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2020
Pela 1ª vez, número de filiados a partidos cai em ano de eleição municipal
Levantamento com base em dados do TSE aponta que o número de pessoas vinculadas a legendas caiu 2% em 2020; queda, mesmo pequena, é inédita
O Globo
13/09/2020 | 08:49

A política partidária está atraindo menos os brasileiros. Pela primeira vez desde 2004, o número de filiados a partidos políticos no país encolheu em um ano de eleição municipal. Levantamento com base em dados do TSE aponta que o número de pessoas vinculadas a legendas caiu 2% em 2020, se comparado a 2018. Ao todo, o país tem 16,49 milhões de pessoas em 33 partidos.

A queda, mesmo pequena, é inédita. Historicamente, os pleitos municipais são momentos em que as siglas tendem a aumentar a sua base de olho nas disputas por um lugar nas câmaras de vereadores de todo o país. Em 2016, por exemplo, o crescimento na comparação com 2014 foi de 7,7%. Em 2012, de 8,83%. Até agora, somente uma queda do número de filiados havia sido registrada, em 2006, ano de eleição federal e estadual.

Para especialistas, a retração observada este ano pode estar relacionada a uma tendência de distanciamento entre eleitores e a política partidária, bem como do processo eleitoral. Eles apontam também para a possibilidade de mudança nas disputas locais, que costumam ser protagonizadas por legendas tradicionais. Atualmente, 11% dos eleitores estão em alguma legenda.

A redução no número de filiados se soma à menor participação da população nas eleições, principalmente entre os jovens. Como o GLOBO mostrou em agosto, neste ano, o número de eleitores entre 16 e 17 anos aptos a votar é 55% menor que o contabilizado em 2016 — e é o resultado mais baixo desde 1990, após o voto facultativo para esta faixa etária ser instituído pela Constituição de 1988.

A mudança demográfica também pode explicar a redução do número de brasileiros que podem votar. Em 2016, 91,2% das pessoas acima de 16 anos constavam no cadastro do TSE. Este ano, esse percentual é de 88,9%. Soma-se a isso a crescente abstenção registrada nos últimos pleitos.

“É uma mudança. Menos jovens indo votar, mais idosos na população e uma alta abstenção para esse segmento. E se você deixa de votar, você é excluído (do cadastro)”, ressalta Jairo Nicolau, cientista político e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV). “Mas ainda temos um número alto, na comparação com outros países, por conta do voto obrigatório”.

A baixa filiação e o menor contingente apto a votar podem gerar efeitos para a política no futuro. O aumento no número de filiados em ano de eleição municipal, segundo especialistas, está relacionado, principalmente, à corrida para vereador. Além do elevado número de postulantes ao cargo, as Câmaras são tradicionalmente tidas como o primeiro passo na carreira política. Candidatos, por sua vez, tentam mobilizar novos filiados até as convenções na tentativa de aumentar seu capital político nas disputas internas.

Tendência e novidade

As eleições desde ano também trazem uma novidade: pela primeira vez as coligações não valerão para uma vaga nas câmaras municipais. Até 2018, o cálculo da distribuição das vagas no Legislativo incluía todos os partidos de uma coligação. Assim, siglas menores se juntavam a siglas maiores para aumentar suas chances. Agora, a conta será feita de acordo com a votação dos candidatos de cada partido. Isso faz com que as legendas lancem mais nomes na disputa, mesmo com menos filiados. Nomes tradicionais devem se destacar.

“Historicamente, partidos que lançam mais candidatos são aqueles com entrada maior de novos filiados. Se essa for a lógica, teoricamente, teríamos um recuo de novas candidaturas, o que não parece ser o caso, especulando que vão ter mais candidatos (por conta do fim das coligações)”, afirma Bruno Speck, professor de Ciência Política da USP.

O pleito de 2020 poderá ser, ainda, a oportunidade de consolidação das legendas menores nos municípios, pois siglas como Novo, Rede e PSOL registraram aumento do número de filiados. Já o MDB, partido mais antigo do país, encolheu 9,7% entre 2018 e 2020.

Para Maria do Socorro Sousa Braga, pesquisadora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), as legendas mais antigas ainda colhem os efeitos negativos gerados pela Operação Lava-Jato.

“O núcleo duro (partidos tradicionais) está sendo impactado por esse sintoma do apartidarismo, de uma descrença da política, da Lava-Jato, assim como os efeitos que vieram a partir de 2015”, explica a pesquisadora.

Lucas Mingardi, doutorando em Ciência Política na USP, destaca que os objetivos de partidos maiores e menores nas eleições municipais são diferentes. Para os mais tradicionais, é uma oportunidade de renovar a imagem, hoje desgastada, perante o eleitorado.

“É claro que todo mundo quer vencer eleição, mas partidos mais novos seguem a lógica de maximizar os ganhos. O que conseguir agora vai ajudar no futuro. É uma disputa diferente dos mais estabelecidos”, ressalta Mingardi. Maria do Socorro acredita que partidos da base do presidente Jair Bolsonaro com capilaridade no Nordeste podem se beneficiar com o pagamento do auxílio emergencial. “Naquelas cidades onde o auxílio teve mais impacto, o PSD pode se beneficiar”.

Sobe e desce sinaliza mudanças no campo político

O sobe e desce do número de filiados aos partidos políticos brasileiros traz ainda os ecos do terremoto eleitoral de 2018 e sinaliza para uma troca de guarda entre as principais siglas brasileiras. Dados do TSE indicam que, das cinco legendas que mais ganharam membros entre 2018 e 2020, quatro foram fundadas nos últimos 20 anos — Novo, Rede, PSOL e PSD — e uma, o PSL, mudou completamente de perfil após a chegada do presidente Jair Bolsonaro para disputar a última eleição presidencial.

As siglas em crescimento apontam também para uma reorganização do campo político brasileiro. Nas últimas três décadas, PT, de um lado, e PSDB, de outro, representaram os polos em torno dos quais orbitavam legendas de centro-esquerda, como PDT, PSB e PCdoB, e de centro-direita, como o DEM, antigo PFL. Entre os dois grupos, o predomínio era do MDB, sempre aliado ao governo de ocasião, acompanhado de várias legendas de menor expressão.

Agora, esta configuração começa a se alterar com o avanço de partidos mais jovens, que tendem a atrair mais eleitores e, consequentemente, mais filiados. O movimento inverso é observado em relação às agremiações tradicionais, aponta Bruno Speck, da Universidade de São Paulo (USP).

À esquerda, tanto a Rede quanto o PSOL surgiram a partir de dissidências do PT. As principais lideranças dos dois partidos iniciaram sua trajetória política como petistas e decidiram criar novas legendas a partir de discordâncias com os rumos dos governos Lula e Dilma Rousseff. A Rede cresceu 38,6% de 2018 para 2020 e o PSOL, 24,4%, em número de filiados.

À direita, o PSL catapultou seu número de filiados na esteira da vitória eleitoral de Bolsonaro e da eleição de uma grande bancada na Câmara, há dois anos, o que garantiu uma fatia gorda dos fundos partidário e eleitoral. O partido cresceu 80,4% desde o último pleito.

Já o Novo, que se destaca na cena política na defesa de um discurso fortemente liberal e pela recusa a utilizar recursos públicos para se manter, registrou o maior crescimento de todos, de 121%, reflexo do apelo da bandeira da nova política.

No centro, o PSD, de Gilberto Kassab, caminha para tomar o lugar que era ocupado pelo MDB. Para Maria do Socorro Sousa Braga, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), a sigla de Kassab, que faz parte da base de Bolsonaro, deve ocupar oespaço na centro-direita aberto também por DEM e PSDB. Em relação às legendas de esquerda, a pesquisadora prevê dificuldades para destronar o PT.

” PSOL e a Rede estão tentando ocupar o espaço do PT, o problema é que eles não têm a capilaridade”, afirma Maria do Socorro. Apesar do sobe e desce, só o resultado das eleições municipais será capaz de mostrar se esta mudança no campo político é estrutural ou apenas uma reacomodação passageira.

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