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Saúde

Canetas emagrecedoras exigem mudança de hábitos

Tratamento “rápido” pode reduzir peso, mas depende de disciplina e orientação médica
Por Helliny França, O Correio de Hoje
31/03/2026 | 16:23

Indicadas para o tratamento de obesidade e outras doenças, as canetas emagrecedoras como Ozempic, Mounjaro e Wegovy se consolidaram como uma opção para quem quer cuidar da saúde, porém, o seu uso deve ser feito com atenção e cuidado, alertam especialistas.

De acordo com a nutróloga Socorro Morais, esses medicamentos são indicados principalmente para o tratamento de obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão, colesterol elevado, doenças articulares, doença hepática gordurosa não alcoólica, apneia do sono, dentre outras comorbidades.

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Saulo Spinelly relata perda de 40 quilos com tratamento aliado à exercícios - Foto: Cedida

“Elas não são medicamentos estéticos — são ferramentas terapêuticas para reduzir riscos à saúde e melhorar a qualidade de vida”, reforçou.

Para a médica, as canetas não devem ser usadas sem acompanhamento médico e sem indicação clínica correta. Além disso, gestantes, lactantes, pacientes com histórico de algumas doenças específicas, como certos tipos de câncer (especialmente de tireoide) e pessoas com doenças gastrointestinais graves (gastrites hemorrágicas, esofagites erosivas, úlceras gástricas) também não podem fazer o uso das substâncias.

“Por isso, o uso deve ser sempre avaliado e acompanhado por um médico”, disse. A médica explica que as substâncias como semaglutida, liraglutida ou tirzepatida atuam no controle da fome e da saciedade, imitando os hormônios naturais do intestino que reduzem o apetite, aumentam a sensação de saciedade e retardam o esvaziamento do estômago. “Na prática, a pessoa sente menos fome, come menos e consegue ter mais controle alimentar”.

O jornalista Saulo Spinelly, que já emagreceu 40 quilos em 11 meses usando as canetas e é paciente de Socorro Morais, relata que começou o tratamento por questão de saúde. De acordo com ele, estava difícil fazer atividades simples do dia-a-dia como subir escadas.

“Eu estava com altos índices de gordura no fígado, eu estava com dificuldade de amarrar o meu cadarço”, contou. Com acompanhamento médico desde o início do tratamento, ela conta que as primeiras semanas usando a substância foram bem difíceis.

“Você tem que se adaptar a uma droga, a substância mesmo no seu corpo. Então, assim, tinha náuseas, um pouco de moleza. Mas depois você vai evoluindo”, relata.

Entre os principais efeitos colaterais destacados pela nutróloga estão náuseas, vômitos, refluxo, diarreia, constipação e sensação de estômago cheio. “Na maioria das vezes, esses sintomas são leves e transitórios, mas precisam ser monitorados”, afirmou.

A médica destaca que é importante a mudança no estilo de vida como um todo, envolvendo alimentação e atividades físicas. Ela explica que o uso isolado dos medicamentos pode até reduzir o peso inicialmente, porém não se mantém. “A alimentação equilibrada, o sono adequado, a atividade física e o manejo do estresse são fundamentais. A medicação é uma aliada, não substitui esses pilares”. Saulo reafirma a importância da mudança de hábitos. “Chegou ao ponto que ela [médica] disse: você vai ter que fazer atividade física, senão eu vou parar o tratamento. Eu comecei a ver uma evolução significativa depois da atividade física. Mudou totalmente. Esse processo impactou totalmente a minha vida”, relata Saulo Spinelly.

Para manter os resultados após terminar o tratamento é preciso manter os hábitos saudáveis. Porém, segundo a médica, pelo fato da obesidade ser uma doença crônica, algumas pessoas podem precisar de tratamento prolongado ou contínuo.

“Cuidar do peso não é uma questão estética, é um compromisso com a saúde. As novas medicações são avanços importantes da ciência, mas não substituem o essencial: hábitos saudáveis, acompanhamento médico e uma visão de longo prazo”, destacou.

Redes sociais

Os resultados do uso das canetas emagrecedoras são vistos com frequência nas redes sociais, os famosos “antes x depois”. No entanto, é preciso ter cuidado para não se deixar influenciar e não usar o medicamento por conta própria. A nutróloga Socorro Morais avalia que a popularização desses medicamentos na internet tem lados positivos e negativos. “Por um lado, ajuda a dar visibilidade ao tratamento da obesidade como doença. Por outro, existe um risco importante de simplificação excessiva, como se fosse uma solução rápida, estética e sem critérios — o que não é verdade”.

Ainda de acordo com ela, existe uma banalização do medicamento, onde pessoas sem indicação médica fazem uso das substâncias apenas com foco no emagrecimento rápido.

“Essas medicações não são sobre estética — são sobre tratar uma doença crônica com ciência e responsabilidade”, disse. Ela destaca o risco de adquirir medicações sem o registro da Anvisa e manipuladas de qualquer forma. A médica alerta que utilizar essas substâncias pode trazer riscos à saúde, inclusive mortes, além de desviar o foco no tratamento correto da obesidade. “Obesidade é uma doença complexa — não se trata apenas com ‘caneta’”.