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Entorpecentes
Rota Natal-Roterdã de tráfico internacional de cocaína completa 18 meses
Somente no Porto de Natal, em 18 meses, já foram apreendidas mais de 5 toneladas de cocaína. Somando apreensões feitas também na Europa, com cargas que saíram a partir do porto potiguar, já são 11 toneladas
Anderson Barbosa
18/08/2020 | 06:00

O Porto de Natal, mais uma vez, ganhou as páginas policiais. Foi neste final de semana, após uma nova apreensão de cocaína feita pela Polícia Federal e Receita Federal. Desta vez, pouco mais de 700 quilos da droga. O entorpecente foi encontrado escondido em meio a um carregamento de manga. As frutas, e também o pó, embarcariam para a Europa, via Porto de Roterdã, nos Países Baixos (Holanda) — justamente o mesmo destino das mais de 3 toneladas de cocaína encontradas em fevereiro de 2019 dentro de contêineres, quando foram feitas as primeiras apreensões de drogas no terminal marítimo de cargas da capital potiguar.

A questão agora é outra: como evitar que a capital potiguar continue sendo usada como rota internacional de drogas? Somente no Porto de Natal, em 18 meses, já foram apreendidas mais de 5 toneladas de cocaína. Levando-se em consideração apreensões feitas também na Europa, com cargas que saíram de Natal, a coisa é ainda pior. Desde 2018, segundo a Receita Federal, lá se vão mais de 11 toneladas.

Outro dado importante: pelo menos 5 pessoas já foram presas suspeitas de participação no esquema e denunciadas à Justiça pelo Ministério Público Federal. As prisões aconteceram em dezembro do ano passado. Porém,
mais importante que punir, é prevenir. Contudo, a aquisição de um scanner de contêiner, equipamento considerado essencial para auxiliar na fiscalização das mercadorias e produtos que chegam e saem do Porto de Natal, continua no campo da promessa.

A Companhia do Rio Grande do Norte (Codern) anunciou que o grupo CMA-CGM, única empresa transportadora com operação no Porto de Natal na rota de exportação de frutas potiguares para a Europa, vai adquirir um scanner de contêiner e que ele já deve começar a funcionar em setembro. Contudo, não soube informar quanto vai custar. A empresa responsável por oferecer o equipamento é a brasileira EBCO Systems, que desde 1994 desenvolve soluções de inspeção de cargas e contêineres por raios X em vários portos e aeroportos do país.

Fontes ligadas ao Agora RN dizem que o equipamento custa entre R$ 10 e 14 milhões, e que ele deverá ser alugado, e não comprado em definitivo. Assim, o custo deve ficar em torno de 350 a 400 mil por mês.

“O aprimoramento da segurança no Porto de Natal é um objetivo permanente da diretoria da Codern. A sua obtenção passa por uma intensificação das operações interagências e adoção de novos protocolos, sempre em evolução. Estamos planejando que o equipamento entre em operação entre o final de setembro e início de outubro. E uma parceria entre o Porto, o Armador e o Operador portuário pagará pelo scanner”, afirmou a Codern.

Sem prejuízos

Questionada sobre a eficácia do equipamento, a Codern disse acreditar que o scanner “contribuirá sobremaneira para evitar a entrada de materiais ilícitos no Porto de Natal”, e que, a princípio, em razão das apreensões feitas pela PF e Receita, a companhia ainda não sentiu prejuízo financeiro, pois a quantidade de contêineres embarcados permanece a mesma.

Por fim, a companhia ressaltou que administra o Porto de Natal e que é vinculada ao Governo Federal. “Portanto, tem suas operações apoiadas pela Polícia Federal e Receita Federal, que com suas ações de inspeção e inteligência coíbem o tráfico de drogas”.

Apesar de a Codern afirmar que não registrou prejuízos em razão das apreensões, a CMA-CGM passou um mês sem operar por conta do tráfico de drogas no terminal. De 21 de fevereiro a 21 de março, a empresa suspendeu as atividades no Porto de Natal. A falta do scanner de contêiner foi um dos motivos alegados.

Segundo a Codern, cerca de 43 mil toneladas de frutas foram embarcadas, por mês, no Porto de Natal em 2019.

Apreensões

  • 12 de fevereiro de 2019: 1,2 tonelada
  • 13 de fevereiro de 2019: 2,2 tonelada
  • 13 de maio de 2019: 1 tonelada
  • 9 de setembro de 2019: 70 quilos
  • 15 de agosto de 2020: 704 quilos

De outubro de 2018 até agora, levando-se em consideração apreensões feitas na Europa de cargas que partiram de Natal, a Receita Federal estima a apreensão de mais de 11 toneladas de cocaína.

Investigações

A Polícia Federal disse que as investigações terão prosseguimento com o objetivo de identificar a autoria desse crime de tráfico internacional de drogas, cuja pena pode variar de 7 a 25 anos de reclusão, e que acredita que a apreensão realizada no sábado (15), no Porto de Natal, reforça a importância das reuniões da Comissão Estadual de Segurança Pública nos Portos, Terminais e Vias Navegáveis – CESPORTOS.

“Essa mesma Comissão, que é presidida pela PF e integrada pela RFB, tem como missão prevenir e reprimir os atos ilícitos nos portos, terminais e vias navegáveis”, destacou.

A rota

Após as primeiras apreensões de drogas feitas no Porto de Natal, ainda em fevereiro de 2019, a Polícia Federal informou que a capital potiguar era o ponto de partida de uma rota do tráfico internacional de drogas. À ápoca, inclusive, a PF confirmou que já sabia da existência do transporte de drogas pelo ar – caso em que o entorpecente é levado na bagagem ou preso ao corpo de passageiros de aviões. O trajeto marítimo, no entanto, foi considerado novidade, de acordo com Delegacia Regional de Investigação e Combate ao Crime Organizado da PF no Rio Grande do Norte.

As duas apreensões feitas em fevereiro de 2019 foram as primeiras da história do Porto de Natal, aberto em 1932. Nunca uma operação policial havia descoberto drogas no terminal.

Ainda segundo a Polícia Federal, o tráfico marítimo entre Natal e a Europa vêm ocorrendo sempre de forma semelhante. Primeiro, a cocaína é embalada em tabletes. Depois, tudo é escondido em meio a carregamentos de frutas — que são exportadas dentro de contêineres — que por sua vez atravessam o Oceano Atlântico em navios cargueiros.

Além de desembarcarem em Roterdã, muitas vezes os contêineres que saem de Natal também são descarregados no Porto de Antuérpia, na Bélgica. Neste último, apesar da apreensão de 50 toneladas de entorpecentes em 2018, ainda não há registro de drogas que teriam partido da capital potiguar.

DNA da droga

Ainda de acordo com a Polícia Federal no RN, pelo DNA da coca foi possível descobrir que a droga apreendida no Porto de Natal foi produzida na Colômbia, Peru e Bolívia. Porém, a PF prefere não traçar um percurso específico percorrido pela droga antes de chegar a Natal.

Consórcio de quadrilhas

Os traficantes que atuam na remessa para a Europa não pertencem a facções criminosas que dominam o comércio de drogas dentro do país. “Não estamos falando, necessariamente, destas facções internas que atuam dentro e fora dos presídios. Nada disso. São traficantes internacionais. O que existe é um consórcio de quadrilhas, criminosos que se unem para fazer o negócio cada vez mais lucrativo para eles”, disse o delegado da PF Agostinho Cascardo, quando das primeiras apreensões de cocaína feitas
na Porto de Natal.

Como prova da existência de várias quadrilhas, o delegado contou que foram encontrados adesivos coloridos pregados nas embalagens da droga – como uma espécie de assinatura desses grupos.

“É como se cada adesivo indicasse uma propriedade diferente. A cor vermelha é para a quadrilha X. Já o adesivo azul vai para a quadrilha Y. E assim por diante. Eles usam essas marcações para não misturar as encomendas”.

Cascardo, no entanto, não detalhou a forma como as drogas foram parar dentro dos contêineres. “É o que estamos investigando. Pode ter sido na fazenda, ainda durante o carregamento, ou mesmo no caminho, até chegar
no porto. E também pode ter sido feito dentro do próprio porto. Somente as investigações irão nos dar esta resposta”.

Prisões

A prisão das cinco pessoas suspeitas de envolvimento na rota internacional de drogas Natal-Europa aconteceu no dia 7 de dezembro do ano passado. Na ocasião, a PF ainda apreendeu 1,2 tonelada de cocaína. A droga estava dividida em diferentes locais: um contêiner que era transportado por caminhão e levava melão ao porto de Natal, e atrás de paredes falsas em três galpões em Parnamirim.

A PF começou a acompanhar a movimentação no entorno dos galpões e descobriu que um deles foi alugado com documentos falsos. No contêiner, que era transportado pelo veículo para o porto, e tinha como destino final a Dinamarca, foram encontrados diversos tabletes de cocaína misturados a uma carga de melão. Outros tabletes foram encontrados em cômodos escondidos por paredes falsas dentro dos três galpões.

As penas cominadas ao crime de tráfico internacional de drogas e associação ao tráfico, somadas, vão de 10 a 35 anos de reclusão.

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