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Cinema
Zorro aos 100 anos: o espadachim original continua o esplendor do herói de ação americano
O herói sempre simbolizou a América destemida com o seu otimismo radiante e as virtudes democráticas da tolerância e inclusão. Tudo isto o torna uma personalidade de grande inspiração para 2021, o ano do seu 100º aniversário no cinema
The Washington Post
07/01/2021 | 19:00

Ele é a mais importante figura de ação da história do cinema e o herói das batalhas no cinema mais afortunado de todos os tempos.

Este rebelde defensor da justiça e da moral, que pula nas batalhas com um sorriso no rosto, com o lema “justiça para todos”, abriu o caminho para todos os corajosos espadachins que se seguiram. A sua agilidade em conciliar alter egos gerou os heróis seminais Superman e Batman das histórias em quadrinhos. Sempre simbolizou a América destemida com o seu otimismo radiante e as virtudes democráticas da tolerância e inclusão. Tudo isto o torna uma personalidade de grande inspiração para 2021, o ano do seu 100º aniversário no cinema.

O seu nome, é claro, é Zorro.

Enquanto a Mulher Maravilha ultimamente chamou a atenção da mídia com a sua extravagante atitude sentimental em relação ao poder do pensamento positivo, Zorro se envolve na ação social sem perder o seu ágil senso de humor. Ele é exatamente o tipo de herói da unificação que este novo ano pede: a criação fundamental de um homem que dominava o caos com uma risada – o rei  da Hollywood do cinema mudo, Douglas Fairbanks Sr.

Fairbanks foi o primeiro a transformar esta criatura da literatura barata numa lenda de excepcional importância. Fairbanks foi o astro, o produtor e co-roteirista sem créditos do sucesso de bilheteria, A Máscara do Zorro, que estreou em todo o país em dezembro de 1920.

Fairbanks apresentou aos amantes do cinema um aristocrata espanhol na Califórnia dos anos 1820 – um personagem de sangue azul que acredita em valores democratas: fair play para com os pobres e proteção dos inocentes. Ele zomba das leis arbitrárias e desafia autoridades corruptas e sádicas.

A lenda é simples: A heroína conhece o fora da lei, e o fora da lei derruba o governo. O vilão é um ambicioso comandante que executa as ordens de um governador amoral torturando sacerdotes, nativos americanos e peões, aterrorizando a classe baixa e arruinando famílias de bem, incluindo a da heroína. Ele anseia por ela; ela anseia pelo Zorro. Usando um disfarce, o fora da lei mascarado que duela com um sorriso e corteja com ardor, se transforma em Don Diego de la Vega, um membro da alta classe, que sofre de um super refinamento e de uma fadiga crônica.

Fairbanks e os seus colaboradores (o diretor Fred C. Niblo, o corroteirista Eugene Miller) são os responsáveis pela alquimia que faz do seriado do escritor Johnston McCulley de 1919, The Curse of Capistrano, em um épico desenvolto sobre um mestre espadachim que introduz o seu humor travesso e acrobacias chocantes em buscas idealistas. Cenas de ação previsíveis tornam-se turbulentas perseguições quando Zorro salta obstáculos com cambalhotas, às vezes parando para um lanchinho.

Como Sir Galahad, de Tennyson, Zorro tem a força de dez homens porque o seu coração é puro. E também é irreverente e maldoso. O seu brilho transpira um estilo nada convencional: ele abraça o caráter igualitário do Novo Mundo enquanto os seus inimigos defendem o passado feudal.

Zorro levantou os ânimos nos anos 20. Nos 2020, sua efervescência continua provocando êxtases.

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‘A Lenda do Zorro’ (2005).  Foto: ANDREW COOPER

Nos trabalhos anteriores de Fairbanks como o herói da paródia das comédias de ação contemporâneas como His Picture is in the Papers, os fãs passaram a vê-lo como “Doug”, um tributo à sua elegância instantânea, – como a de Fred Astaire, um tributo ao talento e à força de vontade. Doug transporta esta graça impetuosa para “A marca do Zorro”. Com a sua alegria e determinação – qualidades que o mundo adotou como a essência do americano – Zorro logo dominou a iconografia das películas de ação. O cinema nunca mais seria o mesmo.

Como pioneiro de dois gêneros gigantescos – dos filmes de espadachins e super-heróis – A Marca do Zorro conseguiu ingressar no National Film Registry em 2015. A única indagação é por que isto não aconteceu antes. Ele estabeleceu um modelo de campeões atemporais, como Robin Hood, e bombeou sangue na nova e corajosa forma de pop-art dos quadrinhos cômicos.

Durante um século, uma persistente sucessão de Zorros de live-action ou animação, para a telinha e a telona, de múltiplas nacionalidades, como o de Antonio BanderasTyrone PowerAlain Delon e Guy Williams, alimentou a popularidade de Zorro do Centro-Oeste ao Extremo Oriente, da Islândia à África. Ele conquistou as imaginações de figuras diferentes como a romancista chilena-californiana Isabel Allende, que criou uma história de origem indígena para ele em Zorro (2005), e Quentin Tarantino e Matt Wagner, cujos quadrinhos Django Zorro (reunidos  como um romance gráfico em 2015) retrata um Django preto caçador de recompensas e um Diego de meia idade unindo-se a ele para derrotar o despótico fundador de um império no Arizona. (O ator-comediante-roteirista Jerrod Carmichael estaria trabalhando em um roteiro de Django/Zorro, embora ainda sem nenhuma ligação com um estúdio.)

Zorro enganou governadores gananciosos, soldados truculentos e maldosos oligarcas que tentavam apoderar-se das riquezas da Califórnia e fomentar a discórdia entre o México e os Estados Unidos. E ainda resistiu às acusações de apropriação cultural. Em 1998, o roteirista-diretor chicano Luis Valdez (Zoot Suit) chamou o Zorro de Fairbanks um defensor dos “californianos brancos e ricos”. Valdez satirizou A Marca de Zorro, de 1998, por escolher um inglês, Anthony Perkins, para o papel de Diego/Zorro e um espanhol, Antonio Banderas, para retratar o seu sucessor mexicano, um irmão fictício do lendário bandido-rebelde Joaquín Murrieta. Herbert Siguenza do Culture Clash também criticou o Zorro, em um artigo no Los Angeles Times de 2005, como a recriação “eurocêntrica” dos “bandidos reais (como Murrieta) defendendo os direitos dos californianos nativos”. Mas ele ainda admira a ideologia libertadora do Zorro: “sua luta pelos direitos dos oprimidos…a mesma filosofia de Zapata e de Che Guevara”.

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O ator Guy Williams interpretou Zorro nos anos 1950. Foto: Disney

Os roteiristas e artistas apaixonados por cinema criaram os primeiros super-heróis padronizados no estilo das revistas em quadrinhos, segundo o protagonista duplo de Fairbanks. Quando Superman e Batman abandonavam os seus uniformes para se tornarem Clark Kent ou Bruce Wayne, revelavam uma persona fraca como Don Diego, o dandy apolítico entediado que se diverte com truques de salão com o seu lenço. O co-criador do Batman, Bob Kane, escreveu em sua autobiografia de 1998, “Barman and Me”: “O rico e pretensioso Don Diego, o alter ego do Zorro, inspirou a fachada de Bruce Wayne, o playboy entediado, rico e ocioso”.

Bill Finger, seu parceiro pouco conhecido que escreveu os roteiros do Batman, teria dito que queria combinar Fairbanks com Sherlock Holmes, o Sombra e Doc Savage (outro personagem de histórias em quadrinhos da década de 30). Em ação, Superman e Batman se assemelhavam ao Zorro, que é um lutador incansável e um efervescente artista cômico: no caso do Zorro, isto significa tornar os duelos em improvisos espirituosos, e depois assiná-los com uma Z como um rasgo em um parede, uma porta, no rosto de um vilão ou nos fundilhos de um bufão.

Quando o artista de Superman, Joe Shuster, e o roteirista Jerry Siegel deram uma rara entrevista conjunta em 1983, Siegel disse: “Eu adorava A Marca do Zorro”. Shuster confessou que tomou emprestada a atitude de Fairbanks para o Super-Homem. “Ele sempre se colocava com as mãos nos quadris e de pernas abertas, rindo – sem levar nada a sério”. Indubitavelmente Fairbanks teria preferido o Homem de Ferro de Robert Downey Jr. aos taciturnos Super-Homens e Batmans de hoje.

Em A Marca do Zorro, Fairbanks se diverte com a mecânica da narrativa que mudaria o panorama pop dos Estados Unidos. Lois Lane rejeitando Clark Kent pelo Super-Homem lembra a bela e nobre Lolita Pulido rejeitando Don Diego e desmaiando por Zorro. Vendo Zorro levar o seu garanhão pelas portas camufladas do porão até o esconderijo subterrâneo ligado por passagens escondidas à fazenda de Diego, é impossível não lembrar de Bruce Wayne acelerando o seu Batmóvel numa Batcaverna subterrânea embaixo da Mansão Wayne, ou o Arqueiro Verde montando a sua caverna em um armazém abandonado.

A enorme capacidade moral e emocional que Fairbanks criou para o papel deu uma ampla liberdade de manobra criativa aos brilhantes sucessores como Banderas e ao diretor Martin Campbell, e a Guy Williams e à equipe da Disney TV. De The Bold Caballero de 1936 (o primeiro Zorro falado e o único filme de Zorro sem Zorro no título) a A Lenda do Zorro, de 2005, Zorro nunca precisou de armaduras ou retoques digitais para dar ânimo ao público. (Os figurinos de Fairbanks e de Tyrone Power eram tão apertados quanto as roupas dos toureiros.) O personagem transpira prazer e sex appeal, e uma paixão avassaladora.

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