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Polêmica
Putin decreta que só o vinho espumante fabricado na Rússia é champanhe e ‘escandaliza’ franceses
Governo da França reage e ameaça ir à OMC. Produtores pedem que bebida deixe de ser exportada para o mercado russo até que regras sejam esclarecidas
O Globo
06/07/2021 | 12:56

Vladimir Putin desenterrou a batalha do champanhe. O presidente russo assinou uma nova lei que decreta que apenas os champánskoe podem ser rotulados como champanhe a partir de agora na Rússia. Os espumantes populares e acessíveis foram criados na era soviética como uma forma de democratizar o luxo.

Logo após a decisão russa, o ministro francês das Relações Exteriores, Jean-Yves Le Drian, afirmou que, se a medida adota por Putin violar as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), Paris buscaria um recurso.

Os borbulhantes vinhos estrangeiros e, portanto, os da região francesa de Champagne (nordeste), protegidos por denominação de origem controlada e que são produzidos apenas com determinadas variedades de uvas e um processo de maturação específico, serão rotulados e classificados como “vinhos espumantes” em território russo.

O regulamento que altera a lei sobre bebidas alcoólicas, assinado na última sexta-feira, tem causado indignação e estupor em grande parte da indústria do champanhe. Essa parcela defende a denominação original e controlada.

E insiste que o champanhe só venha da região francesa de mesmo nome, onde o terroir cria as condições favoráveis para o vinho, feito apenas por meio de variedades de chardonnay, pinot noir, meunier, arbane, petit meslier, pinot blanc ou pinot gris, colhidas por poda curta.

A associação que reúne a indústria francesa declarou estar “escandalizada” e já pediu aos produtores que parem de enviar seus vinhos para a Rússia, até que as novas regras sejam esclarecidas.

“O Comitê de Champagne lamenta que esta legislação não garanta que os consumidores russos tenham informações claras e transparentes sobre as origens e características do vinho”, apontam seus co-presidentes Maxime Toubart e Jean-Marie Barillere em um comunicado.

Eles lembram que o nome “champanhe” é protegido em mais de 120 países. Entretanto, o Ministro do Comércio Exterior, Franck Riester, afirmou que sua equipe está analisando as implicações da nova lei russa no setor vinícola francês.

Mas também há fabricantes, como a potente Moët Hennessy, do grupo de produtos de luxo LVMH e responsáveis por marcas como Moët Chandon, Veuve Clicquot ou Dom Perignon, que decidiram engolir à relutância e se adaptar resignadamente à nova rotulagem.

A empresa ameaçou, neste fim de semana, suspender temporariamente a distribuição na Rússia, alegando que a mudança do rótulo custaria milhares de euros. Em uma carta aos seus parceiros russos, publicada pelo diário de negócios Vedomosti, explicou que a nova regra poderia obrigar não só a alterar a rotulagem, mas também a certificar os vinhos novamente. Mas o espumante Moët permanecerá disponível na Rússia.

“As casas de champanhe Moët Hennessy sempre respeitaram a lei em vigor onde quer que operem e reiniciarão as entregas assim que puderem fazer as mudanças [no rótulo]”, disse o grupo em um comunicado na segunda-feira.

O país euroasiático, que tem uma população de 144,5 milhões de habitantes, importa cerca de 50 milhões de litros de vinhos espumantes, 13% dos quais são champanhe, de acordo com dados do Centro Federal e Regional de Pesquisa de Mercado do Álcool da Rússia (Tsiffrra).

O órgão marca em cerca de 3% a participação russa no mercado da Moët Hennessy, que exporta vinhos para o país pelo valor de cerca de US$ 20 milhões por ano. Um segmento restrito de produtos de luxo que poucos podem pagar no país hoje.

A nova regra, que é mais um passo nas últimas leis de protecionismo russas — que já vetaram ou restringiram produtos como o queijo parmesão, o gouda ou o presunto ibérico — em meio a uma onda de sanções ocidentais contra Moscou e que visa a promover os produtores locais, tem desencadeado críticas e alarmes entre alguns.

É o caso de Olga Sokolova, diretora de vendas da Vinicom, especializada em vinhos estrangeiros, que define a situação como “absurda”; e até mesmo fabricantes russos, que se manifestaram contra a “apropriação” completa do rótulo “champanhe”.

Mas há outros, como o especialista no setor vinícola Yuri Yudich, que garantem que a lei só consagra o que já é regra.

— Desde a época soviética, que hoje é lembrada por alguns com hostilidade e por outros com leve tristeza, a palavra champanhe não significa produtos feitos em Champagne, mas vinhos secos, meio-secos, doces e outros de todos os tipos com bolhas — Yudich escreve em uma análise, em que tira a importância da nova regulamentação.

Na década de 1920, com Josef Stalin já no poder e após a abolição da Lei Seca, os vinicultores soviéticos foram encarregados de criar um vinho espumante disponível para as camadas mais amplas da população trabalhadora: uma versão feita na URSS do vinho francês das elites de todo o mundo.

Criou-se assim o Champanhe Soviético e, mais tarde, o seu sucessor russo, o champánskoe, típico em festas e no Ano Novo. Na verdade, a maioria dos russos bebe vinho espumante nacional; apenas 27% do mercado corresponde a vinhos estrangeiros deste tipo: de cava a prosecco ou champanhe.

Não houve debate social sobre a nova regulamentação, o que pegou consumidores e distribuidores desprevenidos. Mas existem empresários que podem se beneficiar com isso, como Yuri Kovalchuk, amigo próximo do presidente Putin, que dirige o Banco Rossiya (sancionado pelos EUA) e que, por meio de uma subsidiária, é dono da fábrica de espumantes Novy Svet, na península ucraniana da Crimeia, que a Rússia anexou ilegalmente em 2014.

Ou Boris Titov, presidente da comissão de defesa dos direitos dos empresários, cuja família é proprietária da fábrica de espumantes Abrau-Dyurso, na região de Krasnodar. Suas ações subiram 3% na segunda-feira (e subiram até 7,7% nas primeiras operações), apesar de seu diretor-geral, Pavel Titov (filho de Boris Titov) declarar que não via muito sentido na lei.

— É muito importante proteger os vinhos russos em nosso mercado. Mas a legislação deve ser razoável e não contradizer o bom senso. Não tenho nenhuma dúvida de que o verdadeiro champagne é produzido na região francesa de Champagne — disse à RFI.

Esta não é a primeira vez que Putin dá uma mãozinha à empresa de Titov. Suas ações também dispararam no início do ano, quando o presidente russo comentou que se interessava muito por enologia e que, caso se retirasse, poderia se dedicar ao setor e até ser assessor das vinícolas Abrau-Dyurso.

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