Os cabelos grisalhos, as marcas do tempo e a maturidade têm conquistado cada vez mais espaço nas passarelas e nas campanhas de moda. Modelos com mais de 50 anos vêm ganhando destaque em desfiles e na publicidade, refletindo uma mudança no olhar da indústria sobre o envelhecimento e também sobre o perfil de consumo.
Um exemplo recente foi o desfile da Chanel durante a semana de moda de alta-costura em Paris, em janeiro. A atriz norte-americana Laura Dern, de 59 anos, foi um dos nomes que participaram da apresentação da coleção primavera-verão da marca, assinada por Virginie Viard.

No universo da criação, diversas figuras influentes da moda já ultrapassaram os 50 anos, como Giorgio Armani, Donatella Versace, Stella McCartney e Maria Grazia Chiuri. Para Victoria Darrigues, diretora de compras de moda feminina e acessórios das Galeries Lafayette, essa presença reflete uma busca crescente por autenticidade.
“É como vender um creme antirrugas com uma modelo de 20 anos: não condiz com a vida real”, afirma. Embora existam jovens consumidores do mercado de luxo, segundo ela, as chamadas “mulheres business women” — com maior poder aquisitivo e experiência — também ocupam papel relevante nesse público.
A indústria da moda e do luxo tem observado esse movimento com atenção. Grandes grupos do setor, como LVMH (dono de Louis Vuitton, Dior, Celine e Givenchy), Kering (Gucci, Saint Laurent e Balenciaga) e L’Oréal, enfrentam um cenário econômico mais complexo e buscam fortalecer as vendas junto a consumidores mais maduros, que tendem a ter maior estabilidade financeira.
Ao mesmo tempo, as marcas têm investido em narrativas que valorizam experiência e história pessoal, acompanhando transformações sociais e demográficas.
Nas passarelas, essa mudança também se reflete na escolha de modelos. Algumas das primeiras figuras de destaque da indústria continuam ativas, como a alemã Claudia Schiffer, de 53 anos, e a britânica Naomi Campbell, de 54, que seguem participando de campanhas e eventos importantes.
Para Stéphanie Cavalli, responsável pelo desenvolvimento de novos modelos na agência Premium Models, trata-se de um processo gradual dentro do setor.
“É uma evolução lenta ou avançante com o passar do tempo, mas é com certeza tangível. Nestas gerações da mesma geração, costumamos dizer que houve hoje o melhor momento para ser ‘modelo’”.
Ainda assim, especialistas apontam que o movimento ainda é limitado. Sophie Fontanel, crítica de moda e autora do livro Age/ing, avalia que a diversidade etária nas passarelas ainda está em construção.
Segundo ela, apesar de avanços recentes, desfiles continuam majoritariamente dominados por modelos jovens. Em muitos casos, as mulheres acima dos 50 anos aparecem em participações pontuais, enquanto o padrão dominante segue sendo a juventude.
Adaptado de reportagem de Laure Brumont, originalmente publicada em O Estado de S. Paulo / AFP.