos últimos anos.

Com base em dados da Pnad Contínua, do IBGE, o levantamento mostra que jovens em profissões mais suscetíveis à automação — como serviços de informação e atividades financeiras — apresentam atualmente uma probabilidade de emprego quase 5% menor em comparação ao período anterior à disseminação da IA generativa.

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Foto: Reprodução Internet

A análise compara dois momentos: 2022, antes da popularização de ferramentas como o ChatGPT, e 2025, já sob influência mais ampla dessas tecnologias. Ao observar grupos de trabalhadores com perfis semelhantes, o estudo identificou que aqueles mais expostos à IA passaram a perder mais postos de trabalho do que os demais.

Além da empregabilidade, a renda também foi afetada. Segundo Duque, os trabalhadores mais expostos registraram queda de quase 7% nos rendimentos. O movimento está associado à capacidade da IA de executar tarefas padronizadas e operacionais, típicas de cargos iniciais, que historicamente funcionam como porta de entrada para o mercado.

“Os empregos de entrada no mercado de trabalho, que a IA consegue fazer melhor e mais barato, são os mais substituíveis”, afirma o pesquisador.

O impacto, por outro lado, é limitado entre trabalhadores mais experientes. De acordo com o estudo, funções exercidas por profissionais mais velhos tendem a envolver tomada de decisão e atividades menos padronizadas, áreas em que a IA ainda apresenta limitações relevantes.

Levantamentos complementares do FGV Ibre, com base em metodologia da Organização Internacional do Trabalho (OIT), indicam que cerca de 30 milhões de brasileiros — o equivalente a 29,6% da população ocupada — estavam em ocupações com algum grau de exposição à IA generativa no terceiro trimestre do ano passado. Desses, aproximadamente 5,2 milhões estavam em nível elevado de risco.

Dados atualizados pela consultoria 4intelligence apontam tendência semelhante. Segundo o economista Bruno Imaizumi, cerca de 30,5% dos trabalhadores podem ser afetados pela tecnologia, sendo que 5,3% enfrentam alto risco de automação total das tarefas. O fenômeno, segundo ele, está ligado à substituição de rotinas repetitivas, especialmente em posições iniciais.

O cenário não é exclusivo do Brasil. Pesquisa da Universidade de Stanford mostra que trabalhadores em início de carreira nos Estados Unidos também registraram perdas relevantes. Entre desenvolvedores de software, por exemplo, o nível de ocupação caiu quase 20% entre o fim de 2022 e setembro de 2025, mesmo com o crescimento geral do emprego na economia.

Para Duque, os efeitos de longo prazo ainda são incertos, mas levantam preocupação. A entrada mais difícil no mercado pode resultar em menor acúmulo de experiência, salários mais baixos ao longo da trajetória profissional e impactos sobre produtividade e poupança futura dessa geração.

“Se os jovens já começam no mercado de trabalho com maiores dificuldades, isso tem consequências imprevisíveis”, afirma o pesquisador.