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Editorial
Tudo que é demais, é muito
Redação
19/02/2020 | 00:04

Quando a política de alto nível era feita por políticos profissionais, havia hipocrisia, realidades eram falseadas e até, aqui e ali, alguma coisa fora tom acontecia, mas sempre sem consequências maiores.

Esta era a vida no alto clero do Congresso Nacional.

Na presidência da República, como vem acontecendo as coisas, é novidade. O tom destoante começou com Jair Bolsonaro lá atrás, ao afirmar, anos atrás, que a colega Maria do Rosário, por não ser bonita, não mereceria sequer ser estuprada – pensamento que voltou a expressar muito tempo depois, antes da eleição presidencial.

Como se tratava de uma grosseria desferida por alguém do baixo clero, apesar de repugnante, passava.

Por ser um político profissional há três décadas e que começou na carreira aconselhando seus pares a ficarem de bico fechado, é claro que Bolsonaro foi se espalhando com o tempo até colocar a faixa presidencial, quando realmente perdeu qualquer senso de decoro em relação ao cargo.

Recato no comportamento, decência no vestir, no agir e no falar podem parecer inutilidades para um boteco, mas, definitivamente, não são nas casas legislativas, nos tribunais e muito menos na sede maior do poder executivo, onde os pequenos exemplos orientam toda uma nação.

Pois, sistematicamente, com a mesma displicência que parece agradar seu séquito de seguidores dentro e fora da internet, o presidente desrespeita os protocolos da política com uma selvageria poucas vezes vista na história da República.

Contudo, desta vez, o capitão foi longe demais com a jornalista Patrícia Campos Melo, da Folha de S. Paulo, embora já tenha passado dos limites com outros profissionais de imprensa.

O problema não é apenas o desrespeito, mas as frases dúbias, salpicadas por certa dose de cafajestagem, expondo não só a pessoa atacada, como aquela que ataca, o que transforma tudo num episódio lamentável.

Em nota, a Associação Nacional de Jornais (ANJ) protestou ao afirmar que as insinuações do presidente contra a jornalista buscam desqualificar o livre e exercício do jornalismo e confundir a opinião pública.

Além dessas, muitas outras manifestações deixaram claro que a política feita em alta nível precisa de gente com empatia suficiente para não se deslocar da realidade e nem transformar a barbárie na matéria prima de um cargo de primeira grandeza do regime presidencialista.

Daí o título deste editorial lembrar uma das frases intencionalmente óbvias do Conselheiro Acácio, do clássico de Eça de Queiroz: “Tudo o que é demais, é muito”.

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