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Ciência
Sem vacina ou isolamento, pico da 2ª onda da pandemia será mais grave que o primeiro no RN, diz estudo
Novo pico de casos e óbitos por coronavírus está previsto para o período entre 15 de janeiro e março de 2021, segundo pesquisador e professor da UFRN
Bruno Vital
16/12/2020 | 07:13

A segunda onda de contágio da Covid-19 no Rio Grande do Norte poderá ser mais grave que a primeira, com pico de casos e óbitos previsto para o período entre 15 de janeiro e março de 2021. É o que aponta um estudo encabeçado por José Dias do Nascimento, pesquisador e professor do Departamento de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). O artigo será encaminhado ao Comitê Científico de Combate ao Coronavírus do Nordeste.

“Analisando os estados do Nordeste, alguns já têm uma impressão digital muito formada da segunda onda e o Rio Grande do Norte é um deles. Isso acontece porque as pessoas suscetíveis que ficaram isoladas começaram a sair de uma hora pra outra, o que foi uma estratégia muito errada. Por exemplo, no RN nós tivemos a abertura das escolas privadas na mesma quinzena de início das campanhas políticas, então isso foi uma combinação vigorosa para o recontágio maciço”, detalha o pesquisador.

Para evitar uma nova onda grave de infecções, hospitalizações e óbitos no Rio Grande do Norte que está em risco pandêmico alto, o pesquisador acredita que a situação pode ser contida com a chegada da vacina na metade de janeiro ou com a melhoria dos índices de isolamento no estado. Segundo Dias, sem vacina e sem quebra da rede de contágio, a pandemia pode chegar até maio de 2021.

“Isso pode ser modificado de duas formas. A pandemia só acaba quando 90% da população for contagiada ou quando a vacina for aplicada. Esses são os dois finais possíveis. Se a vacina ocorrer até meados de janeiro e for eficaz, a gente consegue frear essa segunda onda. Senão, com esses níveis de aglomerações que estamos registrando hoje nós teremos uma segunda onda exatamente como estamos projetando”, afirma José Dias do Nascimento.

Além das campanhas políticas e do retorno às aulas presenciais nas escolas particulares, outro evento deve se somar aos principais causadores do novo momento da pandemia no Rio Grande do Norte: as festas de fim de ano, onde as pessoas tradicionalmente viajam para encontrar familiares em confraternizações.

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Gráfico: Cedido

O gráfico retirado do estudo mostra três fases cruciais da evolução da pandemia: o pico da Covid-19 e em seguida a primeira fração da reabertura do comércio (1); segunda fase da retomada gradual com reabertura de academias e outras serviços (2); e o período das campanhas políticas e reabertura das escolas privadas que causou um “soluço” na curva, além de mudar a tendência de crescimento (3). O ponto 4 é a fase de crescimento acentuado da curva de contágio (segunda onda) projetada pelo estudo.

“O pior não é nem a viagem em si, mas quem vai, vai querer levar um presente ou comprar uma lembrança, vai ao shopping, ver papai noel, essa história toda. Então isso é muito nocivo também. Tudo isso contribui para a formação dessa segunda onda pesada que está por vir”, detalha o professor de Astrofísica da UFRN.

Os pesquisadores César Rennó-Costa (Instituto Metrópole Digital/UFRN); Leandro Almeida (Física/UFRN); e Renan Cipriano Moioli (Instituto Metrópole Digital/UFRN) também assinam o estudo.

“Abrimos muito cedo”

Em julho deste ano, o governo estadual começou a reabrir parte do comércio após dois adiamentos, dentro de um plano de retomada da economia que previa um protocolo de específica de segurança sanitária. A decisão criou um racha dentro do comitê científico formado pelo governo para criar medidas de combate à pandemia. José Dias do Nascimento e o infectologista Ion Andrade acabaram deixando a equipe de especialistas.

“Nós tivemos uma oportunidade uma muito grande de controlar a pandemia e segurar o vírus entre os meses de agosto e outubro e criou-se um discurso que a situação estava sob controle. Esse foi um dos motivos pelo qual eu deixou comitê de especialistas porque eu discordei que a abertura seria uma boa ideia naquele momento. Tivemos a passagem pelo pico que foi previsto pelos modelos, mas a minha posição era de que abrimos cedo demais. Abrimos com o vírus circulando de uma forma muito eficiente”, completa Dias.

Apreensão com Natal e Réveillon

A médica infectologista Marise Freitas vai ao encontro dos estudos apresentados pelo professor José Dias. Ela destaca que a maior parte dos potiguares seguem suscetíveis ao vírus e que o Rio Grande do Norte já enfrenta pressão por leitos.

Para Freitas, o momento da pandemia no Rio Grande do Norte é preocupante na ocorrência de novos contágios, apesar dos casos não estarem evoluindo para óbitos de uma forma mais grave. “Mesmo assim, já sentimos um impacto na pressão por leitos públicos e privados. É muito preocupante por conta do momento de final de ano, de festas, que fazem parte de uma cultura do brasileiro. Passar por este momento em curva ascendente de casos é muito preocupante porque nos dá a perspectiva de uma curva de casos maior do que a que nós tivemos no meio do ano”, diz.

De acordo com a plataforma Regula RN, da Secretaria Estaual de Saúde Pública do RN (Sesap), o estado tem 68,9% de ocupação de leitos. A maior pressão está sob a região Oeste, que registra 89,1% de ocupação. Os dados foram consultados na terça-feira 15.

“Nós estamos muito apreensivos com o que vai acontecer após Natal e Réveillon, na expectativa pela primeira quinzena de janeiro. A equipe de saúde está toda cansada, exausta de trabalhar em excesso para cuidar das pessoas doentes que chegam aos hospitais. Se em janeiro nós tivermos um aumento de casos, é muito provável que a gente volte a ter escassez de leitos e isso significa maior risco de desfecho de negativo, de óbitos”, completa a especialista.

A Secretaria Estadual de Saúde Pública (Sesap) não quis se pronunciar sobre o assunto. Até terça-feira 15, o Rio Grande do Norte registra 104.855 casos confirmados de Covid-19, além de 2.821 mortes causadas pela doença.

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