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Saúde

Canetas emagrecedoras mudam relação de pacientes com exercícios

Usuários relatam maior disposição e passam a associar atividade física a bem-estar e qualidade de vida.
Por O Correio de Hoje
12/03/2026 | 16:25

O uso de medicamentos para perda de peso, conhecidos popularmente como “canetas emagrecedoras”, tem alterado a forma como muitos pacientes se relacionam com a atividade física. Em vez de encarar o exercício apenas como ferramenta para emagrecer, usuários relatam maior motivação e passam a associar o movimento a bem-estar e qualidade de vida.

Jamie Selzler, de 47 anos, começou a perder peso em 2023 após enfrentar dificuldades para caminhar causadas pelo ganho de peso. Desde que iniciou o uso do medicamento Wegovy, ele passou a enxergar a atividade física de maneira diferente. Atualmente, Selzler caminha por trilhas de mais de 11 quilômetros em Fargo, no estado da Dakota do Norte, nos Estados Unidos, além de praticar musculação quatro vezes por semana. Recentemente, também concluiu uma certificação como personal trainer.

Canetas emagrecedoras
Consumo de calorias tende a diminuir naturalmente com canetas emagrecedoras, dizem especialistas - Foto: Freepik

Para muitas pessoas, medicamentos utilizados no tratamento da obesidade — especialmente os agonistas de GLP-1 — têm contribuído para mudar a maneira como lidam com exercícios físicos e, em alguns casos, ajudam a reduzir a sensação de vergonha associada ao peso corporal.

Em entrevistas ao The New York Times, pessoas que utilizam medicamentos como Ozempic para tratar obesidade ou diabetes relataram que a perda de peso facilitou atividades físicas que antes eram difíceis. Para alguns, isso ajudou a estabelecer uma relação mais positiva com o exercício, que passa a ser visto como fonte de bem-estar.

Quando a perda de peso ocorre com auxílio desses medicamentos, especialistas afirmam que o consumo de calorias tende a diminuir naturalmente. Segundo Summer Kessel, nutricionista especializada em transtornos alimentares e professora da Monta Zepbound, “A maioria das pessoas não tem espaço mental enquanto está de dieta para perguntar: ‘Por que eu odeio exercícios?’”.

A pesquisadora Angela Rogers, professora da Universidade de Kansas, destaca que exercícios nem sempre são eficazes para perda de peso, especialmente para pessoas com predisposição genética à obesidade. No entanto, ela afirma que a atividade física pode melhorar a qualidade de vida quando passa a fazer parte da rotina.

Muitos usuários relatam mudanças significativas após iniciar o tratamento. Antes, o exercício era encarado como obrigação associada ao emagrecimento. Agora, para alguns pacientes, a atividade física se tornou mais prazerosa.

A professora Angela Moonja contou que sentia dores constantes nos tornozelos, joelhos, quadris e região lombar. Frequentemente precisava usar analgésicos. “Eu tinha pouca energia. Se eu tentasse caminhar, sentia dor por dias”, afirmou. Após iniciar o tratamento, ela passou a caminhar cerca de dois quilômetros por dia e começou a praticar treinos de resistência e ioga.

“Permito às coisas que usam os GLP-1, eu via a comida como recompensa por fazer o movimento. Agora eu vejo a comida como combustível para o movimento”, disse Selzler.

Alguns pacientes também relatam que os medicamentos contribuíram para aumentar a disposição e reduzir a sensação de fadiga que antes dificultava a prática de exercícios.

Ainda assim, especialistas alertam que nem todos os usuários conseguem incorporar atividade física com facilidade. Para algumas pessoas, a perda de massa muscular ou outros efeitos podem exigir acompanhamento profissional para adaptar o treino.

Profissionais da área de fitness afirmam que academias e treinadores têm buscado adaptar programas de exercício para pacientes que utilizam esses medicamentos. A recomendação é priorizar atividades que preservem massa muscular e respeitem o ritmo individual.

Como explica Angela Moonja, é importante que profissionais de saúde sejam cautelosos ao relacionar exercícios apenas à perda de peso, já que as evidências científicas nem sempre sustentam essa associação.

Rogers defende uma abordagem mais positiva, focada em ajudar as pessoas a encontrar atividades que proporcionem prazer e significado. “Não podemos ignorar que, para aquelas pessoas que não se identificavam como alguém que se exercita, o tratamento pode representar um ponto de partida”, afirmou.

Mesmo com a mudança de hábitos, Selzler diz que não consegue imaginar sua vida sem as caminhadas pelas trilhas da Dakota do Norte ou sem os treinos na academia. “É como se tivesse saído da prisão, vou voltar”. (Com base em reportagem de Danielle Friedman, publicada no The New York Times).