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Prejuízo
Setor cultural potiguar amarga prejuízos econômicos com a pandemia da Covid-19
Responsáveis pela organização de shows e eventos artísticos, produtores culturais do Rio Grande do Norte enfrentam a crise econômica e buscam novas estratégias para minimizar o impacto gerado pela suspensão das atividades em 2020
Pedro Trindade
29/06/2020 | 05:00

O Nordeste torna-se berço para o nascimento de São João anualmente no mês de junho, mas em 2020 a celebração que movimenta os nove estados da região não terá aglomerações de pessoas dançando forró nas ruas nem filas de clientes nos comércios, bares e restaurantes. O setor cultural foi um primeiros afetados pelas restrições impostas em razão da crise do novo coronavírus. E, para piorar a situação, mesmo com a potencial retomada da economia nas próximas semanas, as atividades culturais serão um das últimas a reabrir as portas.

Responsáveis pela organização de shows e eventos, os produtores culturais que conduzem o setor da economia criativa neste período junino, como Amaury Junior, enfrentam atualmente os desafios da crise econômica e buscam novas estratégias para minimizar o impacto gerado.

O produtor cultural conta que já estava com o projeto de São João pronto ainda no começo do ano, mas teve que cancelar todo cronograma do período em virtude da Covid-19. O prejuízo estimado é de R$ 300 mil e mais de 400 empregos formais e informais que deixaram de ser gerados pelo cancelamento dos eventos. Segundo ele, este é o pior balanço em 18 anos de trabalho.

“É uma receita significativa que impacta a economia criativa do Estado, desde os produtores até quem trabalha como técnico, garçom e ambulante. Costumamos dizer que é no São João que o sanfoneiro corta o cabelo, mas neste ano isto não foi possível”, comenta o produtor cultural que executou apenas 15% dos eventos planejados para 2020.

A economia potiguar deixou de movimentar R$ 94 milhões em virtude do cancelamento do Mossoró Cidade Junina. Considerando os grandes redutos juninos, como Campina Grande (PB) e Caruaru (PE), o prejuízo dos cancelamentos e adiamentos das comemorações chega a R$ 1 bilhão de reais. Segundo informações da Prefeitura de Mossoró, durante os festejos juninos de 2019, a cidade recebeu mais de 1 milhão de visitantes.

O produtor Amaury Jr., por sinal, cancelou algumas programações agendados até agosto, enquanto outras foram adiadas para outubro. Ele teme que em setembro medidas de prevenção em massa ao novo coronavírus ainda não estejam disponíveis, como a vacina, e ele tenha que fazer novos adiamentos.

O produtor critica a postura dos governos que não determinaram o lockdown no início da pandemia a fim de evitar um maior contágio do vírus e garantir a retomada econômica em curto prazo. “Não temos perspectiva. A cada semana o decreto é renovado. Não tem planejamento, não temos norte. Estamos lidando com vidas nos mais diversos sentidos. O tempo para agir e adotar as medidas necessárias já se esgotou”, desabafa.

A desaceleração da economia brasileira poderá causar um impacto de R$ 46,5 bilhões em perdas e um encolhimento de 24% no setor da cultura e da indústria criativa em 2020, conforme previsão da Fundação Getúlio Vargas (FGV). O estudo revela que o período de abril a junho será o mais crítico, enquanto a recuperação gradual é prevista apenas para dezembro.

Com os estados e municípios registrando recordes de óbitos pelo novo coronavírus em junho, a expectativa é que a projeção da FGV seja concretizada. Na última semana, o Rio Grande do Norte passou de 20 mil casos confirmados de Covid-19 e quase 900 óbitos pela doença foram registrados.

Para auxiliar o setor cultural no enfrentamento da pandemia, o Plenário da Câmara dos Deputados aprovou, em 26 de maio, ajuda de R$ 3 bilhões durante a crise.

O “socorro” será repassado aos estados e municípios, que vão aplicar os recursos na renda emergencial para os trabalhadores do setor, em subsídios mensais para manutenção dos espaços e em outros meios como editais, chamadas públicas e prêmios.

Setor cultural pede ajuda

Amaury Júnior acredita que a ajuda pode contribuir temporariamente com a cultura, mas reivindica que os editais de seleção busquem contemplar os mais diversos profissionais do setor, pois o momento pede unidade e solidariedade.

“Torço para que tiremos uma grande lição de tudo que vivemos. Vimos a importância de ter um olhar atencioso para saúde, mas também para cultura. Todos foram beber na fonte da arte para enfrentar com mais ternura este momento de dificuldades”, comenta.

O profissional espera que quando as atividades sociais forem retomadas, as pessoas tenham a confiança de frequentar os lugares que costumavam ir, como teatros, casas de shows e restaurantes.

O sentimento é partilhado por Cláudio Porpino, que já estava com uma festa de São João planejada e com artistas reservados desde fevereiro. “Se nenhuma medida de proteção a Covid-19 que permita andar em aglomerações for desenvolvida nos próximos meses, grandes festas poderão não acontecer em 2020”, projeta.

No calendário de fim de ano de Natal há o réveillon e o Carnatal, que pode ter a celebração de trinta anos de existência sem festa, trios e foliões.

A Destaque Promoções explica que para o evento entrar na avenida em dezembro, conforme planejado, as vendas devem começar, no máximo, em setembro. Para tanto, é necessário que haja protocolos que garantam a segurança dos foliões e dos profissionais envolvidos.

“O futebol servirá de termômetro para realização de eventos, pois vai começar sem público, mas depois vai receber torcidas. Vamos observar, então, quais serão as medidas necessárias e as estratégias adotadas para trabalhar no pós-pandemia”, destaca Porpino.

O produtor cultural não nega a esperança em dias melhores, mas revela que a incerteza do momento é “angustiante”. Ele acredita que apesar das lives terem tido grande aceitação do público, elas beneficiam apenas artistas consolidados no mercado, que recebem patrocínio, enquanto outros profissionais não têm o mesmo êxito. Ele reconhece o impacto negativo para o setor. “Um amigo meu na Bahia teve que cancelar mais de 200 contratos. É um abalo financeiro inestimável que prejudica toda cadeia produtiva”, reflete.

Incerteza com o fim do ano

A realidade nordestina reflete o cenário nacional. De acordo com a presidente da Associação Brasileira de Empresas de Eventos (Abeoc), Fátima Facuri, todos os seus 1.200 associados, de 12 estados, estão com a agenda quase toda bloqueada. “Estamos entrando em colapso, afundados no caos. Entendemos, obviamente, as posições da Organização Mundial de Saúde (OMS), concordamos, mas alguém precisa fazer alguma coisa. Do jeito que está, parte das empresas vai quebrar, não tem saída. Este vai ser o nosso pior ano em muito, muito tempo”, afirma.

As atividades coletivas de qualquer natureza, públicas ou privadas, incluindo eventos de massa, shows, atividades desportivas, feiras, exposições, carreatas, passeatas e congêneres, continuam vedadas pelo decreto do Governo Estadual. A decisão atende as recomendações da OMS, que comprovou por meio de estudos científicos a eficácia do distanciamento social na prevenção da Covid-19.

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