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Reconstrução
Reinvenção na pandemia: Histórias de quem mudou o foco para enfrentar a crise
Seja esticando massa na cozinha num cilindro ou cortando madeira para fazer uma estante ou um gaveteiro, pessoas têm achado uma inspiração nova durante esses tempos de isolamento social. Por uma razão financeira ou simplesmente pela paixão de construir alguma coisa com as próprias mãos, há um certo prazer nessa reconstrução pessoal nos últimos meses
Marcelo Hollanda
24/07/2020 | 23:13

Larissa

Vejam o caso, por exemplo, da jornalista Larissa Cavalcanti, que durante o período de home office, junto a um mês de férias tirados no começo da pandemia, resolveu se entregar a uma antiga paixão: a marcenaria. “Às vezes, depois das 10 da noite, me vejo serrando madeira e estudando um jeito de montar um pequeno móvel na oficina que adaptei aqui do lado de casa”, conta ela, que já acabou de fazer algumas peças para o seu escritório.

A diferença entre fazer e comprar pronto, nesse caso, é um oceano de prazer pessoal, simbolizado por um desafio de ver pronto o que só estava na imaginação.

Foi durante o isolamento que resolvi pôr em prática uma antiga paixão pela marcenaria e quem sabe, no futuro, isso não vira uma profissão”, diz enquanto exibe algumas das peças produzidas nos últimos meses.

Até escreveu um poeminha a respeito no Instagram que diz o seguinte:
“Quero ter uma vida mais simples/ Faço coisas que disseram que eu não podia/ Bato perna no mei do mundo”.

Num texto mais longo ela explica o que acontece: “Eu queria agradecer todos que estão acompanhando essa empreitada, especialmente aos que estavam torcendo por mim na briga contra essas gavetas”.

Para quem estudou a arte da marcenaria pela internet, cada pequeno projeto conquistado por Larissa Cavalcanti é um pequeno momento de glória pessoal e isso fica evidente quando ela saúda o nascimento do primeiro gaveteiro:

“Esse é meu primeiro móvel. Eu que calculei, projetei, cortei, lixei, encaixei e parafusei. Ele não é perfeito, mas com certeza é simbólico, lindo e tem um cheirinho de madeira que eu já amo”, relata ela. Pronto, não precisa perguntar mais nada. Ou talvez precise.

Segundo ela, o pequeno móvel vai além da satisfação pessoal de transformar tábuas de madeira em objeto para o uso diário. “Ele representa todas as vezes que eu fui ignorada e desacreditada por pedreiros, marceneiros, ferreiros, engenheiros e vendedores de lojas de material de construção”.

“Representa as piadas que engoli calada em ambientes ‘de homem’ piadas sobre ‘pedir pro meu marido fazer’, ‘esse trabalho não ser coisa de mulher’, ‘deixar isso pra quem não é de humanas”.

A jornalista que há dentro dessa marceneira não precisa de interpretação quando desabafa num fecho magistral sobre o que cada objeto construído com as próprias mãos representa:

“Responde a cada um daqueles olhares, que só as mulheres sabem que são direcionados a nós. São o tipo de coisa que os caras dizem “só tô olhando”, mas faz você se sentir invadida e desrespeitada. Muito comuns em lojas especializadas em “coisas de homem”. Responde também as mulheres, que ainda acham que rosa é de menina e azul é de menino. Que cada coisa tem seu lugar”. Não dá para ler o resto. “Eu posso ocupar o lugar que eu quiser e você também! Acho que por isso escolhi que o primeiro objeto que eu ia construir não seria uma coisinha simples. Essa é minha resposta a tudo isso que me fez ficar no meio do caminho com esse sonho por tanto tempo. Esse é meu primeiro móvel. Funcional e excelente para as minhas necessidades. O mais legal que eu já fiz até hoje, porque amanhã vou fazer um melhor”. Falou e disse.

Matheus Augusto da Silveira e Francisca. Foto: Ney Douglas/Agora RN

Matheus

Ele tinha um emprego quando começou a pandemia e não tem mais. Simples assim. Mexia com produção de vídeo e, de repente, começou a lidar com a produção de massas para celebrados pratos da cozinha italiana. O que não foi nenhuma novidade para ele, que já convivia com isso quando sua mãe mantinha um conhecido restaurante no bairro de Neópolis. Ao fechar as portas há dois anos por dar muito trabalho à matriarca, hoje com 68 anos, só um bom filho e uma pandemia para fazê-la retornar aos negócios.

O nome dele é Matheus Augusto da Silveira e o dela Francisca. A cozinha é do antigo restaurante no mesmo endereço onde ela mora com o marido, só sem mais os clientes em mesas, já que os pratos são todos despachados pelo delivery.

As entregas dos produtos feitos em família são feitas por ele mesmo, que também faz a massa e a estica para que a mãe faça os deliciosos recheios.
Ele, por sinal, foi o responsável por batizar o novo negócio, que virou simplesmente como “Matteo”.

Quanto aos clientes, são todos amigos dele ou pessoas que já conheciam a incrível culinária de dona Francisca e morriam de saudade de provar de novo o tempero do “Paçoca e Cia”, construído inteiramente a partir dos lucros de um bar tocado antes pela acreana mãe do potiguar.

Desse bar saíram os tira-gostos que financiaram a construção do restaurante onde hoje moram dona Francisca e o marido e de cuja cozinha saem os pratos prontos para congelar. Raviolis recheados, empadões (famosa marca registrada da anfitriã de outros tempos), lasanhas, panquecas, canelones, nhoques, escondidinhos, panquecas – todos com os recheios by Francisca.

Já Matheus, como já dissemos, cuidada de esticar as massas em dois cilindros adquiridos especialmente para a operação, administrar as contas e fazer as entregas.

“Foi por ser muito mais tranquilo preparar encomendas do que atender clientes em mesas que a minha mãe aceitou voltar a cozinhar”, conta Matheus, que já tem planos de expandir o negócio para atender festas e reuniões.

Mas, no fundo, o que valeu nisso tudo foi a iniciativa de recomeçar novamente.

A paciência e o amor de uma mulher pelo ofício, a despeito da idade avançada, e o reencontro de um filho com a cozinha de casa por onde ele e seus dois irmãos passaram tantas vezes.

Nesse caso, na visão do jovem empreendedor do setor de alimentos, a contribuição da quarentena para a guinda na carreira profissional foi total.
“Ficando mais tempo em casa as ideias começam a brotar e deu nisso”, explica Matheus.

Hoje, ele acha que o dinheiro está até melhor do que na época em que trabalhava num emprego fixo. E com a vantagem de pingar todos os dias, o que acabou com aquela história de ficar sem recursos até o dia de receber o salário.

Tem mais. Matheus encontrou o prazer de esticar suas massas e reencontrar os amigos, já que todos os seus clientes estão em suas redes sociais. Quer melhor do que isso?

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