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Editorial
Sinais trocados
Redação
22/04/2020 | 00:05

A lamentável presença física do chefe da Nação numa aglomeração de pessoas pedindo o fechamento do Congresso e do STF, a despeito do esperado recuo de horas depois, deixará sequelas. E vai render consequências políticas e institucionais.

Independentemente de atos irresponsáveis do fim de semana, que constrangeram até as Forças Armadas, cujo respeito ao Estado brasileiro e não aos políticos é premissa fundamental, o fato é que o governo exala intransigência autoritária.

Ela se reflete em tudo, de um tema diplomático, até questões localizadas, como a escolha de um reitor numa instituição federal ou outros cargos de escalões inferiores.

Durante a ditadura, que durou de 1964 a 1985, Brasília fazia questão de dar conta de tudo o que acontecesse nos estados federados, cuidando de nomeações e impondo censura sistemática aos veículos de comunicação, mantendo agentes nas redações e punindo os transgressores.

Mesmo depois da anistia, ampla geral e irrestrita, que trouxe exilados de volta ao país e perdoou crimes cometidos tanto por agentes das Forças Armadas como aos opositores do regime – responsáveis, sim, por muitos assassinatos políticos –, o fato é que o governo atual patrocina um déjà-vu macabro daqueles tempos.

E, o que é pior, em plena crise sanitária mundial.

Quando o senhor presidente não está montado sobre uma caçamba dando apoio à manifestantes que pregam a volta da ditadura militar, mesmo que horas depois diga que não foi essa a sua intenção, nas periferias do poder eleito as escandalosas manobras se repetem, uma depois da outra.

A última, de consequências nefastas, aconteceu nesta segunda-feira. Com o apoio de 179 países, a Assembleia Geral da ONU adotou a uma resolução demandando uma ação global para acelerar rapidamente o desenvolvimento, a produção e o acesso à remédios, vacinas e equipamentos médicos frente ao novo coronavírus.

Adivinhem: o Brasil, ao lado dos Estados Unidos, Hungria, Irã e Rússia, está entre os 14 Estados-membros que não patrocinaram a medida.

Como a Assembleia Geral não está realizando votações durante a pandemia, um rascunho da resolução circula antecipadamente entre as nações e, caso um país apresente objeções antes do prazo, a medida é derrotada. Em tempos normais, os documentos são referendados por votação ou consenso.

O jornal O Globo, que apurou a matéria, tentou entrar em contato com o Itamaraty para saber a razão da posição brasileira, mas ainda não obteve resposta.

Apresentada pelo governo mexicano, a medida pede que o secretário-geral da ONU, António Guterres, trabalhe em conjunto com a Organização Mundial da Saúde para coordenar, identificar e recomendar opções que garantam o acesso justo, transparente e eficiente a remédios, equipamentos e futuras vacinas, em especial em países em desenvolvimento.

Quando não está numa caçamba de um carro, privilegiando pautas como a volta da ditadura militar e seus mecanismos autoritários, o governo deixa claro, a cada dia, para que veio.

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