O grupo político da governadora Fátima Bezerra (PT) descarta qualquer reaproximação com o MDB para as eleições de 2026. Para o secretário-chefe do Gabinete Civil do Governo do Estado, Raimundo Alves, a relação com o vice-governador Walter Alves é “página virada”.
Em janeiro, Walter comunicou a Fátima que não vai assumir a gestão no caso de uma eventual renúncia da governadora para ficar apta a disputar o Senado. Além disso, o líder do MDB no Estado migrou para a oposição e declarou apoio à pré-candidatura do prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra (União), ao Governo do Estado.

“Para a gente, a situação do MDB, personalizada no vice-governador Walter Alves e no ex-senador Garibaldi Filho, é uma página virada”, declarou Raimundo, que é o principal articulador político da governadora, em entrevista ao programa Tamo Junto, da FM Universitária, na quarta-feira 11.
De acordo com o chefe da Casa Civil, o governo trabalhou durante todo o ano passado para estruturar uma transição pactuada, partindo do pressuposto de que Walter assumiria o Executivo e manteria o alinhamento político com o grupo que venceu as eleições de 2018 e 2022. Raimundo relatou que, até o início de 2025, a intenção era que o vice-governador fosse o candidato à sucessão.
“A gente estava conversando com o vice-governador até o início do ano passado na intenção de que ele fosse o candidato a governador, até que ele começou a apresentar resistência”, afirmou.
Ele contou que o próprio Walter teria sinalizado não desejar o cargo. “Teve um dia que ele chegou para mim e disse assim: ‘Raimundo, eu não quero para a minha vida essa vida de Fátima. Eu não quero essa vida de Fátima’.”
Mesmo diante dessa resistência, Raimundo afirma que houve entendimento de que Walter assumiria o governo e permaneceria no projeto político. “Mas eu vou assumir o governo e permaneço no grupo, permaneço no projeto”, teria dito o vice, segundo o secretário.
O secretário relatou que, a partir do fim de 2025, começaram os sinais de mudança de postura. Para Raimundo, o ponto mais sensível foi a forma como a saída foi conduzida publicamente, com críticas à situação fiscal do Estado. “A forma como ele fez foi uma forma absolutamente… não foi companheira, não foi de aliado, não foi um comportamento de aliado.”
Questionado se se sentiu traído, ele respondeu: “Na política, é sim uma traição.” Em outro momento, ao ser perguntado diretamente se houve deslealdade, respondeu de forma categórica: “Total. Totalmente desleal.”
Segundo Raimundo, a narrativa de que o Estado estaria ingovernável ou quebrado não condizia com a realidade e teria contribuído para desgastar politicamente o governo. Ele defendeu que há dificuldades fiscais, mas dentro de parâmetros administráveis. E enfatizou que a prioridade da gestão de Fátima Bezerra foi manter os salários dos servidores em dia.
Para ele, a leitura pública de colapso foi politicamente explorada. “A deslealdade reside muito fortemente nessa situação. Essa leitura, essa narrativa de que o Estado estava quebrado fazia parte também das conversas que hoje a gente sabe que já estavam acontecendo com a candidatura adversária”, afirmou, em referência ao prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra.
Diante do rompimento do agora ex-aliado, Raimundo confirmou que nomes indicados pelo MDB no governo passarão por uma nova avaliação. Na quarta-feira, foram confirmadas as exonerações do diretor-presidente da Companhia de Águas e Esgotos (Caern), Sérgio Rodrigues, e do secretário-adjunto Geomarque Nunes de França Junior, da Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos.
“Todo cargo, mesmo indicado por quem quer que seja, depois que entra no governo faz parte do governo. E aí, a partir da avaliação dessas pessoas e do interesse da gestão, é que é avaliado como essas situações vão se acomodando.”