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Mundo

Trump intensifica críticas à Otan após falta de apoio em ofensiva contra o Irã

Presidente dos EUA ameaça saída da aliança e aponta desequilíbrio estratégico entre Washington e aliados europeus
Por O Correio de Hoje
02/04/2026 | 16:46

Mais de um mês após o início da ofensiva militar contra o Irã, conduzida em conjunto com Israel, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, intensificou críticas à Otan diante da falta de apoio dos aliados europeus às operações no Oriente Médio. Sem respaldo para ampliar os bombardeios contra Teerã ou formar uma força-tarefa naval no Estreito de Ormuz, o republicano voltou a ameaçar retirar os EUA da aliança e classificou os parceiros como “covardes”.

Em declarações recentes, Trump afirmou que a organização perdeu relevância estratégica e voltou a questionar o compromisso dos países membros com a defesa coletiva. “Nunca me deixei influenciar pela Otan. Sempre soube que eles eram um tigre de papel, e [o presidente da Rússia, Vladimir] Putin também sabe disso”, disse, em entrevista ao jornal britânico The Telegraph. A insatisfação se agravou após países como Itália recusarem o uso de bases para a chamada “Operação Fúria Épica”, enquanto nenhuma nação aliada se dispôs a participar diretamente de ataques ao Irã.

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Resistência de aliados a ações militares põe em xeque o futuro da Otan - Foto: Reprodução

Apesar de críticas pontuais — como a posição da Espanha —, os membros da aliança têm evitado confrontar abertamente a ofensiva liderada por Washington, ao mesmo tempo em que condenam retaliações iranianas. A ausência de engajamento militar direto, no entanto, ampliou o desgaste com a Casa Branca. “Eles não foram nossos amigos quando precisamos deles”, afirmou Trump, acrescentando que a relação é “uma via de mão única”.

A tensão retoma um histórico de atritos entre o presidente americano e a Otan. Ainda em seu primeiro mandato, Trump já questionava o modelo de financiamento da aliança e pressionava por aumento dos gastos militares por parte dos europeus. Em seu retorno ao poder, em 2025, obteve compromisso de elevação desses investimentos para até 5% do PIB entre os membros, em meio a um contexto de fragilidade política na Europa e à guerra na Ucrânia.

A atual crise, no entanto, vai além da disputa financeira. A recusa dos aliados em apoiar diretamente a operação contra o Irã reforçou a percepção, dentro do governo americano, de desequilíbrio estratégico. O secretário de Estado, Marco Rubio, afirmou que o modelo da aliança precisa ser revisto. “Se a Otan se resume a defendermos a Europa de ataques, mas eles nos negam o direito de usar nossas bases quando precisamos delas, então não é um bom acordo”, declarou.

Uma eventual saída dos EUA da Otan enfrenta, contudo, obstáculos políticos e jurídicos. Desde 2024, uma legislação exige aprovação de dois terços do Senado ou do Congresso para que a decisão seja válida. Especialistas apontam que o processo pode desencadear disputas judiciais, além de exigir prazo mínimo de um ano para formalização, conforme o Artigo 13 do Tratado do Atlântico Norte.

Analistas avaliam que, mesmo sem concretizar a saída, a postura do presidente já afeta a coesão da aliança. “O presidente pode torná-la funcionalmente inoperante se quiser”, afirmou o senador republicano Thom Tillis. A escalada retórica e a divergência estratégica entre Washington e seus aliados colocam em xeque o modelo de defesa coletiva estabelecido no pós-guerra e ampliam a incerteza sobre o papel da Otan em um cenário geopolítico mais fragmentado.