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Caso de polícia
‘Você se masturba?’, pergunta o presidente da CBF para sua secretária
A CBF já teve um presidente (José Maria Marin) preso nos EUA e banido do futebol
Blog Lauro Jardim, do O Globo
04/06/2021 | 16:54

A CBF vive desde abril uma crise explosiva, mas que até agora fervia somente dentro da sua sede. Agora, foi revelada pelos repórteres Gabriela Moreira e Martín Fernandez: uma funcionária da CBF acusou formalmente o presidente da entidade, Rogério Caboclo de tê-la assediado moral e sexualmente. A denúncia foi protocolada hoje na Comissão de Ética da CBF e a Diretoria de Governança e Conformidade.

Trata-se de uma encrenca que é, desde então, do conhecimento de toda a cúpula do futebol e ameaça a permanência de Caboclo na presidência da entidade. O enredo da confusão reúne Caboclo, sua secretária particular, duas fitas gravadas de teor bombástico e uma série de negociações para abafar o caso.

O cartola teve várias conversas impróprias coma ecretária, que trabalha há nove anos na CBF, onde começou como recepcionista. O tom de assédio sexual nas fitas é incontestável. Numa dessas fitas, por exemplo, Caboclo força uma dessas abordagens inadequadas. É um diálogo de doze minutos ocorrido há cerca de três meses no gabinete do presidente da CBF, no Rio de Janeiro.

Inicialmente, Caboclo relata fatos íntimos do seu próprio casamento, com um grau impressionante de franqueza. Neste instante, diz:

—Chefe, eu não vou entrar no assunto da vida sexual de vocês. Não sou a melhor conselheira.

Minutos depois, no trecho final da gravação, Caboclo pergunta a secretária, sem rodeios:

— Você se masturba?

A secretária responde:

— Eu estou ficando sem graça. Não quero falar disso.

Em seguida, ela diz que está na hora de aquela conversa terminar.

Esse diálogo foi gravado pela secretária. Nele, Caboclo fala com voz arrastada, com pausas longas. Ela em geral apenas responde com frases curtas, às vezes rindo do que ouve.

O outro diálogo gravado é mais longo, de cerca de 40 minutos, em que Caboclo faz investidas também de modo indevido. Segundo Lívia relatou a pessoas próximas, ela resolveu gravar o chefe porque não suportava mais ser assediada. Teria sido importunada diversas vezes nos últimos meses, de acordo com os mesmos relatos.

As duas conversas já foram ouvidas por quase todo — senão todo — o alto comando da CBF. Quando perguntados por mim na segunda semana de maio sobre as gravações, alguns desses cartolas optaram por dizer que tiveram ciência do caso, conheciam o teor dos diálogos apenas por informações de terceiros, mas que preferiram não ouvir as fitas.

Os dirigentes sabiam do tamanho do rolo desde o primeiro momento. Um caso de assédio sempre foi algo explosivo, mas nos últimos anos a força deste tipo de denúncia junto à opinião pública ganhou contornos de maior gravidade — mesmo num universo machista como o do futebol. Cinco meses atrás, Yves Jean-Bart, que ocupava a presidência da Federação de Futebol do Haiti, foi banido do futebol pela Fifa. Motivo: foi considerado culpado em vários casos de abuso sexual com jogadoras adolescentes.

Por isso, nos últimos 60 dias os cartolas da CBF têm debatido à exaustão que atitude tomar. A opção pela renúncia de Caboclo foi fortemente discutida neste período. Mas ele resistiu à ideia.

Enquanto os dirigentes pensavam em como (e se era o caso de) desarmar aquela bomba, Caboclo tratou de tentar negociar com ela para que ela deixasse a CBF sem atritos. As conversas ocorreram entre os advogados das partes. De acordo com diversas informações obtidas com dirigentes da entidade, as tratativas para que um contrato fosse assinado chegaram a ficar num estágio avançado.

Por ele, Lívia deixaria a CBF, seria indenizada e esqueceria a história. Neste período todo, ela esteve de licença médica a partir de 9 de abril. Apresentou um atestado médico que falava em uma suposta crise de ansiedade e síndrome do pânico por parte dela. Oficialmente, alegou que iria para Minas Gerais, pois estaria abalada com a morte recente de parentes. Viajou, de fato, mas pelo menos desde a semana passada está de volta ao Rio.

A alguns interlocutores, Caboclo dizia estar sendo vítima de uma rede de boatos alimentada por pessoas interessadas na sucessão da CBF, cuja eleição para o cargo de presidente está marcada para abril do ano que vem. Não contava que ela fosse formalizar a denúncia.

Dizia também que a secretária conhecia sua família, com quem até trocava mensagens até as vésperas de ter entrado de licença médica. “Era uma pessoa da minha casa, da minha intimidade”.

Neste meio tempo, Caboclo pediu ajuda até a Ricardo Teixeira, que não faz parte do seu grupo político. O presidente da CBF também recorreu a Marco Polo Del Nero, seu antecessor e padrinho político, de quem andava afastado nos últimos tempos. Marco Polo tem o auxiliado em sua tentativa de abafar a fogueira em que ele próprio acendeu.

O que Caboclo não conseguiu ainda é convencer os seus pares na diretoria da CBF. Está cada vez mais isolado. Os cartolas temem o abalo que o escândalo pode causar à entidade, afugentando patrocinadores e acabando até por derrubá-los todos. E já discutem a sua sucessão. Logo ele, que teria uma reeleição fácil no pleito marcado para abril do ano que vem.

A CBF já teve um presidente (José Maria Marin) preso nos EUA e banido do futebol. Teve outro (Marco Polo Del Nero) denunciado por corrupção e do mesmo modo afastado do esporte pela Fifa. Foi comandada também um cartola (Ricardo Teixeira) forçado a renunciar ao mandato em meio a investigações de corrupção e, como os outros dois, excluído do mundo da bola. A partir de agora tem um presidente às voltas com um caso de assédio. Não é um currículo invejável.

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