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Produção
Steve McQueen retrata histórias de imigrantes de ex-colônias em ‘Small Axe’
Duas das produções, Lovers Rock e Mangrove, tinham sido selecionadas para o Festival de Cannes que não aconteceu. Ambas também passaram no Festival de Londres e de Nova York
Estadão
23/12/2020 | 21:40

O prêmio de melhor filme do ano concedido pela Associação de Críticos de Los Angeles para Small Axe, dirigido por Steve McQueen, causou certa surpresa. Primeiro, por se tratar de uma antologia de cinco longas. Segundo, porque eles foram feitos para passar na televisão, mais precisamente na BBC, que ainda negocia a distribuição no Brasil. Para o próprio diretor, deve fazer todo o sentido. “Para mim, é cinema. São filmes que por acaso estão sendo exibidos na televisão”, disse ele em entrevista coletiva via Zoom, em novembro. “A razão pela qual quis que fossem exibidos na TV foi para que minha mãe pudesse assistir”, completou McQueen, vencedor do Oscar por 12 Anos de Escravidão.

Duas das produções, Lovers Rock e Mangrove, tinham sido selecionadas para o Festival de Cannes que não aconteceu. Ambas também passaram no Festival de Londres e de Nova York, do qual Red, White and Blue também participou. Mas a antologia estava até agora programada para concorrer ao Emmy e não ao Oscar. A mudança parece possível, mas não se sabe ainda se vai acontecer.

O projeto, que, em princípio, era uma série de TV, começou 11 anos atrás, pouco depois de McQueen, um artista visual premiado, ter lançado seu primeiro longa-metragem, Hunger, pelo qual ganhou a Caméra d’Or em Cannes. “Mas eles não poderiam ser lançados em melhor hora, com tudo o que aconteceu este ano – do assassinato de George Floyd ao coronavírus – e o impacto que teve sobre as pessoas negras”, disse o cineasta.

Cada um dos cinco longas conta uma história que se passa em Londres e envolve pessoas negras, mais precisamente da comunidade das Índias Ocidentais, ou seja, da Jamaica, Bahamas, Bermuda e outras ilhas do Caribe, muitas delas colonizadas pelos britânicos. São histórias reais, ou fortemente baseadas na realidade. “O desafio foi escolher as histórias”, disse a produtora Tracey Scoffield. “Elas não existiam na forma escrita, não são baseadas em livros ou artigos de revista.” A produtora associada Helen Bart ficou encarregada de coletá-las dentro da comunidade.

E assim nasceram os cinco filmes. Mangrove é um drama de tribunal sobre a prisão de Frank Crichlow (Shaun Parkes), dono do restaurante que dá título ao longa, um ponto de encontro da comunidade tornado alvo da polícia. Num protesto, houve confusão, e Crichlow e outras oito pessoas foram presas. O julgamento foi histórico, reconhecendo o comportamento racista da polícia londrina. Red, White and Blue é igualmente baseado numa história real, a de Leroy Logan (John Boyega), que desiste da carreira científica para entrar na polícia e ser uma voz da comunidade dentro da instituição, apesar de seu pai, Ken (Steve Toussaint), ter sofrido agressão de policiais.

“Eu tive de conversar com Leroy para entender sua motivação”, disse Boyega. “Mas me identifiquei bastante com ele que, como eu, teve de navegar espaços ocupados quase exclusivamente por brancos e foi usado como peça de marketing, para mostrar uma Grã-Bretanha e uma polícia com diversidade”, completou o ator.

Alex Wheatle foi inspirado na vida do hoje escritor, que teve uma infância e uma juventude sofridas no orfanato e depois na prisão. Education conta a luta de uma mãe, Agnes (Sharlene Whyte), para proteger seu filho Kingsley (Kenyah Sandy) – na década de 1970, muitos garotos negros foram enviados para escolas de “educação subnormal”, que eram mais precárias. Isso motivou a união da comunidade e a criação de aulas durante o fim de semana para ajudar essas crianças.

Lovers Rock mostra uma noite num “blues”, o bailinho ao som de reggae e dub, quando Franklyn (Micheal Ward) e Martha (Amarah-Jae St. Aubyn) se conhecem. O romance foi inspirado nas experiências de familiares de McQueen e Courttia Newland, que escreveram juntos o roteiro deste filme de Red, White and Blue. A mãe de Newland promovia festas assim em sua casa, enquanto a tia do diretor ia escondida aos blues. “Eu nunca pensei que seria protagonista de uma história de amor”, disse St. Aubyn, que estreia em longas-metragens. “Espero inspirar meninas negras a aspirar estar num romance. Porque nós, negros, também ficamos com frio na barriga, nos apaixonamos, amamos e festejamos enquanto lidamos com o lado difícil das nossas vidas.”

As cinco histórias se passam entre os anos 1960 e 1980 e recuperam coisas que foram transmitidas oralmente e quase nunca registradas em filme. Mas para o diretor não é uma recuperação do passado. “Para mim, são ficção científica”, disse McQueen. “Eles mostram onde estamos agora, como chegamos longe. Mas, em última instância, expõem quanto ainda precisamos percorrer. Foram feitos para avançar a discussão, não apenas preencher lacunas do passado. Trata-se do futuro.”

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